2.7.09
A César o que é de César
Uma das minhas grandes diversões depois de comprar esse brinquedinho é selecionar as músicas que eu vou escutar sabe-se lá em que ordem, sabe-se lá indo pra onde (ou vindo de onde), sabe-se lá fazendo o que.
Acabou que, sem querer, coloquei uma música no Tamagoshi-IPod que eu não escutava há séculos. E o bacana nem foi isso... Foi lembrar de quem me ensinou a gostar desse som. E, pensando nisso, a verdade é que essa pessoa acabou por me ensinar tanta coisa mais que isso...
Me ensinou carinho, mais ainda do que eu já conhecia. Me ensinou que vida a dois é uma coisa super legal. Que mesmo não sendo um cachorro, se pode abanar o rabo quando a pessoa que você ama chega em casa! Hahahahaha! Isso era o máximo!
Saudade de você, pessoa!
Ah! e a música é essa
8.6.09
Penso
Penso. Logo, sou!
Porque o ato de pensar é muito mais pessoal do que simplesmente existir.
28.5.09
Bate papo
Cuidado com o que mesmo?
Mas tá maneiro...
19.5.09
8.5.09
Where...
I know I’ve seen you... The other day... In a dream
When have we been so in Love with each other?
Did you forget me? ‘Cause I have...
Have you met someone else? Have you loved someone else?
Do you want to go for coffee?
See ya! Love ya!
Bye...
11.4.09
2.4.09
Deixa eu te falar...
Você quer ouvir? Você chora quando vê um filme? Você chora quando escuta um pedacinho tão lindo de uma música?
Essas coisas são pedacinhos do céu, de uma coisa muito maior que a gente e que chegam aqui com a única finalidade de fazer a gente pensar, chorar, pensar.
Daí que a gente se rasga, sofre, chora e faz pensar que tem toda uma coisa ali na frente da gente.
O que á lá na frente, a gente nem conhece, mas a gente molda. O que ficou pra trás, a gente usa como aprendizado.
Agora, a gente curte, aproveita, enjoy, abre os braços, mete os peitos.
Eu, encho minha taça, acendo um cigarro e aproveito.
21.3.09
Beatnik
Why do I think of flowers? Why do the flowers silently sream?
É como se houvesse uma razão. E na verdade meus farrapos são só oque restam quando penso na sua metade.
Na metade que me completa, na metade que você completa. Mas quem É você? Você é?
Você grita como as flores amarelas ou as margaridas grtiam junto em silenciosa harmonia?
Você grita como as flores amarelas ou as margaridas grtiam junto em silenciosa harmonia?
10.3.09
Lento Acordar
O acordar já não lhe pareceu tão pesaroso. A gata, enroscada entre suas pernas percebeu o movimento e o saudou com um miado preguiçoso, rouco de sono. Esticou o braço e sentiu a cama vazia do outro lado
- Talvez seja hora...
22.2.09
A gente
Meu carinho, meu abraço é de graça.
A gente tem a mesma necessidade: a gente ficou tão distante que a gente se esbarra e faz tanta pergunta idiota só pra sentir um pequeno contato com o outro. A gente precisa de contato físico, emocional... E a gente só faz viver dentro da gente.
E se a gente tentasse viver junto?
Vai que dá certo...
22.8.08
Da falta que os amigos fazem
Havia muito tempo não se questionava essas coisas até que um dia, o céu se fez azul novamente. As cores tinham mais brilho, eram mais intensas, tinha voltado para seus amigos.
Tinha ficado mais velho, sim. Se sentia mais velho, seu cabelo ficara mais ralo, mais cinza. Em outros momentos se sentia só, em outros se perguntava qual o sentido disso tudo. Da vida, do ser, do estar, do ir, do vir.
Um belo dia, uma grande amiga disse que sentia saudade da pessoa que ele fora antes de se tornar aquela pessoa cinza e mecanizada.
- Onde foi parar aquele Marcito que eu conheci? Aquele que escrevia com tanta leveza, que era tão otimista?
Foi naquele momento que ele se deu conta de que ele sentia falta de si mesmo.
14.8.08
Rélou, pípou!
Triste como um tango, seus passos ecoavam na rua deserta e ele cambaleava procurando um último bar, uma última alma. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ele já nem sentia mais entorpecido que estava pelas agruras da vida que sempre insistia em esbarrar seus ombros cansados.
As últimas luzes da noite iam se apagando. Uma após a outra como se um teatro se fechasse após a saída dos últimos espectadores. Com as mãos enfiadas nos bolsos do longo sobretudo, parou sob um poste e, olhando a fria luz que desenhava um perfeito círculo sobre si, recostou-se nesse poste e seus joelho cederam sob o peso do vinho.
Ali, sentado, admirava os belos círculos concêntricos da fria luz de inverno. Já não perseguia mais seus fantasmas. Na verdade, seus fantasmas o fitavam de longe, com pena. Já não habitavam seu armário, já não o assombravam. Tinham finalmente cedido à tentação de vê-lo sucumbir.
Ali, caído, sentia-se ser observado e percebia que comentavam a seu respeito, mas não tinha mais forças para contestar. Foi ali que percebeu. Levantou-se sem esforço. Caminhava levemente. Virou-se para ver o lugar onde antes estivera sentado, inerte e sorriu. Sentia-se forte de novo. Cumprimentou seus fantasmas que não acreditavam no que viam.
Mais uma vez, lá ia ele, os ombros aprumados, o olhar reto, o passo firme. Ali perto, embarcou no ônibus que passava na ladeira que o levava para casa.
Descendo a ladeira, pôde ver o horizonte que clareava e ali, soube que nada tinha acabado. Estava apensa começando...
21.7.08
Balada Para Un Loco
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi,
cuando de repente, detras de ese arbol, se aparece el,
mezcla rara de penultimo linyera y de primer polizonte
en el viaje a Venus. Medio melon en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano...
Parece que solo yo lo veo, porque el pasa entre la gente
y los maniquies le guiñan, los semaforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquina le tiran azahares,
y asi medio bailando, y medio volando,
se saca el melon, me saluda, me regala una banderita
y me dice:
Ya se que estoy piantao, piantao, piantao,
no ves que va la luna rodando por Callao
y un corso de astronautas y niños con un vals
me baila alrededor...
Baila, veni, vola...
Ya se que estoy piantao, piantao, piantao,
yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrion;
y a vos te vi tan triste; veni, vola, senti el loco berretin
que tengo para vos.
Loco, loco, loco, cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sabana vendre con un poema
y un trombon a desvelarte el corazón.
Loco, loco, loco, como un acrobata demente saltare
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloqueci tu corazón de libertad, ya vas a ver.
Y asi el loco me convida a andar
en su ilusión super-sport,
y vamos a correr por las cornisas
con una golondrina en el motor.
De Vieytes nos aplauden. Viva, viva...
los locos que inventaron el amor;
y un angel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.
Nos sale a saludar la gente linda
y el loco, loco mio, que se yo,
provoca campanarios con su risa
y al fin, me mira y canta a media voz:
Quereme asi, piantao, piantao, piantao...
trepate a esta ternura de locos que hay en mi,
ponete esta peluca de alondras y vola, vola conmigo ya:
veni, vola, veni...
Quereme asi piantao, piantao, piantao,
abrite los amores que vamos a intentar la magica locura
total de revivir, veni, vola, veni, tra...lala...lara...
Procurem Amelita Baltar nos seus programas de download. Ela é esposa do Astor Piazzola.
Essa é umas das músicas mais bonitas do mundo! Caso não encontrem, me passa um mail que a gente resolve a falha grave de você nunca ter escutado essa música! Afinal, somos todos loucos!
12.7.08
30.4.08
Dois Dias em Abril
Eu não olhava para ele. Ou tentava não olhar, mas sob os óculos escuros, uma espiada sempre me escapava. Pior era vê-lo ali escrevendo, lendo, fumando um cigarro ou bebendo uma cerveja. Vê-lo ali e não poder falar com ele.
Não posso dizer que me incomoda muito o fato de ele nem me dizer "bom dia!" como ele dizia antes. Afinal, eu também não não me dirigia a ele. Só com o olhar eu tentava me comunicar, quando tinha certeza de que ninguém mais estava vendo. Será que ele percebe? Aposto que sim! Principalmente quando nossos olhares se encontram por alguns mínimos segundos. Agora sei que ele também me percebe.
Beleza não é o forte dele. Não à primeira vista. Muito mais charmoso, ele sabe fazer uso disso e acaba se tornando mais bonito, seu olhar fica mais penetrante, ele fica mais confiante. Os olhos de uma cor que não se pode prever. Quase sempre verdes, mas muito azuis de outras. Me olhando, me descobrindo, me revelando segredos. Fico sem graça e passo a mão nos cabelos tentando desviar meu olhar. Acabo olhando aqueles olhos infinitos de novo e fico tímida como uma adolescente.
Naquela sexta-feira regada a sol, cerveja e boa conversa, já no fim do dia quando ele sabia que eu já me entregara, ele simplesmente se levantou, deu dois passos na minha direção, segurou meu queixo com a leveza e a firmeza que eu esperava e me beijou sem pressa, degustando. Um beijo doce, profundo.
Beijo molhado, nu, suado e com Pedrinha de Aruanda, ê! Me sentia protegida e olhando em seus olhos, contei as coisas da minha vida, meus impedimentos, meus medos. Ele compreendeu, disse que estava tudo bem ao pé do meu ouvido. Arrepio. Caminhada até minha casa, mais daquele beijo.
