Se eu disser que estou de DIETA MONETÁRIA séria e que, em lugar da boca fechei foi a mão, eu vou pro inferno, Pai?
Pra mim, conceito de "caro e barato" é simples:
- É mais de um real?
- É um e cinquenta, mina. ( notem que estou mesmo em são paulo )
- Então não quero.
Né?
19.2.04
12.2.04
EU QUERO.
Descobri que existe um vibrador da Hello Kity e agora não sossego enquanto não tiver um só pra, vc sabe, colocar na mesa de centro da sala pra enfeitar.
\o/
\o/
5.2.04
Conversas que um dia chato no escritório pode gerar
Marcio: sabe qual é a pior forma de se encotrar um bicho na goiaba?
Marcio: encontrar
Daniel San: lembra o bixinho do C&P
Marcio: sei. quer responder a porra da pergunta?
Daniel San: sei não
Marcio: encontrar meio bicho!
Marcio: hahahahahahahahaha!
Daniel San: eca!
Marcio: muito engraçado!
Marcio: irc!
Daniel San: fazia anos que eu não ria tanto
Marcio: eu imagino!
Daniel San :décadas
Daniel San: desde a Guerra do Vietnã
Marcio: eu lembro de vc se descaralhando de rir no meio da guerra
Daniel San: quando servi com John Kerry, meu amigo, futuro presidente dos EE.UU
Marcio: manjo!
Marcio: sabe que ele dava muito a bunda pro dentista do pelotão?
Daniel San: estávamos num bote PC149, no meio de um alagado
Marcio: o Dr. Extração sem Dor
Daniel San: sabia, fui eu que os apresentei
Daniel San: mas, como ia dizendo...
Marcio: ah!
Marcio: sim, diga!
Daniel San: estávamos num bote, PC149, no meio de um alagado... de um lado, trezentos vietnamitas
Marcio: e aí?
Daniel San: de outro, um paredão de mata fechada sem nenhuma possibilidade de correr
Daniel San: eu podia ver a felicidade no rosto daqueles putos camponeses
Daniel San: foi quando JK me disse
- abra aquela caixa
Daniel San: eu abri, e para minha surpresa, encontrei vários saquinhos, com um gás escuro dentro
Daniel San: um gás meio verde, meio azul
Marcio: eita
Daniel San: ele disse para mim
- despeje-os na água, todos!
Daniel San: eu os despejei, enquanto os camponeses riam e engatilhavam as escopetas e metralhadoras
Marcio: e aí, e aí?
Daniel San: quando os saquinhos chegaram na borda do matagal onde os vietnamitas estavam
Daniel San: ele puxou do bolso uma espécie de controle remoto
Daniel San: apertou um botãozinho que dizia mais ou menos
- shoot her ass!
Daniel San: e boooooooommmmm!!!!!!!!!!!!
Daniel San: a mata toda se transformou numa fétida e verde-escura fumaçeira!
Daniel San: foi quando ele me disse
- comprei isto do Márcio... saca o Personal Peido-Embaleitor 74?
Daniel San: (the end)
Marcio: é verdade! me lembro de ter vendido pra ele o último carregamento!
Daniel San: foi o que salvou aquela missão americana em solo hostil
Marcio: nesse dia, eu estava num bar em Pu-tang
Daniel San: hahahahahahahaha!
Marcio: bebi tanto e comi tanto uma vietnamita que mijei fogo no dia seguinte!
Daniel San: sim, eu lembro, fica numa picada, perto de Zo-Nang
Daniel San: aaahhhh, por isso que o batalhão lhe chamava de lança-fogo??
Marcio: isso! foi uma época triste de ,minha vida!
Daniel San: então foi assim que saímos do Vietnã... num Airbus
Marcio: sim, sim... me lembro bem!
Daniel San: comprado em Feira de Sant´ana, pelo Sarney
Marcio: lembro-me inclusive, que o avião tinha uma decoração toda nordestina!
Daniel San: tava lá o velho Ulysses também,
Marcio: não foi Ulysses que queria abrir a porta do avião pra vomitar?
Daniel San: isso, as atendentes nos recebiam com aqueles chapéu-lampião
Daniel San: não, quem FEZ isso foi o Tancredo Neves
Marcio: ah é...!
Marcio: se lembra do Delfin entalado no assento?
Daniel San: hahaha! ele queria ir na asa!
Daniel San: sim, estamos apresentando o programa: RECORDAR É VIVER
Marcio:claro! estamos relembrando as histórias do nosso tempo no Vietnam
Marcio: guerra é fogo!
Daniel San: literalmente
Falar besteira nessa quantidade é quase uma arte!
Marcio: encontrar
Daniel San: lembra o bixinho do C&P
Marcio: sei. quer responder a porra da pergunta?
Daniel San: sei não
Marcio: encontrar meio bicho!
Marcio: hahahahahahahahaha!
Daniel San: eca!
Marcio: muito engraçado!
Marcio: irc!
Daniel San: fazia anos que eu não ria tanto
Marcio: eu imagino!
Daniel San :décadas
Daniel San: desde a Guerra do Vietnã
Marcio: eu lembro de vc se descaralhando de rir no meio da guerra
Daniel San: quando servi com John Kerry, meu amigo, futuro presidente dos EE.UU
Marcio: manjo!
Marcio: sabe que ele dava muito a bunda pro dentista do pelotão?
Daniel San: estávamos num bote PC149, no meio de um alagado
Marcio: o Dr. Extração sem Dor
Daniel San: sabia, fui eu que os apresentei
Daniel San: mas, como ia dizendo...
Marcio: ah!
Marcio: sim, diga!
Daniel San: estávamos num bote, PC149, no meio de um alagado... de um lado, trezentos vietnamitas
Marcio: e aí?
Daniel San: de outro, um paredão de mata fechada sem nenhuma possibilidade de correr
Daniel San: eu podia ver a felicidade no rosto daqueles putos camponeses
Daniel San: foi quando JK me disse
- abra aquela caixa
Daniel San: eu abri, e para minha surpresa, encontrei vários saquinhos, com um gás escuro dentro
Daniel San: um gás meio verde, meio azul
Marcio: eita
Daniel San: ele disse para mim
- despeje-os na água, todos!
Daniel San: eu os despejei, enquanto os camponeses riam e engatilhavam as escopetas e metralhadoras
Marcio: e aí, e aí?
Daniel San: quando os saquinhos chegaram na borda do matagal onde os vietnamitas estavam
Daniel San: ele puxou do bolso uma espécie de controle remoto
Daniel San: apertou um botãozinho que dizia mais ou menos
- shoot her ass!
Daniel San: e boooooooommmmm!!!!!!!!!!!!
Daniel San: a mata toda se transformou numa fétida e verde-escura fumaçeira!
Daniel San: foi quando ele me disse
- comprei isto do Márcio... saca o Personal Peido-Embaleitor 74?
Daniel San: (the end)
Marcio: é verdade! me lembro de ter vendido pra ele o último carregamento!
Daniel San: foi o que salvou aquela missão americana em solo hostil
Marcio: nesse dia, eu estava num bar em Pu-tang
Daniel San: hahahahahahahaha!
Marcio: bebi tanto e comi tanto uma vietnamita que mijei fogo no dia seguinte!
Daniel San: sim, eu lembro, fica numa picada, perto de Zo-Nang
Daniel San: aaahhhh, por isso que o batalhão lhe chamava de lança-fogo??
Marcio: isso! foi uma época triste de ,minha vida!
Daniel San: então foi assim que saímos do Vietnã... num Airbus
Marcio: sim, sim... me lembro bem!
Daniel San: comprado em Feira de Sant´ana, pelo Sarney
Marcio: lembro-me inclusive, que o avião tinha uma decoração toda nordestina!
Daniel San: tava lá o velho Ulysses também,
Marcio: não foi Ulysses que queria abrir a porta do avião pra vomitar?
Daniel San: isso, as atendentes nos recebiam com aqueles chapéu-lampião
Daniel San: não, quem FEZ isso foi o Tancredo Neves
Marcio: ah é...!
Marcio: se lembra do Delfin entalado no assento?
Daniel San: hahaha! ele queria ir na asa!
Daniel San: sim, estamos apresentando o programa: RECORDAR É VIVER
Marcio:claro! estamos relembrando as histórias do nosso tempo no Vietnam
Marcio: guerra é fogo!