O dia seguinte ia correndo e eu queria ficar mais perto, beijar, mas não posso! A noite chegou. Passeio na beira do mar, barzinho, Divas in Las Vegas no DVD, minhas mãos nas mãos dele, sopa no restaurante japonês, dança desajeitada ao som de uma música linda e desconhecida, risos, cumplicidade. Promessas.
Não cumpri com o nosso combinado e espero que ele entenda. Não vou voltar pra ele. Melhor partir para onde vim. Marcamos nossos corpos e me vou. Até...
19.3.08
Diário da Obra - Dia 2
Se um apartamento é medido pela quantidade de paredes que ele tem, a cada dia que passa eu tenho menos apartamento...
Detalhe: o cara foi tirar a privada do banheirinho (que vai virar um banheiro social) e eu constatei que todas as baratas do Rio de Janeiro moram ali. Me peguei pensando no comprimento total do cano e quantas baratas poderiam caber ali. Tomei um dormonid e dormi no meio das marretadas. Triste vida.
18.3.08
Diaário de uma Obra - Dia 1
9.3.08
Destiny
I lie awake
I’ve gone to ground
I’m watching porn
In my hotel dressing gown
Now I dream of you
But I still believe
There’s only enough for one in this
Lonely hotel suite
The journey’s long
And it feels so bad
I’m thinking back to the last day we had.
Old moon fades into the new
Soon I know I’ll be back with you
I’m nearly with you
I’m nearly with you
When I’m weak I draw strength from you
And when you’re lost I know how to change your mood
And when I’m down you breathe life over me
Even though we’re miles apart we are each other’s destiny
On a clear day
I’ll fly home to you
I’m bending time getting back to you
Old moon fades into the new
Soon I know I’ll be back with you
I’m nearly with you
I’m nearly with you
When I’m weak I draw strength from you
And when you’re lost I know how to change your mood
And when I’m down you breathe life over me
Even though we’re miles apart we are each other’s destiny
When I’m weak I draw strength from you
And when you’re lost I know how to change your mood
And when I’m down you breathe life over me
Even though we’re miles apart we are each other’s destiny
I’ll fly, I’ll fly home
I’ll fly home and I’ll fly home
21.2.08
Das coisas estranhas que trazem as pessoas aqui (e as devidas considerações cretinas)
"Sou todo coração" - Cara, eu trabalho numa clínica. Quem sabem a gente não arruma uns transplantes baratinhos...?
"Descobrir que ainda te amo" - Pai Marcito de Ogum trás a pessoa amada em um dia e meio!
"Descobri que..." - Descobri o descobri
"Anjos saen en fotos" - Claro! E a ala psiquiátrica fica logo ali!
"achei que não o amava mais, as descobri que o amo" - De novo?
"ABREVIAÇAO DE PRESIDENTE" - FDP
"filme tem cancer e se apaixona que também tem cancer" - Como assim? Filme tem câncer? Filme se apaixona? Ainda mais por outro filme que TAMBÉM TE CÂNCER? ZÉ! PÁRA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER!
"tampou com o dedo" - E explodiu quando peidou
10.2.08
Música da semana
Spent my days with a woman unkind,
Smoked my stuff and drank all my wine.
Made up my mind to make a new start,
Going To California with an aching in my heart.
Someone told me there's a girl out there
With love in her eyes and flowers in her hair.
Took my chances on a big jet plane,
Never let them tell you that they'all are the same.
The sea was red and the sky was grey,
I wondered how tomorrow could ever follow today.
The mountains and the canyons started to tremble and shake
As the children of the sun began to awake.
Seems that the wrath of the Gods
Got a punch on the nose and it started to flow;
I think I might be sinking.
Throw me a line if I reach it in time
I'll meet you up there where the path
Runs straight and high.
To find a queen without a king,
They say she plays guitar and cries and sings... la la la la
Ride a white mare in the footsteps of dawn
Tryin' to find a woman who's never, never, never been born.
Standing on a hill in my mountain of dreams,
Telling myself it's not as hard, hard, hard as it seems
30.1.08
Carnaval na Lapa
Num pentelhésimo de lucidez, percebi que o camarada estava ficando muito puto nas calças e que minha integridade física corria sério risco. Consegui entender o que ele dizia:
- Que papo é esse de ficar olhando pra minha mulher, rapá?
Usando de toda a malandragem aprendida em 33 anos de vida no Rio de janeiro, disparei:
- Ô, rapaz... Mil perdões. Eu não sabia que ela era sua mulher. Peloamordedeus perdoe minha ignorância e completa falta de discrição.
- É o que?
- Eu disse que não queria passar por um completo palhaço, bêbado que fica olhando pra mulher dos outros. Foi mal mesmo, bicho! Pra te provar que eu não estava de má fé, má vontade ou qualquer outra coisa que seja má, deixa eu te pagar uma gelada. CHICO! Traz uma cerveja cu-de-foca pro nosso caríssimo amigo aqui.
- Não sô teu amigo, palhaço!
- CHICO! Traz uma cerveja gelada como o grande caralho de asas pro nosso nobre colega!
- Também não sou seu colega, otário!
- CHICO! PELA FÉ NO SANTO SEPÚLCRO, TRAZ UMA CERVEJA PRO NOSSO ILUSTRE DESCONHECIDO!
Pouco depois, copos cheios e ânimos apaziguados, com a desculpa de tirar água do joelho, passei no balcão, paguei minha conta e saí sorrateiramente. Seguia o caminho pra casa muito concentrado até que fui desconcentrado pelo rebolar de uma loirinha linda com uma saia microscópica...
29.1.08
Fui!
- Oi! Como vc tá?
- Jóia! E vc? Beleza?
- De boa!
- Me separei... Acho que pra valer... E carnaval? Vai viajar?
- Nem. Vou ficar por aqui e piranhar. Tô na pista pra negócio! Hahahahaha!
- É... Acho que é a boa...
- Vamos cair no Carmelitas!
- Onde é?
- Aqui em Santa!
- Vem me buscar? Hehehe
- Nem se eu tivesse carro
- Quando eu comprar meu carrinho, vou te visitar
- Precisa de carro? Vivi minha vida inteira sem e tô de boa. Enquanto existir táxi e ônibus...
- Quando é que vc vem visitar a gente?
- Nem sei... Quando é que vcs vem me visitar?
- Pô, vc é que tem que vir aqui
- ..........
- .........
- Quer saber de uma? Eu passei a porra da minha vida inteira indo visitar, sacou? Eu tô bem de saco cheio de ficar visitando gente que não tem um puto de um interesse em me visitar. Cansei dessa merda! Porra! To aqui morando sozinho e sabe quando foi que alguém ligou ou escreveu perguntando se eu tô legal ou se tô precisando de alguma coisa nem que seja uma palavra de conforto ou cinco pratas? Nunca! Vou te mandar a real: eu baixei ao zero minhas expectativas com relação a vcs! Entendeu? Funciona assim: se eu não espero nada, não me decepciono! Então eu não espero porra nenhuma de vcs! Nem uma palavra de conforto, nem cinco pratas, nem nada! E quer saber mais? Vivi mais de metade da minha vida sem picas de vcs! Te juro que morro antes de precisar de alguma coisa! “Quando eu comprar meu carrinho”? Quero que se fodam vc, seu carro e quem mais estiver envolvido! Junta todo mundo em frente ao computador que eu quero falar uma vez só: vão se foder! Me esqueçam! Pronto! Falei!
23.1.08
Homenagem
Ó Mãe de Deus das candeias
Aceita essa romaria
Que os romeiros são de longe
Não podem vir todo dia
A vossa água é tão santa
Que a nossa vida clareia
E lava todas as culpas,
Ó Mãe de deus das candeias
Mãe de deus das candeias
Senhora de tanta luz
Quem vai doente, vem são
Quem vai cego, vem com luz
És Maria, nossa alegria
Estrela do mar que nos alumia
Estrela do mar, luz guia
Estrela do mar, luzia
Estrela do mar, luz guia
Estrela do mar, luzia
Todas as vezes que eu escuto essa música, me lembro da minha maínha! Coisa assim de saudade de boa que dá. Coisa de filho que ama muito minha maínha!
16.1.08
A little poetry
She is foremost of those that I would hear praised.
I have gone about the house, gone up and down
As a man does who has published a new book,
Or a young girl dressed out in her new gown,
And though I have turned the talk by hook or crook
Until her praise should be the uppermost theme,
A woman spoke of some new tale she had read,
A man confusedly in a half dream
As though some other name ran in his head.
She is foremost of those that I would hear praised.
I will talk no more of books or the long war
But walk by the dry thorn until I have found
Some beggar sheltering from the wind, and there
Manage the talk until her name come round.
If there be rags enough he will know her name
And be well pleased remembering it, for in the old days,
Though she had young men's praise and old men's blame,
Among the poor both old and young gave her praise.
William Butler Yeats
8.1.08
Dia Branco
Abriu a torneira e a branca água caía quente sobre o branco corpo do branco homem que colocou um pouco do branco shampoo na mão em concha e espalhou sobre a branca cabeça. Esfregou o branco sabonete sobre o corpo e ficou assistindo a branca espuma escoar pelo branco ralo.
Depois de enxugar-se na branca toalha, foi até o quarto onde a branca camisa pendurada no branco cabide o aguardava. Como sempre, vestiu a branca camisa, calçou as negras meias e vestiu a desbotada calça jeans.
Já metade fora de casa, uma rajada de vento trouxe uma fita toda colorida que caiu no meio da sala. A branca gata se aproximava lentamente, com medo, receio. O que seria aquilo? Vencendo o medo, ela, a branca gata, foi chegando perto da colorida fita e cheirando a fita, a gata se coloriu.
E a colorida gata olhou para o branco homem e miou olhando do branco homem para a branca janela. Não se sabe por que, mas o branco homem entendeu a mensagem e correu na direção da janela. E a abriu.
Naquele momento, os brancos móveis tomaram cor de madeira, a colcha que ficava sobre o sofá se tornou colorida com a cor da Índia, as plantas se tornaram verdes como nunca se havia visto, a gata se tornara colorida em tons de negro, branco e caramelo. Os verdes olhos dela fitaram o ainda branco homem e ele correu até o escritório abrindo as janelas num rompante. Aquela luz multicolorida entrava em casa deflorando a brancura, estuprando o cinza, afastando o ordinário.
O branco homem correu até o quarto para abrir as janelas, mas antes disso arrancou a roupa branca, negra e desbotada. Nu, foi até a janela e abriu ali as portas para todas as cores. Viu seu branco corpo se tornar bronzeado e, com os braços abertos, respirou fundo. Sentiu as cores e a vida invadindo seu corpo e sua alma. A colorida gata deitou-se do seu lado e pediu carinho. Com os olhos bem abertos o colorido homem via e escutava os pássaros logo ali do lado de fora da sua janela.
Quando o telefone tocou, ele não estranhou e caminhou até a sala. O telefone que antes fora negro, brilhava em tons dourados. A voz tão familiar e tranqüila do outro lado disse: Marcito, seu cretino!! Vamos pra Maromba?
6.1.08
A Espera
Não sabia muito bem o que esperar de um outro dia. Não sei se realmente queria que você aparecesse. Não sei se tenho andado muito solitário e vulnerável. Na verdade, esperava que você fosse transparente como fui exigido. Talvez eu esperasse que alguma coisa fosse dita nem que fosse “sai da minha vida”.
Deitado na minha cama, me dividia entre olhar para a televisão e assistir a chuva que caia lá fora. Minha cabeça se perdia em meio a pensamentos diversos de ontem, hoje e amanhã. Abracei um dos mil travesseiros que me rodeavam e um pensamento me atingiu como uma flecha fazendo com que os outros voassem: tenho estado sozinho. Mas não há tristeza em minha solidão. Muito pelo contrário.
Sentado na beirada da cama, meus pés tocam o chão frio. Acendo um cigarro e espero.
12.12.07
Agora
Tem horas que me sinto só. Muito só. Ao mesmo tempo me sinto ótimo estando sozinho. Sou eu que faço minhas coisas, ajeito a máquina de lavar roupa, lavo a louça (coisa que detesto), varro a casa, lavo roupa, passo roupa (outra coisa que detesto).
Tem horas que escuto uma música bonita, vejo um filme bacana e quero ter alguém do lado pra poder fazer comentários, mas essa vontade passa rápido.
Tem horas que me preocupo com isso achando que vou morrer solteiro ou qualquer coisa assim, mas essa é outra preocupação que passa. E passa rápido.
Minha vida, meus amigos, minha casa, minha gata... Essas são as coisas importantes. Talvez eu tenha encontrado as minhas coisas, meu amadurecimento, minha vida. Como disse uma grande amiga: eu saí da vida das pessoas que amo e as chamei de volta agora. E as pessoas que eu amo responderam, voltaram, estão do meu lado! O que pode ser melhor que isso?
10.12.07
Comments
28.11.07
A festa
É muito bom estar de volta ao círculo de amizades que foi criado ao meu redor. É bom saber que tenho um porto seguro mesmo estando afastado por um longo e tenebroso inverno. Essa reunião foi como voltar pra casa. Mais que isso, foi como voltar pra casa e encontrar todos de braços abertos.
4.11.07
Mandamentos Para Se Viver Só
2 – Mantenha a casa limpa. Poucas coisas são melhores que cheiro de casa limpa por você mesmo.
3 – Tenha incensos, essências, coisas que façam sua casa ter um cheiro agradável caso você não tenha tempo ou esteja muito cansado para uma limpeza séria.
4 – Tenha plantas. Muitas plantas. Plantas bonitas e cheirosas.
5 – Cuide das suas plantas. Regue e sempre regue escutando música. Elas adoram e respondem a isso.
6 – Não tenha medo de gastar. Afinal, é a sua casa!
7 – Tenha filmes. Nem sempre o cara que faz a programação da TV tem o seu gosto.
8 – Dê atenção ao seu gato (caso você tenha um. Isso é muito importante se você não quer sua casa cheirando a xixi de gato!).
9 – (Muito importante) Faça da sua casa o seu retiro. Espiritual ou não. Sinta-se bem em casa. Goste de estar em casa.
10 – Faça sua própria comida mesmo que o dia tenha sido desgastante, cansativo e tal.
11 – Dance sozinho mesmo que você ache que tem alguém olhando. Você já é ridículo sem dançar...
12 – Cultive o hábito da leitura. Se você não tem TV a cabo, você vai precisar!
13 – Se você fuma, mantenha seus cinzeiros limpos como se a Virgem Maria pudesse apagar os cigarros dela ali.
24.8.07
Nova vida, vida nova!




Queria dizer umas palavras de Caetano:
Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E a mãe do seu irmão
Minha mãe e eu
Meus irmãos e eu
E os pais da sua mãe
E a irmã da sua mãe
Lhe damos as boas-vindas
Boas-vindas, boas-vindas
Venha conhecer a vida
Eu digo que ela é gostosa
Tem o sol e tem a lua
Tem o medo e tem a rosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a noite e tem o dia
A poesia e tem a prosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a morte e tem o amor
E tem o mote e tem a glosa
Eu digo que ela é gostosa
Eu digo que ela é gostosa
Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E o irmão da sua mãe
Funciona pra mim como se fosse meu anjo-da-guarda dizendo isso pra mim já que não tenho irmãos, tios ou qualquer familiar além de mamãe e meu padastro me dizendo essas coisas.
Minha vida vai mudar radicalmente sim. Fico eu aqui, morrendo de medo, ansiedade, pânico, sofrimento. Mas é difícil não dar certo com tanta gente boa torcendo a favor.
N.A: Fui fazer minha despedida oficial dos jogos de tênis hoje (vou morar em Santa Teresa e conheço minha preguiça. Sei que não vou ao Jardim Botânico jogar) e eis que a figurinha ali de cima me aparece na quadra fazendo a maior das bagunças com a rede a as bolinhas de tênis. Fiquei me perguntando: o que será que significa um gato aparecer na sua despedida?
22.4.07
Yours
Finger on the key
This lock that you release
Is opening but isn't free
And I hope that you can see
How it beats inside of me
Instead of pushing fear aside
I want to run I want to hide
I am vulnerably yours
She, who is wanting me
Whose touch can make me cry
I can only understand
By never asking her why
Hear the contradictions fly
And as hard as I may try
Every truth becomes a lie
In the ache of her reply
I am passionately.....
Yours
And the saddest eyes are
Yours
And the softest skin is
Yours
And the hope I borrow is
Yours
So won't you let me in I'm yours
All that I begin is yours
Every prize I win is yours
At your feet again I'm yours
All I am is yours
All I am is wanting you
I've fallen down and I can't seem to come to
If I should die before I wake
I commend my soul into this ache
Up above the world so high
Where the water tends to meet the sky
She's all I'm after by the toe
And I won't let go....
And I wanted you to know
That if you reap what you would sew
I would take it blow by blow
All I am is....
Yours
And the saddest eyes are
Yours
And the softest skin is
Yours
And the hope I borrow is
Yours
So won't you let me in I'm yours
All that I begin is yours
Every prize I win is yours
At your feet again I'm yours
All I am is yours
Yours
21.4.07
Ainda te quero, ainda te amo
O que era tão fácil agora me parece tão difícil. Mesmo agora que sei e reconheço estar só. Escolha, eu sei.
Talvez seja a noite que trás os fantasmas que rondam minha cama. Talvez os fantasmas me rondem o tempo todo e eu só perceba sua presença quando é noite.
Eu deveria te procurar, mas tenho muito medo da sua rejeição. Não creio que você vá me receber de braços abertos depois do que fiz. Talvez eu tenha tanto medo da sua rejeição que não me arrisque a saber se você ainda me quer ou não. Talvez eu carregue para sempre o benefício (?) da dúvida. Ou quem sabe eu te ligue numa dessas noites? Só pra escutar sua voz. Como eu fiz outro dia e você não sabe e nem percebeu.
Acho que o que me faz não te procurar é a vergonha. Vergonha de ter feito o que eu fiz.
Como explicar o inexplicável? Como dizer de forma compreensível que, olhando para trás, eu me achava possuído por um espírito ruim ou qualquer coisa assim? A não ser que você acredite que aquele fosse eu. Se sim, não há mais esperanças. Esperanças que eu fiz questão de matar friamente.
Me pego pensando em você e achando que pensando com muita força, o telefone vai tocar e vou ouvir a suavidade da sua voz dizendo que me ama.
De qualquer modo, quero que você saiba que sua motivação me fez uma pessoa melhor. Sou conhecido no meu ambiente de trabalho e as pessoas gostam de mim porque você me fez ver quem eu sou.