Daniel San: literalmente
Falar besteira nessa quantidade é quase uma arte!
4.2.04
Jabá pouco é bobagem
Fala, sangue.
Seguinte: aquele lance de meninadatorre.com tava me dando nos pacová já. Aí, chutei o pau da barraca e fiz um outro, nome nadavê, tipo ansim, pá botá os bicho pá fora, tá ligado?
Então.
Agora a Menina da Torre é A MINA CARIOCA DE SAMPA.
Já tô pedindo um template lá. Quem quiser ajudar.....
Mas ó, Chefe: fica tranquilo que eu já trouxe meus paninhos pra cá e me instalei, falou?
Daqui não saio, adqui ninguém me ti-ra.
Seguinte: aquele lance de meninadatorre.com tava me dando nos pacová já. Aí, chutei o pau da barraca e fiz um outro, nome nadavê, tipo ansim, pá botá os bicho pá fora, tá ligado?
Então.
Agora a Menina da Torre é A MINA CARIOCA DE SAMPA.
Já tô pedindo um template lá. Quem quiser ajudar.....
Mas ó, Chefe: fica tranquilo que eu já trouxe meus paninhos pra cá e me instalei, falou?
Daqui não saio, adqui ninguém me ti-ra.
3.2.04
A Verdade Verdadeira
Perseverar é se foder até não poder mais.
E, para quem não sabia: eu sempre estive aqui. Muito prazer, eu sou a Menina da Torre e costumo abalar Bangu. Bangu não, que é coisa de pobre. Mindinguinha. Eu abalo do Jabaquara ao Tucuruvi. Sou a rainha do Taboão. E por aí afora. Tô chique que só, me afogando em enchentes em uma das maiores metrópoles do mundo. Mas pelo menos é de se dar orgulho. " Uma das maiores do mundo" Heh.
Sou a Vice-Presidente de Operações desta pocilga até segunda ordem.
E ai de quem ousar dizer o contrário.
Estou exilada e por enquanto só mantenho contato por aqui. E não, este não é meu novo endereço. Em breve, na sua TV, a próxima novela das sete. Não perca!
E, para quem não sabia: eu sempre estive aqui. Muito prazer, eu sou a Menina da Torre e costumo abalar Bangu. Bangu não, que é coisa de pobre. Mindinguinha. Eu abalo do Jabaquara ao Tucuruvi. Sou a rainha do Taboão. E por aí afora. Tô chique que só, me afogando em enchentes em uma das maiores metrópoles do mundo. Mas pelo menos é de se dar orgulho. " Uma das maiores do mundo" Heh.
Sou a Vice-Presidente de Operações desta pocilga até segunda ordem.
E ai de quem ousar dizer o contrário.
Estou exilada e por enquanto só mantenho contato por aqui. E não, este não é meu novo endereço. Em breve, na sua TV, a próxima novela das sete. Não perca!
30.1.04
Aquela velha idade nova.
Eram duas, as moças. Bem, "moças" é bondade, já que deviam equilibrar-se entre seus sessenta e setenta anos. Não importa. Estavam lado a lado, em um daqueles bancos de cor cinza do metrô de São Paulo. Linha Azul, estação Ana Rosa, sentido Tucuruvi, destino Sé. Quem conhece um pouco esse caos de linhas e baldeações e metamorfoses já se situou. Quem não, bem, também não tem muito o que exlicar. É mais ou menos como estar na Linha verde do metrô do Rio, na estação de Triagem, sentido Estácio, destino São Cristóvão. Ok. Mas divago.
Eram duas, as moças. Ambas enrugadas, mas as semelhanças paravam por aí. A da esquerda, tadinha, um pouco curvada, vestido de pano preto e branco, cabelo preso em coque, sandálias rasteiras de couro, nenhum acessório a não ser por uma bolsa igualmente de pano preto e olhos azuis distantes em algum ano de antes. Ou de depois. Ou de nunca mais.
Eram duas, as moças. A da direita, enrugada sim, mas o sintoma velhice só se podia perceber por este fato. Vestia jeans bordado, camisa de seda com babados, jaqueta jeans com lantejoulas, sapato bico fino e carregava em si anéis e brincos ostensivos. Tinha uma maquiagem forte, cabelos avermelhados e um esforço gigantesco em se parecer mais nova. Inquieta, não sossegava um minutos, abria a bolsa, tirava um espelhinho, ajeitava o cabelo, puxava um lenço, secava o rosto - céus, como fazia calor - , olhava o telefone, virava-se para olhar a rua, cruzava as pernas, descruzava e quem estava em volta começou a se incomodar.
Menos eu. Eram duas, as moças. E eu ali, de pé - tinha cedido o meu lugar no banco cinza para a primeira, da esquerda - frente às duas, tecendo cenas em minha mente: de onde estavam vindo? Por que eram tão diferentes? Que passado guardavam ali, estampado em cada ruga e em cada gesto - exagerado em uma e nulo em outra - e para onde estavam seguindo?
Fiquei a imaginar. Eram duas as moças. Algumas décadas atrás, a da esquerda era uma recatada moça de família. Casou-se sem amor, teve filhos por ser o percurso normal da mulher, envelheceu porque assim o tinha de ser. A outra, da direita, essa não: frequentou salões e cabarés, deitou-se com os homens que quis - e com os que não quis, por dinheiro. Viveu. Quebrou a cara algumas vezes, mas paciência. Ou poderia ser o contrário. Ou não. Sou só eu imaginando coisas.
Eu ali, frente à elas. Uma quieta, a outra irrequieta ainda. Elas me olham. E eu me imagino equilibrando-me entre meus sessenta e setenta anos, se vou ser como uma ou outra. E elas ficam ali, a lembrar de seus vinte e poucos.
E desço sem perguntar qual das duas é mais feliz.
Eram duas, as moças. Ambas enrugadas, mas as semelhanças paravam por aí. A da esquerda, tadinha, um pouco curvada, vestido de pano preto e branco, cabelo preso em coque, sandálias rasteiras de couro, nenhum acessório a não ser por uma bolsa igualmente de pano preto e olhos azuis distantes em algum ano de antes. Ou de depois. Ou de nunca mais.
Eram duas, as moças. A da direita, enrugada sim, mas o sintoma velhice só se podia perceber por este fato. Vestia jeans bordado, camisa de seda com babados, jaqueta jeans com lantejoulas, sapato bico fino e carregava em si anéis e brincos ostensivos. Tinha uma maquiagem forte, cabelos avermelhados e um esforço gigantesco em se parecer mais nova. Inquieta, não sossegava um minutos, abria a bolsa, tirava um espelhinho, ajeitava o cabelo, puxava um lenço, secava o rosto - céus, como fazia calor - , olhava o telefone, virava-se para olhar a rua, cruzava as pernas, descruzava e quem estava em volta começou a se incomodar.
Menos eu. Eram duas, as moças. E eu ali, de pé - tinha cedido o meu lugar no banco cinza para a primeira, da esquerda - frente às duas, tecendo cenas em minha mente: de onde estavam vindo? Por que eram tão diferentes? Que passado guardavam ali, estampado em cada ruga e em cada gesto - exagerado em uma e nulo em outra - e para onde estavam seguindo?
Fiquei a imaginar. Eram duas as moças. Algumas décadas atrás, a da esquerda era uma recatada moça de família. Casou-se sem amor, teve filhos por ser o percurso normal da mulher, envelheceu porque assim o tinha de ser. A outra, da direita, essa não: frequentou salões e cabarés, deitou-se com os homens que quis - e com os que não quis, por dinheiro. Viveu. Quebrou a cara algumas vezes, mas paciência. Ou poderia ser o contrário. Ou não. Sou só eu imaginando coisas.
Eu ali, frente à elas. Uma quieta, a outra irrequieta ainda. Elas me olham. E eu me imagino equilibrando-me entre meus sessenta e setenta anos, se vou ser como uma ou outra. E elas ficam ali, a lembrar de seus vinte e poucos.
E desço sem perguntar qual das duas é mais feliz.
25.1.04
Análise
Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, nesse ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
(Fernando Pessoa)
Que me vem de olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, nesse ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
(Fernando Pessoa)
20.1.04
Perguntinhas...
Vocês já repararam que eu tenho dado títulos aos meus textos?
Vocês (além do Léo) repararam que eu matei meu primeiro personagem?
Vocês (além do Léo) repararam que eu matei meu primeiro personagem?
13.1.04
Das memórias e seus percalços
Andava pela rua cabisbaixo repassando sua vida como se fosse uma sessão de slides. Recriava diálogos modificando-os como se acontecessem agora e pudesse incluir ou suprimir falas, fazer outros movimentos. De um certo modo, se divertia.
Uma chuva fina caia sobre a cidade emprestando uma coloração plúmbea e fria aos prédios e até mesmo ao mar que mais parecia uma continuação em movimento do céu negro e carregado. Sentou-se em um banco da orla e nem se incomodou com o contato da pedra fria e úmida contra seu traseiro. Admirava o movimento das ondas e suas memórias surgiam no mesmo ritmo: indo e voltando não dando mais tempo para que as cenas fossem reconstruídas. Simplesmente apareciam abruptamente, sumindo com delicadeza deixando suas impressões na areia e voltando para o fundo escuro de onde vieram. Sentia-se sufocado por tantas lembranças e já não conseguia mais ficar sentado, precisava se movimentar. Acreditava que assim deixaria para trás suas memórias mas não podia. “Quem sou eu sem minhas memórias? Como uma pessoa pode se sentir completa sem relembrar o que passou, o que vivi?”. Parou repentinamente e reparou que estava de olhos fechados. As perguntas cessaram assim como o ir e vir de suas lembranças. Olhou ao redor e se descobriu nu em meio à praia, suas roupas tinham ficado para trás e sentia seu corpo quente apesar do dia frio. Olhou para o mar e resolveu ir de encontro às suas memórias, foi indo, indo, vencendo as ondas com toda a determinação que lhe restava. De tão determinado, sentia-se invencível, capaz de vencer a própria morte.
Seu corpo fora encontrado ainda agonizante nas areias da praia de Ipanema. O pescador que o encontrou, contou à polícia que ainda pode ouvir seu último sussurro:
- Encontrei – ele dizia – encontrei...!
Uma chuva fina caia sobre a cidade emprestando uma coloração plúmbea e fria aos prédios e até mesmo ao mar que mais parecia uma continuação em movimento do céu negro e carregado. Sentou-se em um banco da orla e nem se incomodou com o contato da pedra fria e úmida contra seu traseiro. Admirava o movimento das ondas e suas memórias surgiam no mesmo ritmo: indo e voltando não dando mais tempo para que as cenas fossem reconstruídas. Simplesmente apareciam abruptamente, sumindo com delicadeza deixando suas impressões na areia e voltando para o fundo escuro de onde vieram. Sentia-se sufocado por tantas lembranças e já não conseguia mais ficar sentado, precisava se movimentar. Acreditava que assim deixaria para trás suas memórias mas não podia. “Quem sou eu sem minhas memórias? Como uma pessoa pode se sentir completa sem relembrar o que passou, o que vivi?”. Parou repentinamente e reparou que estava de olhos fechados. As perguntas cessaram assim como o ir e vir de suas lembranças. Olhou ao redor e se descobriu nu em meio à praia, suas roupas tinham ficado para trás e sentia seu corpo quente apesar do dia frio. Olhou para o mar e resolveu ir de encontro às suas memórias, foi indo, indo, vencendo as ondas com toda a determinação que lhe restava. De tão determinado, sentia-se invencível, capaz de vencer a própria morte.
Seu corpo fora encontrado ainda agonizante nas areias da praia de Ipanema. O pescador que o encontrou, contou à polícia que ainda pode ouvir seu último sussurro:
- Encontrei – ele dizia – encontrei...!
8.1.04
2.1.04
12.12.03
- Sabe o que eu queria?
- Não.
- Ser seguro de mim...
- E você não é?
- Não. Por que? Pareço?
- Parece... Mas também, a gente se conhece pouco. Ainda não sei suas reações, seu comportamento.
- É verdade. E o mais curioso é que parece que a gente se conhece há tempos incontáveis.
- Tempo... Acho que é a única coisa comum a tudo. Tudo mesmo! Tudo tem um tempo seu, próprio. E ainda assim, tempo pode ser conceitual.
- Como assim?
- Qual o tempo certo de se começar a trabalhar? Qual o tempo certo de se ter um filho? “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
- O que é isso? É seu?
- Não. É uma coisa de um livro que eu li quando era pequeno. Cada letra tinha um versinho desses. O “T” era esse. Acho que era um livro de trava-línguas.
- E você lembra dos outros?
- Não... Tem muito tempo que eu li isso... Quanto tempo a gente tem aqui nessa terra? Quando eu morrer, para onde vai o tempo?
- Por que você se preocupa tanto com o tempo?
- Porque perdi muito tempo tentando descobrir quem eu sou.
- E já descobriu?
- Não. Alguém já se descobriu por completo?
- Não que eu conheça. As pessoas mudam de acordo com o tempo.
- O tempo conceitual ou o tempo geral, dessa forma que a gente conhece?
- Acho que da forma geral, mundana.
- Ah...Mas o que deflagra essas mudanças? O tempo ou a vivência?
- Quanto mais tempo de vida se tem, maior a vivência. Então o tempo nos muda.
- Mas pode-se ter muita vivência em pouco tempo de vida. A vida é dissonante e muitas vezes, nos leva para lugares estranhos.
- É verdade... Por falar em tempo... Nosso tempo acabou. São cento e cinqüenta dinheiros.
- Ué! Há pouco tempo atrás eram cem dinheiros!
- Ah... Mas isso foi há muito tempo!
- É... Deve ser o sinal dos tempos...
- Não.
- Ser seguro de mim...
- E você não é?
- Não. Por que? Pareço?
- Parece... Mas também, a gente se conhece pouco. Ainda não sei suas reações, seu comportamento.
- É verdade. E o mais curioso é que parece que a gente se conhece há tempos incontáveis.
- Tempo... Acho que é a única coisa comum a tudo. Tudo mesmo! Tudo tem um tempo seu, próprio. E ainda assim, tempo pode ser conceitual.
- Como assim?
- Qual o tempo certo de se começar a trabalhar? Qual o tempo certo de se ter um filho? “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
- O que é isso? É seu?
- Não. É uma coisa de um livro que eu li quando era pequeno. Cada letra tinha um versinho desses. O “T” era esse. Acho que era um livro de trava-línguas.
- E você lembra dos outros?
- Não... Tem muito tempo que eu li isso... Quanto tempo a gente tem aqui nessa terra? Quando eu morrer, para onde vai o tempo?
- Por que você se preocupa tanto com o tempo?
- Porque perdi muito tempo tentando descobrir quem eu sou.
- E já descobriu?
- Não. Alguém já se descobriu por completo?
- Não que eu conheça. As pessoas mudam de acordo com o tempo.
- O tempo conceitual ou o tempo geral, dessa forma que a gente conhece?
- Acho que da forma geral, mundana.
- Ah...Mas o que deflagra essas mudanças? O tempo ou a vivência?
- Quanto mais tempo de vida se tem, maior a vivência. Então o tempo nos muda.
- Mas pode-se ter muita vivência em pouco tempo de vida. A vida é dissonante e muitas vezes, nos leva para lugares estranhos.
- É verdade... Por falar em tempo... Nosso tempo acabou. São cento e cinqüenta dinheiros.
- Ué! Há pouco tempo atrás eram cem dinheiros!
- Ah... Mas isso foi há muito tempo!
- É... Deve ser o sinal dos tempos...
26.11.03
A Estrada
Encostei meu carro e olhei para o mapa mais uma vez. Quem olhava de longe e me via de cenho franzido poderia pensar que eu estava entendendo o que estava desenhado ali. Tirei os olhos do mapa e olhei para frente algumas vezes numa tentativa vã de me achar naquela imensidão de estrada cercada por mato. Sai do carro para ter uma visão melhor da estrada e, quem sabe, achar uma placa que indicasse onde eu estava.
- Muito bem... Admita! Você está completamente perdido! Também... Mapa vagabundo dos diabos! – Pensava com uma certa raiva de mim. – Muito bonito, Zé! Culpe o mapa!
No som do carro, Robert Plant cantava as maravilhas que o esperavam na Califórnia e, logo em seguida, Christopher Cross dizia “nunca serei o mesmo sem você aqui”. Era uma seleção musical duvidosa, porém eclética. Duvidosa porque os roqueiros me crucificariam e os românticos me queimariam vivo ainda que gostasse muito dessa misturada sem dar preferência a um ou a outro.