Acho, francamente, que você nunca voltaria pra mim pelo simples fato de eu ter tido outra mulher. Acho que isso seria um entrave na nossa vida.
Acho que ainda não te procurei porque acho muita coisa.
A verdade é a seguinte: achei que pudesse te esquecer nos braços de outra mulher, mas isso não é verdade e nunca foi. Achei que já tinha te esquecido. Achei que não te amava mais. E no meio de todos os meus “achismos”, descobri que ainda te amo. E descobri que a gente não deu certo por causa dos meus medos. Sempre tive muito medo de te perder. Tenho medo de ser quem eu posso ser.
Te liguei e uma outra pessoa atendeu. Não sei se não sei seu número ou se você mudou. Toda a coragem que eu tinha juntado foi em vão. Que meus sentimentos fiquem registrados. Quem sabe você ainda Lê o que eu escrevo...
18.4.07
Sempre
Eu te contemplava sempre
Feito um gato aos pés da dona
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
Vejo estrelas que já foram
Noite afora para sempre
O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso,o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre
(Chico Buarque, sempre ele)
5.4.07
Escrever é Negar Sentimentos
Chegou em casa naquela noite se sentindo diferente, estranho, esquisito. Tirou o paletó como fazia sempre, fumou um cigarro como sempre, mas as coisas lhe pareciam diferentes, estranhas, esquisitas.
Não tinha fome, não tinha sede, nada. Andava nu pela casa o que lhe pareceu ainda mais diferente, estranho, esquisito. Não era hábito seu. Colocou uma música, mas o som lhe parecia uma cacofonia e resolveu tirar. Nu e no silêncio da casa, caminhou até o quarto, sentou na beirada da cama com a cabeça apoiada nas mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos e fitava o nada. Num repente começou a rezar. Do jeito dele, claro. Tinha estudado em colégio de padre quando pequeno, mas não sabia Pai-Nosso ou Ave-Maria, então naquela estranheza, naquela diferença, naquela esquisitice, conversou com Deus.
Dizia coisas desconexas, estúpidas, absurdas e ao mesmo tempo coerentes e inteligentes. Sabia que Deus entendia. Falou durante horas e horas e horas e horas sem fim. Em dado momento, achou que perderia a voz e passou a falar para dentro, murmurando. Sabia que Deus o escutava. Tinha certeza. Afinal, nunca tinha falado antes com Ele e seria uma grande sacanagem se o todo-poderoso não o escutasse agora.
Não pediu nada. Nem para ele, nem para ninguém. Só falou.
Quando achou que tinha terminado, sentou-se ao computador e escreveu e escreveu e escreveu até que não sentia mais a ponta dos dedos. Até que não conseguia mais manter o corpo na cadeira. Até que foi tomado de todo o cansaço do mundo. Se atirou da cadeira para a cama e dormiu.
Em um sonho, ouviu uma frase. Como se alguém muito, muito longe gritasse, conseguiu distinguir algumas palavras.
Acordou aos prantos. Lá estava ele. Mais uma vez, negando seus sentimentos...
24.2.07
Ainda assim
Mesmo que tudo fosse verdade. Que você conseguisse não me amar mais de uma hora pra outra como foi dito. Mesmo que eu não te quisesse mais, ainda assim, faria tudo de novo.
Faria tudo pra começar de novo. Pra escrever tudo de novo. Pra ouvir a chuva caindo mais uma vez. Pra ver os mesmos filmes. Te conhecer de novo e continuar te amando.
Isso tudo porque só carrego comigo as boas lembranças. Porque te levo em meu corpo como tatuagem (tá bom, isso não é meu... Peguei emprestado do Chico. Buarque. Não o gato).
Não que eu queria que as coisas chegassem ao que chegaram, mas os bons momentos... Esses são eternos.
A dor. A dor. Física, palpável, densa, insustentável. Mas há um tempo para tudo nessa vida. Na minha, na sua, na nossa. As noites insones, os remédios... Tudo isso há de ser compensado.
“Preciso descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
Que bota no corpo uma outra vez...
... Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu”
19.2.07
Don't Walk Away
You'll be the way your were before
When you don't want me anymore
Don't turn around, don't ever leave
A lonely room where empty days
Are gathering to meet me when you're gone, gone
How in the world will I go on
(Don't walk away) all you gotta do is stay
(Don't walk away) all you gotta do is stay
(Don't walk away)
Don't walk away, don't say goodbye
Don't turn around, don't let it die
When shadows fall, when day is done
All through the night, all of my life
Don't walk away Is it a dream, when will it end
When everything we've ever known
Has ended and I'm all alone
Where will I go, where will I be
The feelings that I've never shown
Maybe I'll find the answer when you're gone, gone
How in the world will I go on
(Don't walk away) all you gotta do is stay
(Don't walk away) all you gotta do is stay
(Don't walk away)
12.1.07
Minha vida, minha morte
Era meu último dia na cela. De uma forma estranha e reconfortante, as pessoas, ou melhor, os guardas me tratavam como se eu fosse gente. Até então, eu era somente um prisioneiro.Minha morte, por enforcamento, estava marcada para dez da noite.
Tudo me parecia uma grande metáfora. Eu pensava em tudo que tinha feito e não conseguia me sentir livre. Sabia com uma precisão cirúrgica tudo o que tinha feito. Sabia que não tinha sido o que minha mãe esperava de mim. Sabia que não consegui sair do casulo como havia prometido à minha esposa. Logo essas duas que tanto confiavam e acreditavam em mim.
No meu último jantar, pedi que me servissem o purê de batatas de minha esposa e um contra-filé “deep fried” de minha mãe. Claro que não era igual, mas os cozinheiros da prisão fizeram o melhor deles.
Pedi um cigarro e fumei como se fuma o último cigarro da sua vida. Também pedi uma dose de vodka. Minha cabeça ficou leve e o cigarro me queimou a língua como se fosse cascalho quente. Pensei nas duas mulheres da minha vida pela penúltima vez. Respirei fundo e fui conduzido pelos estreitos e fétidos corredores da prisão. Eu estava curiosamente calmo e cantava baixinho (Let’s make love, for old trimes sake. Let’s set right, an old mistake. Let’s invite our hearts to break. Is right tonight, just for old times sake.)
Ao chegarmos à forca, tentei fugir, lutei, acertei um soco em um dos guardas, mas fui contido. O padre falava qualquer coisa que não consegui compreender, pois chorava demais. Acho que chorava numa desesperada tentativa de fazer com que todos sentissem pena de mim e me deixassem ir. Mas isso seria ridículo. Cada um carrega sua cruz e a minha era ser morto por enforcamento. Compreendi tudo o que me foi dito a respeito de minha sentença e parei com o choro.
Minhas últimas palavras foram: Queria ser Superman e fazer o tempo voltar. Já que não posso, alguém explica pra Tita, por favor. Ela não vai entender porque eu sumi por tanto tempo. Minha mãe... Você fez o melhor, criou o melhor. Não se culpe, pois a culpa é toda minha. Bebê... Desculpe. Queria ser melhor. Queria ter tentado com mais força, mas eu não consegui. Queria ter te dado tudo que você merece. Queria ter te feito feliz, mas se eu te fiz feliz por cinco minutos da sua vida, então esses foram os cinco minutos mais felizes da minha vida.
Minha última lágrima escorreu quando a corda foi posta ao redor do meu pescoço. Fechei os olhos e a última coisa que senti foi o chão faltar de baixo de mim. A última coisa que escutei foi o estalar do meu pescoço. Morri sem ter conseguido ser o que as duas pessoas que eu amo tivessem a chance de vislumbrar alguma esperança em mim. Na verdade, morri muito depois de ter matado todas as esperanças das minhas duas mulheres.
26.10.06
20.12.05
Classificados
Já que não pinta emprego, resolvi anunciar meus serviços de tradução Inglês-Português-Inglês. Não sou juramentado, mas quebro um galho que só vendo! Faço traduções técnicas, manual de instrução, livros, matérias jornalísticas (já fiz uma pro jornal Extra que ganhou prêmio lá fora), história em quadrinhos, o que vier.
Precisando, entrar em contato pelo mail: marcito_ribeiro@hotmail.com que também é o MSN.
FELIZ NATAL E BOM 2006!!
28.11.05
Nosso Deque
Cheguei ao nosso deque e sentei-me à sombra para ler minha companhia. Ali crianças bem vestidas de pais melhor ainda vestidos, corriam e gritavam em louco frenesi sem atrapalhar minha leitura. Uma das crianças me olhava com ar desconfiado possivelmente tentando imaginar o que poderia ser mais interessante do que gritar e correr. Sorri para ela que me sorriu de volta e voltou aos seus afazeres infantis. Talvez tenha se tranqüilizado sabendo que eu também me divertia.
Um Bem-Te-Vi chegou perto de mim para saber o que eu lia. Primeiro pousou acima de mim num fio de eletricidade, mas a visão não era boa. Aproximou-se mais, aprovou minha leitura, me olhou nos olhos e viu o quão feliz eu estava; aposto que, como todo Bem-Te-Vi é fofoqueiro, foi correndo contar aos outros Bem-Te-Vis que ali naquele deque se sentava um homem feliz. E aposto uma mariola mordida que ele sabia porque eu estava feliz!
O sol fazia com que os outros suassem, mas para mim ele chamou uma brisa leve que me protegia do calor. Luzes dançavam sobre a superfície da água que balançavam levemente o nosso deque quase que embalando nosso sonho que agora, é mais real do que a própria vida.