Rasguei o “falso” mapa e me sentei no capô do carro para admirar a paisagem ao meu redor. Descobri que já passavam das três da tarde e que estava dirigindo desde as seis da manhã. Fui ao carro mais uma vez para buscar o maço de cigarros e, droga, só tem mais dois!
- Preciso de cigarros e uma cerveja. E rápido! – Voltei para o banco do motorista, girei a chave e o rosnado do motor me fez relaxar um pouco. Mick Jagger começou a cantar Paint in Black. Coloquei os óculos escuros e me senti como Mad Max. Acelerava cada vez mais e, como a estrada estava vazia, posicionei o carro bem sobre as faixas amarelas. Parecia que o carro as ia engolindo furiosamente como um cortador de grama a jato.
Ao longe, avistei um posto de gasolina que não recebia fregueses há um bom tempo. A poeira já tinha se apossado das bombas de combustível e da varanda da pequena loja de conveniência anexa ao posto. Uma senhora, perto dos seus setenta anos, sentava em uma cadeira de balanço na varanda e fumava um cigarro enquanto admirava o nada.
Estacionei o carro ao lado de uma das bombas e sai do carro em estilo cinematográfico retirando os óculos escuros puxando a haste direita num movimento brusco para a esquerda e para baixo.
A tal senhora usava um vestido quadriculado com um avental amarrado à cintura. Veio caminhando lentamente em minha direção e disse com uma voz quase firme tentando disfarçar a tremedeira:
- Não tenho combustível. O fornecedor deveria ter passado aqui há uma semana mas ainda não veio.
- A senhora tem cigarros?
- Tem uma máquina lá dentro que acho que ainda funciona – Tentei em vão identificar seu sotaque numa esperança de descobrir onde estava mas não deu certo.
- Ok! Obrigado.
Entrei na pequena loja onde, nos fundos, ficava a máquina. Depositei duas notas e apertei o botão correspondente à marca de minha preferência mas nada aconteceu. Chutei a lateral da máquina e três maços caíram no receptáculo. Sem cerimônia, peguei os três e os guardei nos bolsos dos jeans que já estavam bem surrados.
- Ah, vai... Foi a máquina que quis me roubar e depois da coerção, mudou de idéia! – Pensei me desculpando pelo furto qualificado.
Havia uma porta lateral na da loja e, muito curioso, resolvi averiguar. A tal porta não era aberta há muito tempo e, com um certo esforço, consegui move-la. As velhas dobradiças rangeram e um odor espesso de poeira me invadiu as narinas.
Atrás da porta havia um grande salão de pé direito alto. Muitas mesas com cadeiras apoiadas cercavam um pequeno palco e sobre ele, um piano coberto com lençol branco e mais acima, um belo e majestoso lustre de cristal. As janelas de vidro colorido retratavam grandes nomes do jazz como Wayne Shorter, Louis Armstrong, John Coltrane e Thelonious Monk.
Lentamente, meio hipnotizado, caminhei até o majestoso piano de calda. Descobri a frente do instrumento e a inscrição Steinway and Sons pareceu tomar vida ao refletir a débil iluminação externa que era filtrada pelos vidros coloridos. Levantei a tampa do teclado e pressionei uma tecla. O som encheu o ambiente ecoando por todos os cantos e custou a morrer. Sentei-me no empoeirado banquinho fazendo uma nuvem branca subir. Dedilhei alguns acordes e o piano estava surpreendentemente afinado. Uma empolgação juvenil tomou conta de mim e continuei tocando animadamente.
- Há muito tempo não se escuta música nesse salão. – A senhora estava escorada no umbral da porta e me olhava com olhos tristes.
- Credo! A senhora me assustou!
- Estava só observando. Toque mais se quiser.
- Um pergunta: a senhora tem alguma previsão de quando o combustível vai chegar?
- Não. Como está seu tanque?
- Vazio. Bem vazio.
- Posso te alugar um quarto que tenho aqui em cima. Nada luxuoso: uma cama grande, um relógio de parede e uma geladeira.
- E quem precisa de mais que isso?
Sorrimos e a senhora chegou mais perto do piano cantando algumas canções antigas.
- Muito bem... Admita! Você está completamente perdido! Também... Mapa vagabundo dos diabos! – Pensava com uma certa raiva de mim. – Muito bonito, Zé! Culpe o mapa!
No som do carro, Robert Plant cantava as maravilhas que o esperavam na Califórnia e, logo em seguida, Christopher Cross dizia “nunca serei o mesmo sem você aqui”. Era uma seleção musical duvidosa, porém eclética. Duvidosa porque os roqueiros me crucificariam e os românticos me queimariam vivo ainda que gostasse muito dessa misturada sem dar preferência a um ou a outro.
Rasguei o “falso” mapa e me sentei no capô do carro para admirar a paisagem ao meu redor. Descobri que já passavam das três da tarde e que estava dirigindo desde as seis da manhã. Fui ao carro mais uma vez para buscar o maço de cigarros e, droga, só tem mais dois!
- Preciso de cigarros e uma cerveja. E rápido! – Voltei para o banco do motorista, girei a chave e o rosnado do motor me fez relaxar um pouco. Mick Jagger começou a cantar Paint in Black. Coloquei os óculos escuros e me senti como Mad Max. Acelerava cada vez mais e, como a estrada estava vazia, posicionei o carro bem sobre as faixas amarelas. Parecia que o carro as ia engolindo furiosamente como um cortador de grama a jato.
Ao longe, avistei um posto de gasolina que não recebia fregueses há um bom tempo. A poeira já tinha se apossado das bombas de combustível e da varanda da pequena loja de conveniência anexa ao posto. Uma senhora, perto dos seus setenta anos, sentava em uma cadeira de balanço na varanda e fumava um cigarro enquanto admirava o nada.
Estacionei o carro ao lado de uma das bombas e sai do carro em estilo cinematográfico retirando os óculos escuros puxando a haste direita num movimento brusco para a esquerda e para baixo.
A tal senhora usava um vestido quadriculado com um avental amarrado à cintura. Veio caminhando lentamente em minha direção e disse com uma voz quase firme tentando disfarçar a tremedeira:
- Não tenho combustível. O fornecedor deveria ter passado aqui há uma semana mas ainda não veio.
- A senhora tem cigarros?
- Tem uma máquina lá dentro que acho que ainda funciona – Tentei em vão identificar seu sotaque numa esperança de descobrir onde estava mas não deu certo.
- Ok! Obrigado.
Entrei na pequena loja onde, nos fundos, ficava a máquina. Depositei duas notas e apertei o botão correspondente à marca de minha preferência mas nada aconteceu. Chutei a lateral da máquina e três maços caíram no receptáculo. Sem cerimônia, peguei os três e os guardei nos bolsos dos jeans que já estavam bem surrados.
- Ah, vai... Foi a máquina que quis me roubar e depois da coerção, mudou de idéia! – Pensei me desculpando pelo furto qualificado.
Havia uma porta lateral na da loja e, muito curioso, resolvi averiguar. A tal porta não era aberta há muito tempo e, com um certo esforço, consegui move-la. As velhas dobradiças rangeram e um odor espesso de poeira me invadiu as narinas.
Atrás da porta havia um grande salão de pé direito alto. Muitas mesas com cadeiras apoiadas cercavam um pequeno palco e sobre ele, um piano coberto com lençol branco e mais acima, um belo e majestoso lustre de cristal. As janelas de vidro colorido retratavam grandes nomes do jazz como Wayne Shorter, Louis Armstrong, John Coltrane e Thelonious Monk.
Lentamente, meio hipnotizado, caminhei até o majestoso piano de calda. Descobri a frente do instrumento e a inscrição Steinway and Sons pareceu tomar vida ao refletir a débil iluminação externa que era filtrada pelos vidros coloridos. Levantei a tampa do teclado e pressionei uma tecla. O som encheu o ambiente ecoando por todos os cantos e custou a morrer. Sentei-me no empoeirado banquinho fazendo uma nuvem branca subir. Dedilhei alguns acordes e o piano estava surpreendentemente afinado. Uma empolgação juvenil tomou conta de mim e continuei tocando animadamente.
- Há muito tempo não se escuta música nesse salão. – A senhora estava escorada no umbral da porta e me olhava com olhos tristes.
- Credo! A senhora me assustou!
- Estava só observando. Toque mais se quiser.
- Um pergunta: a senhora tem alguma previsão de quando o combustível vai chegar?
- Não. Como está seu tanque?
- Vazio. Bem vazio.
- Posso te alugar um quarto que tenho aqui em cima. Nada luxuoso: uma cama grande, um relógio de parede e uma geladeira.
- E quem precisa de mais que isso?
Sorrimos e a senhora chegou mais perto do piano cantando algumas canções antigas.
24.11.03
12.11.03
Sentou-se à mesa munido de lápis e papel, acendeu um cigarro, deu uma tragada e apoiou-o no cinzeiro que tinha furtado de um restaurante. Soltou a fumaça vagarosamente tentando achar formas distintas e sorriu com co canto da boca.
A sala toda estava escura a não ser pelo lustre que ficava exatamente sobre a mesa. Dentro do lustre uma lâmpada concentrava seu facho amarelado sobre o papel e o cinzeiro. Além disso, a casa escura e silenciosa como uma igreja. Percebendo a movimentação seus gatos subiram na mesa para averiguar o que acontecia, ganharam carinhos, festinhas e desceram para continuar dormindo no sofá.
Olhava além do único ponto luminoso da casa e percebeu como a fumaça do cigarro criava formas fantasmagóricas. Tinha a impressão de que a escuridão parecia querer engolfá-lo e torná-lo parte dela.
Recostou na cadeira, deu uma longa tragada no cigarro apagando-o logo em seguida. Fechou os olhos e permaneceu assim por algum tempo. Tinha a nítida sensação de que o tempo havia parado. Sentiu uma moleza e cochilou. Ao acordar, percebeu que estava bem no meio de um campo de alfazemas. O dia ia nascendo e o sol, preguiçosamente começava a despontar no horizonte. Olhou para baixo e viu a leve bruma que subia do chão trazendo consigo, o cheiro inebriante das plantas. Passou os olhos ao seu redor e não havia nada mais do que muitos quilômetros de plantações de flores divididas em enormes retângulos não muito regulares delimitados por uma pequena vala onde a água se concentrava.
Havia papoulas vermelhas, rosas de todas as cores, margaridas, violetas, amores-perfeitos. Sentiu algo frio atingir seu peito e olhando para si, percebeu que estava nu e que o sistema de irrigação tinha sido ligado. Sentiu o cheiro de terra molhada invadir suas narinas, fechou os olhos, fez uma volta completa sobre os pés tentando distinguir todos os aromas presentes e sentiu que em algum lugar distante, estavam queimando lenha. Abriu os olhos e viu fumaça ao longe.
Começou a caminhar na direção da fumaça mas não consegui conter a curiosidade em saber que lugar era aquele. Começou a correr e lembrou-se de que estava nu.
- Como é que eu apareço assim na casa dos outros? – Pensou parando de correr.
Continuou caminhando mas a largas passadas e decidiu que contaria uma história qualquer aos seus possíveis anfitriões.
Chegou até os rústicos e irregulares degraus que levavam até a varanda de tábuas corridas que, devido às intempéries, estavam empenadas e soltas em alguns pontos. Bateu com os nós dos dedos à pesada porta de madeira de lei e correu para trás de um barril a fim de se esconder. Esperou alguns segundos mas não houve resposta. Dirigiu-se à porta mais uma vez e bateu mais forte correndo em seguida para seu barril-esconderijo. Nada. Voltou à porta e girou a maçaneta e a porta abriu forçando os gonzos secos e rangendo alto.
Ao espiar dentro da casa reparou que se sentia estranhamente familiarizado com os móveis e com o ambiente. Não havia televisão na sala. Somente dois sofás de três lugares cada formavam um ângulo reto entre si e que emolduravam uma mesa de centro com tampo de vidro. Sobre a mesa, um cinzeiro com algumas guimbas de cigarros de palha. ouviu um ruído de uma panela de barro sendo postas sobre um fogão a lenha. Em pouco tempo o cheiro de café invadiu a casa. Agora ouvia passos se dirigindo a espaçosa e pouco mobiliada sala.
Sentiu um frio no estômago mas decidiu que não correria nem se esconderia. Um velho magro porém com a musculatura bem definida pelos anos de trabalho braçal. Um cavanhaque já branco e muito bem aparado emoldurava a boca de lábios grossos. Alguns vasos bem dilatados nos cantos do nariz denunciavam a intimidade com o álcool.
O velho voltou-se para ele e os verdes, expressivos e penetrantes olhos verdes encontraram os seus.
- Finalmente você chegou! – Disse com a voz firme – Estou te esperando desde bem cedo. Por que demorou tanto? – Abriu a boca mas não conseguia proferir as palavras. – Nah... não diga nada. Sei o que você está pensando.
- Quem é você – Balbuciou o jovem.
- Não reparou a semelhança? Eu sou você. Somos a mesma pessoa com alguns anos de intervalo.
- Mas que lugar é esse? Como é que isso aconteceu?
- Tem uma hora na vida de uma pessoa, quando se está feliz e equilibrado, em que uma janela temporal é aberta. Ao olhar por essa janela, pode-se ver o passado ou o futuro. Sua escolha foi o futuro
- Esse é o meu futuro? Mas não é nada do que planejei apesar de não me desagradar em nada!
- Essa foi a escolha que fizemos!
- Foi uma boa escolha?
- Foi a grande escolha que fizemos. Aqui somos felizes com nossas flores, o silêncio, o trabalho. Nossos amigos nos visitam com freqüência e ainda por cima, fazemos nossa própria cerveja!
Sentaram se um em cada sofá, bebiam cerveja e fumavam conversando sobre o passado. Riram bastante e lá pelas tantas, foram dormir. O jovem acordou cedo e não se lembrava de ter dormido tão bem assim. Queria conversar com o velho mas não o encontrou. Resignou-se e foi cuidar do trabalho da fazenda. Herança de seu futuro.
A sala toda estava escura a não ser pelo lustre que ficava exatamente sobre a mesa. Dentro do lustre uma lâmpada concentrava seu facho amarelado sobre o papel e o cinzeiro. Além disso, a casa escura e silenciosa como uma igreja. Percebendo a movimentação seus gatos subiram na mesa para averiguar o que acontecia, ganharam carinhos, festinhas e desceram para continuar dormindo no sofá.
Olhava além do único ponto luminoso da casa e percebeu como a fumaça do cigarro criava formas fantasmagóricas. Tinha a impressão de que a escuridão parecia querer engolfá-lo e torná-lo parte dela.
Recostou na cadeira, deu uma longa tragada no cigarro apagando-o logo em seguida. Fechou os olhos e permaneceu assim por algum tempo. Tinha a nítida sensação de que o tempo havia parado. Sentiu uma moleza e cochilou. Ao acordar, percebeu que estava bem no meio de um campo de alfazemas. O dia ia nascendo e o sol, preguiçosamente começava a despontar no horizonte. Olhou para baixo e viu a leve bruma que subia do chão trazendo consigo, o cheiro inebriante das plantas. Passou os olhos ao seu redor e não havia nada mais do que muitos quilômetros de plantações de flores divididas em enormes retângulos não muito regulares delimitados por uma pequena vala onde a água se concentrava.
Havia papoulas vermelhas, rosas de todas as cores, margaridas, violetas, amores-perfeitos. Sentiu algo frio atingir seu peito e olhando para si, percebeu que estava nu e que o sistema de irrigação tinha sido ligado. Sentiu o cheiro de terra molhada invadir suas narinas, fechou os olhos, fez uma volta completa sobre os pés tentando distinguir todos os aromas presentes e sentiu que em algum lugar distante, estavam queimando lenha. Abriu os olhos e viu fumaça ao longe.
Começou a caminhar na direção da fumaça mas não consegui conter a curiosidade em saber que lugar era aquele. Começou a correr e lembrou-se de que estava nu.
- Como é que eu apareço assim na casa dos outros? – Pensou parando de correr.
Continuou caminhando mas a largas passadas e decidiu que contaria uma história qualquer aos seus possíveis anfitriões.
Chegou até os rústicos e irregulares degraus que levavam até a varanda de tábuas corridas que, devido às intempéries, estavam empenadas e soltas em alguns pontos. Bateu com os nós dos dedos à pesada porta de madeira de lei e correu para trás de um barril a fim de se esconder. Esperou alguns segundos mas não houve resposta. Dirigiu-se à porta mais uma vez e bateu mais forte correndo em seguida para seu barril-esconderijo. Nada. Voltou à porta e girou a maçaneta e a porta abriu forçando os gonzos secos e rangendo alto.