24.11.05
Bebê
"Não , não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar. Aprendi! A vida me ensinou a caminhar cantando, como convém a mim e aos que vão comigo" Thiago de Mello ( pois já não vou mais sozinha)
15.10.05
Eu Sou o Tigre
O mundo inteiro é meu palco.
Eu incendeio novas trilhas;
Eu procuro o inatingível,
E intento o que não foi intentado.
Danço ao som da música da vida
Em alegre abandono.
Venha cavalgar comigo no meu carrossel.
Veja as cores em número infinito,
As luzes que cintilam.
Todos me aclamam o realizador sem paralelo.
26.9.05
As Mais Tocadas de Marcito
2- Damien Rice – The Blower’s Daughter
3- Blues Treavellers – Canadian Rose
4- Ella Fitzgerald and Oscar Peterson – Midnight Sun
5- Lynyrd Skynyrd – Heartbreak Hotel
6- Nina Simone – Love Me or Leave Me
7- John Coltrane – Central Park West
8- The Guess Who – No Sugar Tonight
9- Black Box – Fall Into my Love
10- Seals and Crofts – Summer Breeze
11- Ednardo - Dorothe L’Amour
12- Ednardo – Flora
13- Milton Nascimento – Canção Amiga
14- Novos Baianos – A Menina Dança
15- Paulinho da Viola – Bebadosamba
16- Ac/Dc – Ride On
17- The Band – The Night They Drove Old Dixie Down
18- Aimee Mann – Wise Up
19- Bill Evans & Eddie Gomes – Invitation
20- Blues Travellers – Make My Way
3.9.05
Bebadosamba
disse uma vez, com certa ironia :
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
Mas eu, Boca, como semrpe perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado
Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra
(Paulinho da Viola)
4.8.05
Gerontion
Thou hast nor youth nor age,
But, as it were, an after dinner's sleep,
Dreaming on both
(Não és jovem nem velho,
Mas como, se após o jantar adormecesses,
Sonhando que ambos fosses)
30.7.05
6.7.05
Prisão
23.10.04
14.10.04
100° Post
Quem diria que eu chegaria aqui! 100° post!!!
Pra comemorar, vou anunciar minha flauta:
Vendo flauta transversa Yamaha F100 SII. Tá um pouco escurecida pela falta de uso, mas funciona direitinho. Sapatilhas e lubrificação em perfeito estado. Preço: R$ 900,00. Tenho visto por aí gente vendendo o mesmo modelo de flauta entre R$ 1.200,00 e R$ 1.300,00. Como a minha tá precisando de uma limpeza, tô dando essa colher de chá! Quem se interessar, deixa um recado COM E-MAIL ali nos comentários oumanda um mail pro endereço ali de cima em "fale comigo".
Muito grato, gente boa! Inté a próxima!!
6.9.04
Meu Tempo é Hoje
Quem quiser gostar de mim, eu sou assim
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim, eu sou assim
Meu mundo é hoje
Não existe amanhã pra mim
Eu sou assim
Assim morrerei um dia
Não levarei arrependimentos
Nem o peso da hipocrisia
Tenho pena daqueles
Que se agacham até o chão
Enganando a si mesmos
Por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte nesse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai pro caixão
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim, eu sou assim
(Paulinho da Viola)
13.8.04
Lições
Depois eu fico me cobrando escrever... Quem é que pode escrever sendo um preguiçoso de carteirinha?
Humpf!
7.8.04
Bluer than Blue
I can catch up on my reading
After you go
I'll have a lot more time for sleeping
And when you're gone it looks like things
Are gonna be a lot easier
Life will be a breeze, you know
I really should be glad
But I'm bluer than blue
Sadder than sad
You're the only light
This empty room has ever had
Life without you is gonna be
Bluer than blue
After you go
I'll have a lot more room in my closet
After you go
I'll stay out all night long if I feel like it
And when you're gone
I can run through the house screaming
And no one will ever hear me
I really should be glad
But I'm bluer than blue
Sadder than sad
You're the only light
This empty room has ever had
Life without you is gonna be
Bluer than blue
I don't have to miss no TV shows
I can start my whole life over
Change the numbers on my telephone
But the nights will sure be colder, and I'm
...Bluer than blue
Sadder than sad
You're the only light
This empty room has ever had
Life without you is gonna be
Bluer than blue
Bluer than blue
(Michael Johnson)
Sei lá... Me deu uma tristeza...
27.7.04
Prêmio
Acatando sugestões, os prêmios passam a ser: 1 mariola mordida, 1 caceteira elétrica, 1 pênis Montreal ou um caralho de pelúcia!
Antenção, meus adorados leitores!
Enquanto escrevo, este humilde blog conta com 7912 visitas! Em sendo assim, resolvi premiar a visita de número 8000 com uma mariola mordida ou uma caceteira elétrica!
O vencedor poderá escolher entre esses dois maravilhosos prêmios patrocinados pela Velho Mago Inc.
13.7.04
Da Saudade e do Tempo
O que me chamou a atenção foi uma descoberta que fiz: eu não tenho saudade.
Uma vez constatado o fato, abri outra cerveja, acendi mais um cigarro e me pus a pensar na coisa. Abri o dicionário para ver a morfologia e o significado literal da palavra “saudade”. Segue:
“1. Sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável.”
Para mim, bastaram as sete primeiras palavras e, na verdade, uma delas diz quase tudo: “incompletude”.
Muitas vezes, uso expressões como “tenho saudade de jogar bola na pracinha” ou coisa que o valha, mas na verdade não é saudade. Eu não gostaria de ter dez anos de novo. Nem dezoito, nem três. Penso no meu passado com muito carinho, muito afeto e procuro não repetir algumas burradas que cometi lá. O que passou, virou história, aprendizado. Pessoas também passaram e continuam passando pela minha vida e fazendo parte e construindo comigo a minha história. Umas chegam e vão, outras chegam ficam um tempo e também se vão. Mas as mais importantes são as que marcam. As marcas que carregamos são indeléveis e nem a implacabilidade do tempo pode apagar. Da mesma forma, não sinto saudades. Da mesma forma, penso nas pessoas que se foram com muito carinho e respeito. O que deveria ser vivido naquele tempo com aquela pessoa, foi completo, me bastou, me fez completo.
Recentemente encontrei pessoas de um passado nem tão distante assim. Gente de colégio, gente de quem gosto muito mesmo! Claro que a conversa girou em torno das coisas desse passado. Me vinham imagens e boas sensações daquele tempo, mas o tempo ficou lá. As pessoas reapareceram, mas a união, a cumplicidade que se tinha naquele tempo, não existem mais. As pessoas seguem seus caminhos. Existe o carinho por termos dividido uma época tão rica na vida de qualquer um. Época de experimentações, afirmações, medos, dúvidas muito mais intensos do que hoje.
Mudando um pouco, mas não completamente de assunto. Reparei, nessa aventura de reler meus textos antigos, que escrevo muito sobre mares, rios e sobre o tempo. Mar e rio são metáforas para o próprio tempo e confesso que muitas vezes usei dessas metáforas sem saber desse significado.
O tempo não pára, a vida não pára. Sentir saudade é uma forma de se tentar ficar lá naquele tempo e isso interrompe, vai contra o sentido da própria vida. Como dizia Heráclito a vida é um fluxo de constante movimento (como o rio, como o mar). Eu tenho problemas com o tempo. Nunca quis que o tempo parasse. Sei que tenho problemas em administrar meu tempo, mas vou aprendendo enquanto sigo essa minha vereda.
“A única coisa que nos cabe decidir é o que fazer com o tempo que nos foi dado”
Gandalf
“O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”
(Se alguém souber o autor, este velho e alquebrado escriba agradecerá a contribuição)
“Meu tempo as vezes se perde
Em coisas que não desejo...”
Retiro – Paulinho da Viola
"O vento empurra o barco, mas quem escolhe o rumo é o timoneiro"
Marcio Brito
8.7.04
Do Beijo
- Assim, sem mais nem menos?
- É que me deu vontade de esquecer o mundo...
1.7.04
Das Definições. Parte I
28.6.04
Aniversário
Tudo começou quando o Mago já estava agonizante. Eu já estava cansado do personagem e queria continuar escrevendo, mas não lá. Não escrevendo o que eu escrevia. Decidi que seria interessante falar sobre descobertas minhas sobre o mundo, sobre mim, sobre os outros. Achei que seria mais interessante ainda ter gente que pudesse contribuir com suas próprias descobertas, enriquecendo assim o blog. Acabou não dando certo por diversos motivos, mas resolvi continuar com a coisa assim mesmo tendo como colaboradora a já conhecida Menina da Torre que aparecia esporadicamente pra escrever. Sempre fui admirador dos textos e da própria Menina da Torre e, um belo dia, mostrei a ela um continho que eu tinha escrito a respeito de uma cena no metrô da qual fui protagonista e ela, com toda a propriedade me disse:
- Por que você não publica isso, caralho? Ficou ótimo!!
- Pô... Taí! Vou publicar mesmo!
Fiquei surpreso com a quantidade de gente que tinha gostado do conto. Como algumas pessoas sabem, eu sou meu crítico mais ferino e isso me impediu de publicar muitas coisas aqui. Principalmente no começo quando eu não tinha segurança no que escrevia. Hoje, um pouco menos inseguro nos meus textos, escrevo e quase não percebo. O que antes era um certo esforço, hoje sai naturalmente. Há muito já não tento domar minhas palavras e nem tento direcionar a escrita. Simplesmente deixo as coisas fluírem, as estórias surgirem e seus personagens ganharem vida nessas parcas linhas que escrevo.