Ao espiar dentro da casa reparou que se sentia estranhamente familiarizado com os móveis e com o ambiente. Não havia televisão na sala. Somente dois sofás de três lugares cada formavam um ângulo reto entre si e que emolduravam uma mesa de centro com tampo de vidro. Sobre a mesa, um cinzeiro com algumas guimbas de cigarros de palha. ouviu um ruído de uma panela de barro sendo postas sobre um fogão a lenha. Em pouco tempo o cheiro de café invadiu a casa. Agora ouvia passos se dirigindo a espaçosa e pouco mobiliada sala.
Sentiu um frio no estômago mas decidiu que não correria nem se esconderia. Um velho magro porém com a musculatura bem definida pelos anos de trabalho braçal. Um cavanhaque já branco e muito bem aparado emoldurava a boca de lábios grossos. Alguns vasos bem dilatados nos cantos do nariz denunciavam a intimidade com o álcool.
O velho voltou-se para ele e os verdes, expressivos e penetrantes olhos verdes encontraram os seus.
- Finalmente você chegou! – Disse com a voz firme – Estou te esperando desde bem cedo. Por que demorou tanto? – Abriu a boca mas não conseguia proferir as palavras. – Nah... não diga nada. Sei o que você está pensando.
- Quem é você – Balbuciou o jovem.
- Não reparou a semelhança? Eu sou você. Somos a mesma pessoa com alguns anos de intervalo.
- Mas que lugar é esse? Como é que isso aconteceu?
- Tem uma hora na vida de uma pessoa, quando se está feliz e equilibrado, em que uma janela temporal é aberta. Ao olhar por essa janela, pode-se ver o passado ou o futuro. Sua escolha foi o futuro
- Esse é o meu futuro? Mas não é nada do que planejei apesar de não me desagradar em nada!
- Essa foi a escolha que fizemos!
- Foi uma boa escolha?
- Foi a grande escolha que fizemos. Aqui somos felizes com nossas flores, o silêncio, o trabalho. Nossos amigos nos visitam com freqüência e ainda por cima, fazemos nossa própria cerveja!
Sentaram se um em cada sofá, bebiam cerveja e fumavam conversando sobre o passado. Riram bastante e lá pelas tantas, foram dormir. O jovem acordou cedo e não se lembrava de ter dormido tão bem assim. Queria conversar com o velho mas não o encontrou. Resignou-se e foi cuidar do trabalho da fazenda. Herança de seu futuro.
8.11.03
Queria rasgar o próprio peito e sair de dentro de si! Se libertar da prisão que lhe era imposta pelos outros, pela sociedade. Queria simplesmente, ser ele mesmo. Só isso.
- Só? E você acha que isso é simples? Como lhe dar com a reprovação alheia? Como mostrar como realmente se é exibindo todos os seus pontos fracos, abrindo a guarda para que pudessem feri-lo? Como explicar que se é sensível, amoroso, carinhoso, compreensível apesar de escutar os problemas dos que o cercam e querer arranjar soluções mirabolantes em um mundo que deixou esses sentimentos todos para trás há muito?
- Talvez porque eu não saiba quem sou ainda! Não completamente! Ainda há portas a serem exploradas dentro da minha mente! Portas que são abertas esporadicamente quando escuto uma música ou vejo um filme que me toca! Portas que ficam no escuro e me é impossível achar a chave! Não que eu não saiba onde ela está porque sei exatamente onde estão essas chaves! Tenho que lidar com meu medo de abri-las e encontrar coisas que fiz questão de esquecer mas que ainda assim, fazem parte da minha formação!
Ninguém se faz sozinho! Todos somos produtos das pessoas que nos cercam, do ambiente em que fomos criados, das coisas que escolhemos...
Queria poder contar que choro feito criança a cada cena de um filme, a cada frase de uma música, a cada elogio que recebo. Mas tenho que encarar os olhares de reprovação ou de estranheza. Queria poder saber o que sei hoje quando era mais novo! Teria feito algumas coisas diferentemente! Não que me arrependa do que fiz, disse ou deixei de fazer ou de dizer. Não nem arrependo de nada. Tenho um sonho utópico de poder mudar as coisas que me cercam, as pessoas tudo! Não que eu ache que meu mundo seja perfeito ou que as pessoas são imperfeitas. Só acho que falta amor, paixão, tesão, compaixão, humanidade, solidariedade, vontade, preocupação com o outro.
Aprenda com o grande ensinamento do cristianismo: AME O PRÓXIMO! Todos temos os mesmo questionamentos, as mesmas aflições, as mesmas inseguranças! Se abra, toque as pessoas! Tem tanta gente por aí que precisa e quer ser tocada. Basta um aperto de mão, um tapinha no ombro. Mostre que você se importa com quem está na rua. Seja gentil com as pessoas. Trate as mulheres como princesas porque elas todas o são e querem ser tratadas assim! Ouça mais música, mas música boa! Viaje nessas músicas! Elas têm o poder de abrir essas portas que a gente mantém trancadas! Tenha boas lembranças por mais que uma separação tenha sido traumática ou que alguém tenha te machucado muito. Tenha carinho! É tão bom ter carinho, dar carinho e ser acarinhado! Saiba dar sem receber ou esperar nada em troca. Peça colo. Dê colo. Escreva, cante, fale, converse, faça arte pois a arte imita a vida! Mostre através de alguma coisa como é a sua vida! Express yourself!! Fique na sua quando se sentir intimista! Você é a melhor companhia para você! Seja fiel às suas idéias, aos seus ideais e às suas crenças mas não seja fanático. Dance como se ninguém estivesse vendo!
Chore de alegria ou de tristeza! Chorar alivia a alma, te deixa mais leve!
Seja seu ego e não seu alter-ego! Mergulhe de cabeça. Se a piscina estiver vazia, o tempo vai tratar as feridas!
Seja você e lembre-se: felicidade não é a chegada e sim o caminho!
N.A: Escrevi esse texto de uma forma que nunca tinha feito antes. Simplesmente fui escrevendo e evitei corrigir erros que geralmente comento mesmo tentando corrigi-los mas espero fazê-lo com o passar do tempo. Acho que esse texto mereceu ir ao ar do jeito que foi concebido.
Chorei muito ao escrevê-lo pois ainda acho que, não só o mundo mas as pessoas ainda têm salvação! Vamos fazer deste mundo um mundo melhor e isso só cabe a nós! E que, fundamentalmente e ao contrário de Maquiavel, acho que todos somos bons por natureza!
- Só? E você acha que isso é simples? Como lhe dar com a reprovação alheia? Como mostrar como realmente se é exibindo todos os seus pontos fracos, abrindo a guarda para que pudessem feri-lo? Como explicar que se é sensível, amoroso, carinhoso, compreensível apesar de escutar os problemas dos que o cercam e querer arranjar soluções mirabolantes em um mundo que deixou esses sentimentos todos para trás há muito?
- Talvez porque eu não saiba quem sou ainda! Não completamente! Ainda há portas a serem exploradas dentro da minha mente! Portas que são abertas esporadicamente quando escuto uma música ou vejo um filme que me toca! Portas que ficam no escuro e me é impossível achar a chave! Não que eu não saiba onde ela está porque sei exatamente onde estão essas chaves! Tenho que lidar com meu medo de abri-las e encontrar coisas que fiz questão de esquecer mas que ainda assim, fazem parte da minha formação!
Ninguém se faz sozinho! Todos somos produtos das pessoas que nos cercam, do ambiente em que fomos criados, das coisas que escolhemos...
Queria poder contar que choro feito criança a cada cena de um filme, a cada frase de uma música, a cada elogio que recebo. Mas tenho que encarar os olhares de reprovação ou de estranheza. Queria poder saber o que sei hoje quando era mais novo! Teria feito algumas coisas diferentemente! Não que me arrependa do que fiz, disse ou deixei de fazer ou de dizer. Não nem arrependo de nada. Tenho um sonho utópico de poder mudar as coisas que me cercam, as pessoas tudo! Não que eu ache que meu mundo seja perfeito ou que as pessoas são imperfeitas. Só acho que falta amor, paixão, tesão, compaixão, humanidade, solidariedade, vontade, preocupação com o outro.
Aprenda com o grande ensinamento do cristianismo: AME O PRÓXIMO! Todos temos os mesmo questionamentos, as mesmas aflições, as mesmas inseguranças! Se abra, toque as pessoas! Tem tanta gente por aí que precisa e quer ser tocada. Basta um aperto de mão, um tapinha no ombro. Mostre que você se importa com quem está na rua. Seja gentil com as pessoas. Trate as mulheres como princesas porque elas todas o são e querem ser tratadas assim! Ouça mais música, mas música boa! Viaje nessas músicas! Elas têm o poder de abrir essas portas que a gente mantém trancadas! Tenha boas lembranças por mais que uma separação tenha sido traumática ou que alguém tenha te machucado muito. Tenha carinho! É tão bom ter carinho, dar carinho e ser acarinhado! Saiba dar sem receber ou esperar nada em troca. Peça colo. Dê colo. Escreva, cante, fale, converse, faça arte pois a arte imita a vida! Mostre através de alguma coisa como é a sua vida! Express yourself!! Fique na sua quando se sentir intimista! Você é a melhor companhia para você! Seja fiel às suas idéias, aos seus ideais e às suas crenças mas não seja fanático. Dance como se ninguém estivesse vendo!
Chore de alegria ou de tristeza! Chorar alivia a alma, te deixa mais leve!
Seja seu ego e não seu alter-ego! Mergulhe de cabeça. Se a piscina estiver vazia, o tempo vai tratar as feridas!
Seja você e lembre-se: felicidade não é a chegada e sim o caminho!
N.A: Escrevi esse texto de uma forma que nunca tinha feito antes. Simplesmente fui escrevendo e evitei corrigir erros que geralmente comento mesmo tentando corrigi-los mas espero fazê-lo com o passar do tempo. Acho que esse texto mereceu ir ao ar do jeito que foi concebido.
Chorei muito ao escrevê-lo pois ainda acho que, não só o mundo mas as pessoas ainda têm salvação! Vamos fazer deste mundo um mundo melhor e isso só cabe a nós! E que, fundamentalmente e ao contrário de Maquiavel, acho que todos somos bons por natureza!
30.10.03
Como muitos devem imaginar, hoje é meu aniversário. Este ano uma coisa legal me aconteceu: ao contrário dos outros anos quando eu ficava triste e até meio deprimido por ver que os anos passaram e que eu atingi muito pouco do que a sociedade considera sucesso, me peguei pensando nas pessoas que conheci ao longo dessa 29 primaveras. Descobri que as pessoas que ficaram são as que realmente gostam de mim apesar de eu ser eu, ou melhor, ser assim desse jeito. Descobri que as pessoas que passaram, deixaram marca e que penso em cada uma delas com muito respeito e carinho. Que as pessoas que me sacanearam, fizeram com que eu ficasse mais esperto apesar de fazer com que eu acreditasse que o negócio era “levar vantagem em tudo” e que a lei era a “lei da selva”.
Com isso, reproduzo um trecho do diálogo com uma pessoa muito, mas muito querida que me ligou na virada do dia 29 para o dia 30:
“- ... porque você é meu amigo, amo muito você e eu não quero te perder!
- Mas só sou o que sou por causa das pessoas que me cercam
- Vai tomar no cu!”
Com isso, reproduzo um trecho do diálogo com uma pessoa muito, mas muito querida que me ligou na virada do dia 29 para o dia 30:
“- ... porque você é meu amigo, amo muito você e eu não quero te perder!
- Mas só sou o que sou por causa das pessoas que me cercam
- Vai tomar no cu!”
29.10.03
Gostaria de pedir mil desculpas pelo meu sumiço. É que essas duas últimas semanas foram as que antecederam meus 10 dias de férias e a coisa ficou muito, mas muito corrida.
O bom disso tudo é que tenho tido algumas idéias que pretendo transformar em textos esperando sempre que vocês gostem!
Um beijo para todos e aguardem só mais um pouco que já, já tem texto novo!
O bom disso tudo é que tenho tido algumas idéias que pretendo transformar em textos esperando sempre que vocês gostem!
Um beijo para todos e aguardem só mais um pouco que já, já tem texto novo!
15.10.03
A sala de espera do consultório lhe parecia muito mais impessoal e fria do que o normal. Nem as belas reproduções de Miró e Escher quebravam a monotonia branca das paredes. Esfregava as mãos numa vã tentativa de aquecê-las até que decidiu sentar-se sobre elas. Ato que acabou criando um dilema:
- E agora? Como é que eu faço pra ler a revista?
Olhou ao redor e se viu a sós com a secretária do psicólogo que estava muito ocupada lixando as unhas e nem se importava com o (nem tão) jovem que já estava ficando com os lábios roxos de frio.
Uma senhora saiu da sala ainda enxugando algumas lágrimas que insistiam em lhe encher os olhos. Agradeceu ao médico com um leve aperto de mão e se foi.
- O senhor é o próximo. - Disse a secretária.
Caminhou timidamente até a porta que dava para uma sala ampla e iluminada onde ao fundo, atrás de uma bela escrivaninha e a frente de uma enorme janela, sentava-se o doutor. Havia ainda na sala, um enorme tatame forrado com um belo lençol com estampa de arco-íris próximo à escrivaninha e muitas, muitas almofadas espalhadas. Dirigiu-se ao tatame e largou seu corpo pesadamente sobre as almofadas das mais variadas cores. Fez um amontoado delas, recostou-se e, com os joelhos em arco, abraçou uma almofada.
- Então? O que o traz aqui? - Perguntou o doutor educadamente.
- Fiz uma coisa com a qual não tenho conseguido viver.
- Então vamos falar sobre isso. O que você fez de tão terrível assim.
- Cometi suicídio.
- O senhor quer dizer homicídio?
- Não. Quis dizer exatamente o que disse. Eu cometi suicídio. Uma morte lenta, gradual e sofrida das minhas idéias, meus ideais, minha ética, meu discernimento... todos mortos. Um verdadeiro genocídio.
Vendi meu corpo e minha alma para um emprego que não me trouxe satisfação nem realizações. Troquei o suor do meu rosto por uma pequena quantia mensal. Sem motivação, vi minhas idéias serem trocadas por uma convivência mais lisa com colegas, chefes e afins. Deixei de sonhar, deixei de sorrir. Minhas gargalhadas, tão frequentes, foram silenciando e se tornaram feições circunspectas e meu olhar esfriou. Verti minha vida na pia de pessoas de vida vazia... tudo isso por medo.
- O medo do desconhecido e do fracasso são muito comuns - Interveio o doutor.
- Não tenho medo do fracasso.
- E do que você tem medo?
- Do sucesso.
- E agora? Como é que eu faço pra ler a revista?
Olhou ao redor e se viu a sós com a secretária do psicólogo que estava muito ocupada lixando as unhas e nem se importava com o (nem tão) jovem que já estava ficando com os lábios roxos de frio.
Uma senhora saiu da sala ainda enxugando algumas lágrimas que insistiam em lhe encher os olhos. Agradeceu ao médico com um leve aperto de mão e se foi.
- O senhor é o próximo. - Disse a secretária.
Caminhou timidamente até a porta que dava para uma sala ampla e iluminada onde ao fundo, atrás de uma bela escrivaninha e a frente de uma enorme janela, sentava-se o doutor. Havia ainda na sala, um enorme tatame forrado com um belo lençol com estampa de arco-íris próximo à escrivaninha e muitas, muitas almofadas espalhadas. Dirigiu-se ao tatame e largou seu corpo pesadamente sobre as almofadas das mais variadas cores. Fez um amontoado delas, recostou-se e, com os joelhos em arco, abraçou uma almofada.
- Então? O que o traz aqui? - Perguntou o doutor educadamente.
- Fiz uma coisa com a qual não tenho conseguido viver.
- Então vamos falar sobre isso. O que você fez de tão terrível assim.
- Cometi suicídio.
- O senhor quer dizer homicídio?
- Não. Quis dizer exatamente o que disse. Eu cometi suicídio. Uma morte lenta, gradual e sofrida das minhas idéias, meus ideais, minha ética, meu discernimento... todos mortos. Um verdadeiro genocídio.
Vendi meu corpo e minha alma para um emprego que não me trouxe satisfação nem realizações. Troquei o suor do meu rosto por uma pequena quantia mensal. Sem motivação, vi minhas idéias serem trocadas por uma convivência mais lisa com colegas, chefes e afins. Deixei de sonhar, deixei de sorrir. Minhas gargalhadas, tão frequentes, foram silenciando e se tornaram feições circunspectas e meu olhar esfriou. Verti minha vida na pia de pessoas de vida vazia... tudo isso por medo.