Um ano. Em um ano vi blogs morrerem e blogs nascerem. Vi a minha forma de escrever mudar muito e ainda vi gente que mudou a forma de escrever depois que passou a me ler (apesar de não reconhecer. Acontece... eu acho.). Conheci gentes e conheci gente. Fiz amigos. Uns ficaram no caminho, outros estreitaram os laços de amizade. Ganhei e perdi. Gente que me ajudou a escrever melhor, a superar crises. Gente que me mostrou tanta coisa sobre mim tendo somente lido meus textos. Gente que me encanta. Aqui me expus, contei fragmentos da minha vida, contei minhas angústias, tristezas, frustrações, alegrias, paixões. Vi uniões e separações. Falei sobre música e cinema que são minhas grandes paixões. Me apaixonei, quebrei a cara e nunca odiei ninguém. Talvez a mim mesmo em certos momentos. Confesso que não posso mais ter contato com algumas pessoas. Ainda me é muito doloroso... Mas não guardo rancores. Essas coisas envenenam e descobri que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Um dia, quem sabe eu escrevo sobre isso. Ou não. Tem coisas que é melhor a gente não mexer mais. Pode ser que a ferida se abra de novo e a dor volte ainda mais intensa. É... Melhor esquecer.
Confesso também que perdi um pouco do tesão de escrever. Mentira. Perdi o tesão de escrever e publicar aqui. Tenho escrito muito. Minha vida chegou a um momento de mudanças estruturais que eu estou achando o máximo. Vou voltar a fazer coisas que nunca deveria ter deixado de lado e resolvi fazer outras que nunca tinha feito. Percebi que a vida premia a ousadia e resolvi ser ousado.
Sou um sujeito que cria raízes. Criei aqui, mas essas eu vou ter que cortar. Preciso canalizar essa minha criatividade para outro lugar. Fazer outras coisas. Dar um rumo nessa minha vida. Tenho sonhos e chegou a hora de correr atrás deles.
Não vou parar de publicar alguns textos aqui, mas a freqüência vai diminuir drasticamente. Tenho muito carinho pelos meus textos e pelos que me acompanham. Meu e-mail está ali em cima e o endereço é também meu MSN. Apareçam se quiserem.
Pra terminar, resolvi postar uma música que passei anos caçando. Sabia quem tocava, mas não sabia o nome da música e nem entendia direito a letra. Com uma ajuda do pessoa da Rádio Antena 1 daqui do Rio, descobri que a música é Talking Out of Turn do The Moody Blues.
When I took a little loving from you
Oh I, never thought about the hurting inside
But I took a little more than I should
Oh why, can't explain that I ever would
Let you slip through my fingers
Let you escape like yesterday
I would appreciate you knowing
I thought your love had come to stay
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
But I took a little more of your each day
When I didn't see that I was breaking you apart
With angry words of love I didn't mean
Oh why, can't believe that I ever would
Talk myself out of tomorrow
Talked like a fool to yesterday
And as the evening loses colour
Your love began to fade away
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
Talking out of turn
Talking out of turn
If I upset you
I didn't mean to hurt you
I didn't mean to make you cry
I don't need an alibi
To start me talking out of turn
When I took a little loving from you
Oh I, can't believe that I ever would
Let you slip through my fingers
Let you escape like yesterday
I would appreciate you knowing
I thought your love had come to stay
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
Talking out of turn
Shot to pieces
When will I learn
3.6.04
Futuro do pretérito mal feito
Certo dia olhou para o futuro e não viu nada mais que seu próprio reflexo envelhecido, triste e solitário. Não sozinho, mas solitário. Não queria viver o futuro. No futuro, continuava cometendo os mesmo erros, mas tinha mais dificuldade em se reerguer quando lhe puxavam o tapete ou quando ele tropeçava em sua própria pressa em se revelar, se resolver, se conhecer.
Em outro dia, curioso para saber se algo mudara em seu futuro, viu uma pessoa próxima. Era uma mulher. Bonita, de sorriso largo e sincero. Foi apenas um flash que vira. Sabia que mesmo que aquilo acontecesse, seria fugaz. Não criava mais ilusões a respeito de seu futuro. Sabia que daria um jeito de estragá-lo. Como fez ao longo de toda a sua vida.
Andava nu pelas ruas da cinzenta cidade. Era assim que se sentia com sua “arte”. Como se estivesse exposto aos olhares curiosos dos transeuntes que comentavam, censuravam ou aplaudiam. Sim. Havia quem aplaudisse mesmo que hipocritamente. Nesse dia, a mulher refletida ao seu lado no futuro, passou por ele. Apresentou-se, conversaram, mas como sempre, falara demais. Ela, por algum milagre, não percebera ou talvez fingisse não perceber.
Ele, mais uma vez, tinha se auto-sabotado. Perguntava-se se teria visto o futuro ou só mais uma repetição do passado. Um eco de um grito abafado em seu frágil peito de vidro. Coitado... De tão frágil, fino e transparente, começava a vazar. Uma pequena rachadura que ele tampou com o dedo. Mais uma rachadura que tampou com outro dedo até que não havia mais dedos para conter o vazamento. Vazio, foi pra casa catando os cacos de seu peito pelo caminho. Já na casa que não era sua, deitou-se na cama de outra pessoa e chorava lágrimas que já haviam sido derramadas.
2.6.04
Classificados
Vinte e muitos (quase trinta) anos de uso. Ventrículos em perfeito estado de funcionamento. Tem a péssima mania de se apaixonar pelas pessoas erradas e adquiriu diversas cicatrizes devido a essa pequena falha. Encontra-se um pouco mofado, mas nada que manhãs de sol, boa música, livros ou filmes não possam dar jeito. Desanda a bater acelerado quando perto do objeto de afeição. Fiel, companheiro e cúmplice. Por fora não parece grande, mas cabem muitas pessoas confortavelmente. Dou preferência àqueles que tiverem a auto-estima em um nível que não o torne babaca nem o endureça. Tratar aqui mesmo!
31.5.04
O Retorno
- Sai daí de baixo, frouxo!
- Quem é?
- Sou eu, o Mago! O Velho Mago!
- Mago? Por onde andavas?
- Ah! por aí... Entrei em contato contigo pois quero que sejas meu arauto! Avise à plebe ignara que EU voltei para sanar o males da humanidade!
Desde esse dia, sou o arauto desse cara aqui
20.5.04
As Letras Aprisionadas
Desde então, parei de trancar a porta. Fecho os olhos e as letras tomam vida em folhas coloridas.
19.5.04
13.5.04
A Sala
Algumas vezes, uns homens entravam na sala. Mandavam-no ficar de costas para a porta e um dos homens o vendava. Ficavam muitas horas perguntando coisas sem sentido: “Onde está a bomba?” “Para quem você trabalha?” “De qual célula você faz parte?” “Quem são seus comparsas?”
No princípio ele respondia o que sabia, ou seja, nada. Depois de muito tempo sendo interrogado e respondendo o que os homens não queriam ouvir, resolveu calar-se por completo para descontentamento de seus interrogadores. Depois que eles saiam, ficava conversando com Fred durante horas. Por vezes achava que todas as suas faculdades mentais o haviam abandonado, mas rapidamente se convencia do contrário. Lembrava-se de seu nome, seu endereço, da casa onde morou, dos vizinhos.
Em verdade, lembrar-se de sua vida era tudo o que lhe havia restado, além de conversar com Fred que já tinha se tornado um grande amigo e confidente. Contava à figura de cachorro no teto seus segredos e medos mais profundos. Coisas que ele escondia até de si mesmo como o filho que tivera e abandonara, o homem que teve que matar, o medo de morrer só. Sendo que esse último já estava superado. Sabia que estava na sala para morrer. Poderia até ser de velhice, mas morreria se tivesse sorte.
Um dia, escutava os passos do lado de fora e os homens pareciam mais apressados. A porta se abriu com violência e, pela primeira vez, vira os homens. Vestiam uniformes negros. A sombra dos quepes cobria seus olhos de modo que só se via órbitas negras e ainda carregavam pistolas em coldres presos em suas cinturas. Dois homens entraram primeiro parando à frente da porta. Logo em seguida, com passadas lentas e controladas, um jovem comandante entrou também.
- Eu sou o Comandante Hessler – disse pausadamente. A voz dura e firme do comandante feriu-lhe os ouvidos – As coisas vão mudar aqui, meu caro. Quero que você responda a todas as minhas perguntas. Levante-se! – O pequenino homem levantou-se com dificuldade. A luz que penetrava pela porta incomodava seus olhos fazendo-os arder. – Vire-se para a parede! – Ordenou o comandante. O homenzinho, em pé no centro da sala não se moveu.
- Vire-se!!
Sem esperar mais, o comandante sacou de sua pistola e acertou um único e certeiro tiro bem no meio da testa do homem que ousara desafiar suas ordens. Em silêncio os três homens deixaram a sala e rumaram para o gabinete do General onde o Comandante Hessler faria seu relatório.
O impassível general escutou todo o relatório de Hessler sem piscar e ao fim, dirigiu palavra ao seu sobordinado:
- O senhor é burro, comandante? – Hessler gagejou:
- Co-como, senhor?
- Uma sala tem quantas paredes, idiota?
- Qua-quatro, senhor...
- Então o prisioneiro não desobedeceu a sua ordem! Tínhamos razões para acreditar que, em breve ele estaria pronto para nos dizer tudo! Comandante?
- S-s-sim, senhor...
- Considere-se exonerado!
Dias depois o corpo do Comandante Hessler trajando seu uniforme de gala, foi encontrado em sua residência. Pendurado pelo pescoço a um nó de forca preso a uma viga do teto. A carta que pairava abaixo das lustosas botas negras, tinha grifada as palavras "exoneração desronrosa".
12.5.04
A vida ganhou um papel muito grande.
Contorno teu contorno,
Sinto teu olhar de perto e por dentro
Corro risco de vida
E nem o medo me impede.
O sentimento humano
Nunca se solidificará
Nunca se sentirá concreto
Presencio tua ausência.
Solidifiquei-me em teu corpo,
Duramente sobrevivi em teu coração,
Bombeando-me, líquida,
Em breve destino...
Evaporei-me junto com teu silêncio.
E eis que me senti viva.
7.5.04
Dersú Usalá (atendento ao carinhosíssimo pedido de uma leitora, e porque não, amiga)
O filme é uma produção russo-nipônica de 1975 que, não por acaso, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976. Vale ressaltar que o filme veio logo após uma fase de depressão de Kurosawa (dizem que por causa do fracasso no Japão de seu filme anterior – Dodesukaden – de 1970) que resultou numa tentativa de suicídio frustrada.
O filme conta a história (real, diga-se de passagem) da amizade do Capitão Vladmir Arseniev (Yuri Solomin), líder de uma expedição enviada à fronteira da Sibéria com a China a fim de realizar um levantamento topográfico da região, e Dersú Usalá (Maksim Munsuk), um caçador que vive da e na floresta daquela região.
Dito assim, o filme pode parecer desinteressante. Mas lembrem-se: é um Kurosawa! E como um bom Kurosawa, o filme apresenta movimentos sutis de câmera, longos planos, fotografia primorosa, profundidade de personagens e, conseqüentemente, das relações entre eles.
É interessante ver como o escárnio e a descrença da tropa em Dersú, se transforma em respeito e admiração pela simplicidade e conhecimento que carrega o pequenino velho de pernas arqueadas, olhar vivo e fala apressada.
Dersú Usalá é pura poesia em movimento. A integração do homem com a natureza e a amizade entre os dois protagonistas é retratada de forma magistral por aquele que este velho e alquebrado escriba, considera um dos cinco grandes diretores da história do cinema mundial.
Em uma nota mais intimista, gosto de acreditar que Kurosawa dirigiu e escreveu um filme tão tocante e tão bonito depois de ter descoberto (ou re-descoberto) a vida. Acho que a partir do momento que se viu vivo, escreveu uma história de aproximação dos homens. Não a aproximação que hoje chamamos de “globalização”. Mas a aproximação de uma pessoa da outra. Sem máscaras, nem fingimentos. Somente o respeito e admiração pelo próximo.
4.5.04
Fotas
Retiro
Meu tempo às vezes se perde
Em coisas que não desejo
Mas não repare esse lado
Pois meu amor é o mesmo
Nos momentos de carinho
Eu me desligo de tudo
Nos braços de quem se ama
É fácil esquecer o mudo
Às vezes eu me retiro
E nada me faz sentido
Só há um canto na vida
Aonde eu me refugio
Afasta as sombras que eu vejo
Nos teus olhos tão aflitos
Você conhece minh’alma
E quando quer me visita
(Paulinho da Viola)
2.5.04
25.4.04
Recuperação
Depois de levado para o pronto-socorro, o blog agora está em fase de desintoxicação e recuperação podendo ter alta já nessa semana.
Uma vez recuperado, haverá um coquetel de reestréia a acontecer no dia 03 de maio do corrente ano. Todos estão convidados.
A festa será regada a Cidra Cereser, "cocrete" e quantidas estúpidas de cajuzinho. Querendo evitar que bolsos de paletós e bolsas se encharquem com a gordura e o açucar dos víveres oferecidos, um saco plástico será distribuído na entrada para que os convidados possam levar para casa um pouco da festa.
Alguns contratos já foram fechados: Falcão será o Mestre de Cerimônias e Rosana fará uma participação especialíssima cantando "Como uma Deusa" (tentei contratar a Joanna, mas ela já tinha compromisso). Após o show, o D.J Meciê Limá comandará as carrapetas com o melhor da Retrospectiva Furacão 2000.
Aguardo todos aqui no dia 03 de maio.
Um beijo no gato e um chute nas crianças!!
19.4.04
Carta de Suicídio
Tenho andado muito cansado de mim mesmo. As mesma dores, as mesmas desilusões, a mesma falta de perspectiva, coração repleto e a vida vazia.
Conheci gente muito boa nesse quase um ano de Descobri. Gente que me acompanhou desde o começo e até desde antes do começo quando eu escrevia o Mago. Gente que me ajudou a escrever melhor (se é que isso é possível) e a ver os meus textos por um outro prisma.
Foi ótimo tê-los aqui compartilhando, xingando, rindo, brincando, chorando. Foi fantástico saber que até gente de outros países acompanhavam minhas aventuras e desventuras. Gente de Portugal, Estados Unidos, Uruguai, Japão e de um país chamado “Unknown” (hehehe) que representa 1,6% das visitas.
Bom... é isso aí. “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço”.
Ainda apareço pra deixar meus impertinentes comentários nos blogs alheios. Fiquem bem e lembrem-se dos meus sábios ensinamentos: rapadura é doce, mas não é mole não!
Beijos enormes e abraços apertados,
Marcio
13.4.04
10.4.04
The Beauty of All Things
There is something in everything that is:
Unbelievable beauty, flowing from deep inside.
Don't be shocked or surprised if I lift your disguise.
Realize
that I can see it in all things, all,
but especially you.
There is something we carry,
Like a rhythm that tells us who we are.
It's the rhythm of living. Hear, and we'll come to see
who we can really be-fore Time erases time.
It's sublime.
And I can see it in all things, all, but especially you.
The time is upon us to lose our indifference.
For Time isn't holding us anywhere. I declare:
Life gives savoir faire.
Clean the windows of your inner star
And see things as they are:
An infinity of light like a torch in the night.
For the Sun and the Moon and the Stars
Are living within you.
You are shining in everything that is.
Here's what I see in your eyes right now:
Ten thousand lives over many years like leaves on the vine of this morning's glory,
The determination of years coming to fruition
In the ever-present now of your life, unfolding now in the flowering of days.
The constellation of stars in the sky are like a fugue of light in velvet hands.
The melody never ends, echoing again and again.
Nearer still sounds a melody leading through darkened rooms,
Playing like the Sun on the water; like its reflection in your downcast eyes.
When will you come to see you like I do?
And know you like I do? And hear you like I do?
And love you like I do?
(Laurence Hobgood/Kurt Elling)
6.4.04
27.3.04
Rosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus Esculturada E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
És todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção de tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer.
(Pixinhguinha/Otávio de Souza)
22.3.04
A Santa Sexta-Feira e o Show do Jethro Tull
- Preguinho, quer ir no show do Jethro?
- Pô neguinho, to duro feito côco!
- Caralho! Eu perguntei se você quer ir ao show e não se você tem dinheiro!
- Claro que eu quero, porra!
- Daqui a vinte minutos eu te ligo!
Sento-me ao computador mais uma vez para esperar. O telefone toca de novo. De novo era Pedro – meu fiel escudeiro – cantando no meu ouvido:
- “Sitting on a park bench”
- Vai rolar?
- Vai! Lá pelas dez e pouco a gente passa aí!
Dilema... Eu precisava muito, mas muito mesmo falar com a pessoa que eu estava esperando e nunca tinha visto um show do Jethro! O que fazer, meu pai?
Eis que a pessoa que eu estava procurando aparece. Contei meu dilema e ela, adoradora de Jethro também, me manda ir ao show. Tínhamos perto de duas horas para conversar e foi o que fizemos. O que foi dito? Só a gente sabe! Mas as coisas se resolveram da melhor maneira possível! A hora fatal chegou. Nos despedimos, passei pela geladeira pra pegar cerveja para o povo que estava chegando. Desci, entrei no carro e nos dirigimos para a Barra da Tijuca – o cu do Rio de Janeiro.
Ano de eleições para a prefeitura dos estados da confederação é uma merda! Na esquina da Jardim Botânico com Pacheco Leão, as obras permitiam que somente um carro por vez passasse. Tanto de um lado como do outro. O show começava as 22:30 e as 22:15 estávamos presos na rua Jardim Botânico. Alguém aí sabe o que é o transito normal da rua Jardim Botânico? Agora imagina quando só passa um carro de cada vez. Imaginou? Agora some-se a isso a nossa angústia pra chegar logo na casa de shows do Rio que mais mudou de nome (qual é o nome mesmo?).
Felizmente, ao passarmos pela rua Pacheco Leão, o trânsito melhorou e em poucos porém angustiantes minutos, chegamos ao Via Parque. Adentramos o estacionamento do shopping e... quem foi que disse que tinha vaga? Rodamos, rodamos, rodamos e estacionamos perto de um jardinzinho. Comentei:
- Foi impressão minha ou tinha uma fila enorme de gente na porta?
- Deve ser gente saindo do shopping e pagando estacionamento...
Claro que não! Era fila mesmo! Comentei:
- Bom... com esse monte de gente do lado de fora, o show não deve nem ter começado ainda! – Um carinha que estava na nossa frente vira-se para trás e, com toda a propriedade nos informa:
- O show já tá rolando há uns quarenta minutos!