- O medo do desconhecido e do fracasso são muito comuns - Interveio o doutor.
- Não tenho medo do fracasso.
- E do que você tem medo?
- Do sucesso.
8.10.03
Todos se despediram dele. Amigos, familiares, passantes. O grupo estava bem perto do portão de embarque e a cena quase comoveu um dos seguranças. Muitos abraços, beijos, tapinhas nas costas, alguns tapas "delicados" no rosto e muitas, muitas lágrimas. Acenou uma última vez e decidiu que não iaria olhar para trás.
Girou sobre os calcanhares, ajeitou o mochilão nas costas e se foi. Sumiu logo após ter passado pelo detetor de metais e dirigindo-se ao portão de embarque lembrou-se de que tinha um certo temor de aviões.
- Quero ver como é que vai ser no dia em que as leis da física forem revogadas... - pensou distraidamente.
A aeromoça falava mas sua voz parecia vir de muito longe. Agradeceu a atenção dela e parou na pista olhando fixamente para o aparelho enquanto se imaginava frente à esfinge pronta para devorá-lo caso não a decifrasse. Tentou sorrir mas o máximo que conseguiu foi um esgar sofrido. Quase abandonou tudo e voltou mas conseguiu controlar o impulso e começou a subir as escadas que o levariam ao interior do avião.
Tudo parecia em câmara lenta. Inclusive as vozes das aeromoças que o recebiam à porta do aparelho. Procurou por seu lugar mas o corredor parecia se alongar mais e mais fazendo com que seu assento ficasse cada vez mais longe. Fingiu indiferença e seguiu pelo elástico corredor. Guardou o mochilão no compartimento e sentou-se pesadamente na poltrona. Levantou-se mais uma vez e, olhandou ao redor, identificou as saídas de emergência. Voltou a sentar-se.
Olhava fixamente para um ponto distante dentro de si.
- Lskfjshdflkkkjefhhhodifh?
- Perdão. O que disse?
- O senhor gostaria de uma bebida antes da decolagem?
- Vodka com gelo e um twist!
- Não temos limão, senhor
- Sem twist então!
A aeromoça esticou o braço para entregar-lhe o copo e ele reparou como as mãos dela eram bonitas e bem cuidadas. Sorriu e agradeceu.
Bebeu tudo em duas goladas e percebeu que tudo voltava a ficar em foco. Infelizmente isso não fez com que a poltrona ficasse mais confortável. Deslisou a bunda até quase o fim do assento mas de pouco adiantou e resolveu parar de lutar contra ele pois certamente perderia a briga. Pediu mais uma vodka e dois goles depois, a poltrona começou a ficar razoavelmente confortável.
A voz do capitão pelo alto-falante avisa que "vamos começar a taxiar a pista". Lembrou-se do quanto sofria nas deolagens e economizou vodka.
Relaxou um pouco após a traumática deolagem e não conseguiu deixar de pensar que todos os capitães dos vôos que tomou gostavam de fazer o avião sacudir bastante só para sacanear.
- Você parece nervoso! - A voz era grave porém, indubitavelmente, feminina.
- É tão óbvio assim?
- Bastante! Esperei a té decolarmos para falar com você. Achei que você ia precisar de uma conversinha.
A mulher, já perto dos quarenta, não era exatamente bonita mas seu rosto era assimetricamente atraente. Tinha a pele queimada pelo sol e uma vasta cabeleira vermelha emoldurava o rosto fino de lábios iguamlente finos que escondiam dentes bem alinhados e muito brancos. Vestia uma calça jeans já bem surradas e uma jaqueta de couro marrom com uma camiseta branca por baixo.
- E eu achando que era um sujeito discreto. Quer um drink?
- Me dá um gole do seu?
- Mas aí você vai descobrir meus segredos. Bom... na verdade eles nem são importantes. - terminou a frase e entregou o copo. Ela bebeu pequenos goles e devolveu o copo com uma mancha vermelha de baton. Ele pegou o copo e achou que o copo plástico com a mancha de baton e a vodka tinham ficado muito bonitos.
- Desculpe. Manchei seu copo.
- Sem problema. Ficou até mais bonito o drink! - ela sorriu e perguntou:
- É a primeira vez que você sai do país?
- Não. Ja tinha saido antes mas acho que dessa vez não volto.
- Hmmm... Vai encontrar alguém?
- Vou.
- Quem?
- ... Eu.
Girou sobre os calcanhares, ajeitou o mochilão nas costas e se foi. Sumiu logo após ter passado pelo detetor de metais e dirigindo-se ao portão de embarque lembrou-se de que tinha um certo temor de aviões.
- Quero ver como é que vai ser no dia em que as leis da física forem revogadas... - pensou distraidamente.
A aeromoça falava mas sua voz parecia vir de muito longe. Agradeceu a atenção dela e parou na pista olhando fixamente para o aparelho enquanto se imaginava frente à esfinge pronta para devorá-lo caso não a decifrasse. Tentou sorrir mas o máximo que conseguiu foi um esgar sofrido. Quase abandonou tudo e voltou mas conseguiu controlar o impulso e começou a subir as escadas que o levariam ao interior do avião.
Tudo parecia em câmara lenta. Inclusive as vozes das aeromoças que o recebiam à porta do aparelho. Procurou por seu lugar mas o corredor parecia se alongar mais e mais fazendo com que seu assento ficasse cada vez mais longe. Fingiu indiferença e seguiu pelo elástico corredor. Guardou o mochilão no compartimento e sentou-se pesadamente na poltrona. Levantou-se mais uma vez e, olhandou ao redor, identificou as saídas de emergência. Voltou a sentar-se.
Olhava fixamente para um ponto distante dentro de si.
- Lskfjshdflkkkjefhhhodifh?
- Perdão. O que disse?
- O senhor gostaria de uma bebida antes da decolagem?
- Vodka com gelo e um twist!
- Não temos limão, senhor
- Sem twist então!
A aeromoça esticou o braço para entregar-lhe o copo e ele reparou como as mãos dela eram bonitas e bem cuidadas. Sorriu e agradeceu.
Bebeu tudo em duas goladas e percebeu que tudo voltava a ficar em foco. Infelizmente isso não fez com que a poltrona ficasse mais confortável. Deslisou a bunda até quase o fim do assento mas de pouco adiantou e resolveu parar de lutar contra ele pois certamente perderia a briga. Pediu mais uma vodka e dois goles depois, a poltrona começou a ficar razoavelmente confortável.
A voz do capitão pelo alto-falante avisa que "vamos começar a taxiar a pista". Lembrou-se do quanto sofria nas deolagens e economizou vodka.
Relaxou um pouco após a traumática deolagem e não conseguiu deixar de pensar que todos os capitães dos vôos que tomou gostavam de fazer o avião sacudir bastante só para sacanear.
- Você parece nervoso! - A voz era grave porém, indubitavelmente, feminina.
- É tão óbvio assim?
- Bastante! Esperei a té decolarmos para falar com você. Achei que você ia precisar de uma conversinha.
A mulher, já perto dos quarenta, não era exatamente bonita mas seu rosto era assimetricamente atraente. Tinha a pele queimada pelo sol e uma vasta cabeleira vermelha emoldurava o rosto fino de lábios iguamlente finos que escondiam dentes bem alinhados e muito brancos. Vestia uma calça jeans já bem surradas e uma jaqueta de couro marrom com uma camiseta branca por baixo.
- E eu achando que era um sujeito discreto. Quer um drink?
- Me dá um gole do seu?
- Mas aí você vai descobrir meus segredos. Bom... na verdade eles nem são importantes. - terminou a frase e entregou o copo. Ela bebeu pequenos goles e devolveu o copo com uma mancha vermelha de baton. Ele pegou o copo e achou que o copo plástico com a mancha de baton e a vodka tinham ficado muito bonitos.
- Desculpe. Manchei seu copo.
- Sem problema. Ficou até mais bonito o drink! - ela sorriu e perguntou:
- É a primeira vez que você sai do país?
- Não. Ja tinha saido antes mas acho que dessa vez não volto.
- Hmmm... Vai encontrar alguém?
- Vou.
- Quem?
- ... Eu.
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