Depois de superados todos os percalços, entramos no “não-sei-das-quantas” Hall e, como fora anunciado pelo arauto da desgraça anteriormente, o show já tinha de fato começado. Fomos nos embrenhando naquele mar de gente tentando achar um lugar que desse pra ver o palco. NOTA: nunca vi um show de Rock and Roll onde, na frente do palco ficam várias mesas e o povo roqueiro mesmo, se espremendo lááááá trás! Nunca vi isso na minha vida!
Bom, estávamos lá, o show estava rolando, a cerveja era Brahma (eca!) e custava cinco dinheiros. O garçons quase morreu de rir comigo:
- Quanto é a cerveja, irmão?
- Cinco dineiros!
- Uma só?
- Uma só!
- Putamerda! E é Brahma ainda por cima?? Bom... já que não tem tu, vai tu mesmo!
Nesse momento, Ian Anderson pára para conversar com a platéia e eu dou um berro histérico:
- SONGS FROM THE WOODS!!!
Não é que ela atacou de Songs from the Woods?
O show foi ótimo! Nota 10!! A organização do evento... nota 0!
Mas o que importa mesmoé que, durante todo o show, eu só pensava naquela pessoa. E dancei! Pra quem me conhece sabe que isso é raaaaro... Mas lá estava eu. Dançando! E só dançava porque pensava naquela pessoa e no quanto ela gosta de dançar!
Que foi? Tô feliz, oras!
17.3.04
Basta um Dia
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
(Chico Buarque)
12.3.04
Pedaço de Mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
(Chico Buarque)
10.3.04
Velho
- Não imaginei que fosse pra sua mãe!
O velho, sentado em sua poltrona, admirava estático o cuidadoso embrulho feito pela moça da livraria. As mãos trêmulas pelos anos de tabagismo e intimidade com a garrafa começaram a desfazer o laço.
- Ah! Você é desses? – Perguntei me divertindo.
- Desses?
- É! Desses que desfazem o laço e vão abrindo o embrulho cheio de cuidados! Se você soubesse a agonia que isso causa em quem te dá o presente...
- Já fui moço e tive pressa! As coisas hoje me parecem mais divertidas quando feitas vagarosamente.
Velho. Era assim que eu o chamava. Coisa nossa. Na verdade, ele já era velho de espírito antes de sê-lo de fato. Lembro de quando perguntei sua idade e ele, rabugento como sempre, respondeu:
- Dez anos a mais que meu corpo!
Comecei a acreditar que ele jamais abriria o maldito embrulho e sabia que ele o abria devagar só pra me irritar. Passei a ter certeza disso quando reparei que ele colocara o livro a frente do rosto e me espiava por cima do mesmo fazendo força para não rir da minha angústia. Depois de mais alguns agoniantes instantes, o papel de embrulho enfeitado com vários Garfields caiu ao chão e um silêncio denso pairou sobre a sala. Pude ver que os grandes olhos verdes do Velho estavam marejados por trás das grossas lentes. Lentamente ele levantou a cabeça e me fuzilou com o olhar:
- Imbecil! Isso certamente custou uma pequena fortuna! Fortuna essa que deveria ter sido empregada num belo e romântico jantar com sua namorada!
- Também te amo, Velho! Que bom que você gostou!
O livro em questão era um exemplar da primeira edição de O Ser e o Nada de Jean Paul Sartre, escritor preferido do Velho e que de fato tinha me custado muitos meses de horas extras. Valeu à pena. Velho era escritor e já tinha algumas centenas de trabalhos publicados. Obras existencialistas e sobre realismo dialético. Havia se formado em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e por volta de 2007, já depois dos 30 anos de idade. Aos 35, fora convidado pelo governo francês a fazer um doutorado em Sorbonne, o que o obrigou a abandonar as escolas em que lecionava história e filosofia para o segundo grau. Foi assim que o conheci. Em uma branca sala de aula do Centro Educacional Anísio Teixeira, o ainda jovem professor entra em sala vestindo uma surrada calça jeans, tênis e uma camiseta com uma desbotada gravura de O Grito estampada no peito. Jogou sobre a mesa uma pasta de couro repleta de livros, textos e anotações que carregava a tira-colo. Olhou para a turma de aproximadamente 40 alunos e disparou:
- Bom dia, criaturas acéfalas! Sim! Acéfalas! Com o passar dos anos e com a minha tutela, os senhores se tornarão criaturas capazes de portar alguma coisa parecida com um cérebro dentro dessa cachola vazia que paira sobre seus pescoços! Sem mais delongas, quero que os senhores, por escrito, me entreguem seus nomes, idade, o último livro que leram e o livro que mais gostaram em todas as suas vazias vidas!
Os alunos se entreolhavam apavorados, cochichavam e murmuravam enquanto o Velho abriu a porta da sala, encostou-se ao batente e fumava um cigarro soltando a fumaça para fora da sala.
- Professor? O senhor vai fumar aqui? – perguntou um incauto aluno
- Vou não! Já estou fumando aqui! Algum problema?
- É que eu não suporto cheiro de cigarro...
- Ótimo! Fica sem respirar! Fiquem avisados, senhores: aqui dentro desta sala de aula não existe democracia! Exerçam a democracia em seus lares, no futebol de rua ou em qualquer outro lugar. Aqui dentro é uma ditadura comandada com mão de aço por este que vos fala!
Confesso que esse primeiro encontro foi um pouco traumatizante, mas no decorrer daquele ano, Velho foi mostrando quem ele realmente era: um pai pra muitos de nós e carrasco para outros tantos.
Certo dia, mais da metade da turma tinha matado aula para beber cerveja numa birosca perto do colégio. Velho deu sua aula para a metade presente (eu estava na metade da cervejada) e depois disso foi até a birosca. Entrou fingindo que não tinha nos visto, pediu duas cervejas, pegou um copo e sentou-se entre nós. Do meu lado, para ser preciso. Olhou um por um na roda, encheu seu copo passando as garrafas para que nos servíssemos, ergueu seu copo, brindamos e todo o conteúdo do copo foi sorvido em poucos segundos.
Fazia um calor rubro naquela tarde de julho. Velho conversava conosco e citava poetas, filósofos, falamos sobre música, cinema, literatura, artes. Seu discurso era sempre inflamado e apaixonado o que nos fazia prestar atenção naquele jovem velho que dizia odiar os modernistas e, principalmente, os pós-modernistas. Dizia que seu gosto musical começou em 1920 e parou no comecinho da década de 80 fazendo pouco caso e criticando todos os nossos ídolos. Numa análise mais profunda, acho até que ele se divertia com isso! No fim da tarde nos disse:
- Essa época que vocês estão vivendo é muito especial. Cultivem suas amizades, leiam MUITO e de tudo que passar por essas mãos, namorem e bebam com responsabilidade, tratem bem o outro, cuidem do nosso meio ambiente, sejam engajados em alguma causa que vocês acreditem piamente, tratem as mulheres com muito carinho e respeito. É nessa época da vida de vocês que seus valores, sua moral e sua ética estão se formando. Não desperdicem isso, não se tornem pessoas vazias e lembrem-se: a felicidade está na busca pelo seu sonho e não na realização do mesmo. - Velho pagou nossa conta e se foi cantarolando Ventura Highway. Fiquei observando o passo forte e decidido daquele homem que se tornaria meu ideal de vida.
Isso foi há muitos anos e nunca perdemos contato. Semana passada fui visitá-lo no hospital. Perecia que a velhice física o havia alcançado. Continuava rabugento como sempre mas de uma forma mais branda. Conversamos amenidades por cerca de uma hora até que Velho ficou cansado e me pediu para que eu fosse para casa.
Morrera ao longo daquela noite, foi o que a mocinha do hospital me contou pelo telefone. Ela me contou também que ele tinha deixado uma carta para mim. Corri até o hospital e ao entrar no seu quarto, vi a carta sobre a cama. Abri e li:
“Animal,
Não quis te contar mas sabia que não passaria da noite então, quando você se foi, escrevi essas linhas tortas não sabendo muito bem o por quê.
Quero que você seja o guardião de tudo que foi meu: meus livros, discos e escritos. Sei que estarão bem guardados com você.
Enquanto escrevo, lembrei-me de uma vez quando você me disse que queria ser igual a mim e que respondi em alto e bom som: ‘Impossível, Animal! Impossível!’
Saiba que continua achando impossível existir alguém igual a mim mas, rest assure que tu te tornaste uma pessoa melhor do que eu tenha sido em qualquer momento da minha existência.
Do pai que nunca fui para o filho que nunca tive!
Um forte abraço do
Velho”.
O que dizer dela?
pêlos ouriçados pela proximidade dele?
O que dizer dela, que ofega
e desfalece de olho aberto,
boca receptiva e
nua em pêlo?
O que dizer dele,
que com todos os defeitos-imperfeições dela,
é quem a recolhe nos braços,
cacos de dia,
e os remonta, um a um,
até ela ser outra,
nua em pêlo,
olho fechado, sono profundo.
O que dizer disso tudo,
que acontece a esmo,
dia sim outro também;
o que dizer dela?
3.3.04
Etc.
Quem virá com a nova brisa que penetra
Pelas frestas do meu ninho
Quem insiste em anunciar-se no desejo
Quem tanto não vejo ainda
Quem pessoa secreta
Vem, te chamo
Vem etc.
(Caetano Veloso)
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