Já não me vejo, não me tenho como antes,
A vida ganhou um papel muito grande.
Contorno teu contorno,
Sinto teu olhar de perto e por dentro
Corro risco de vida
E nem o medo me impede.
O sentimento humano
Nunca se solidificará
Nunca se sentirá concreto
Presencio tua ausência.
Solidifiquei-me em teu corpo,
Duramente sobrevivi em teu coração,
Bombeando-me, líquida,
Em breve destino...
Evaporei-me junto com teu silêncio.
E eis que me senti viva.
12.5.04
7.5.04
Dersú Usalá (atendento ao carinhosíssimo pedido de uma leitora, e porque não, amiga)
Uma vez eu comentei aqui que eu queria ser Akira Kurosawa. Acabei de descobrir que queria ser uma mistura do Kurosawa com Andrei Tarkowski. Mas isso não vem ao caso, pois estamos aqui para falar de Dersú Usalá, que é do Kurosawa.
O filme é uma produção russo-nipônica de 1975 que, não por acaso, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976. Vale ressaltar que o filme veio logo após uma fase de depressão de Kurosawa (dizem que por causa do fracasso no Japão de seu filme anterior – Dodesukaden – de 1970) que resultou numa tentativa de suicídio frustrada.
O filme conta a história (real, diga-se de passagem) da amizade do Capitão Vladmir Arseniev (Yuri Solomin), líder de uma expedição enviada à fronteira da Sibéria com a China a fim de realizar um levantamento topográfico da região, e Dersú Usalá (Maksim Munsuk), um caçador que vive da e na floresta daquela região.
Dito assim, o filme pode parecer desinteressante. Mas lembrem-se: é um Kurosawa! E como um bom Kurosawa, o filme apresenta movimentos sutis de câmera, longos planos, fotografia primorosa, profundidade de personagens e, conseqüentemente, das relações entre eles.
É interessante ver como o escárnio e a descrença da tropa em Dersú, se transforma em respeito e admiração pela simplicidade e conhecimento que carrega o pequenino velho de pernas arqueadas, olhar vivo e fala apressada.
Dersú Usalá é pura poesia em movimento. A integração do homem com a natureza e a amizade entre os dois protagonistas é retratada de forma magistral por aquele que este velho e alquebrado escriba, considera um dos cinco grandes diretores da história do cinema mundial.
Em uma nota mais intimista, gosto de acreditar que Kurosawa dirigiu e escreveu um filme tão tocante e tão bonito depois de ter descoberto (ou re-descoberto) a vida. Acho que a partir do momento que se viu vivo, escreveu uma história de aproximação dos homens. Não a aproximação que hoje chamamos de “globalização”. Mas a aproximação de uma pessoa da outra. Sem máscaras, nem fingimentos. Somente o respeito e admiração pelo próximo.
O filme é uma produção russo-nipônica de 1975 que, não por acaso, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976. Vale ressaltar que o filme veio logo após uma fase de depressão de Kurosawa (dizem que por causa do fracasso no Japão de seu filme anterior – Dodesukaden – de 1970) que resultou numa tentativa de suicídio frustrada.
O filme conta a história (real, diga-se de passagem) da amizade do Capitão Vladmir Arseniev (Yuri Solomin), líder de uma expedição enviada à fronteira da Sibéria com a China a fim de realizar um levantamento topográfico da região, e Dersú Usalá (Maksim Munsuk), um caçador que vive da e na floresta daquela região.
Dito assim, o filme pode parecer desinteressante. Mas lembrem-se: é um Kurosawa! E como um bom Kurosawa, o filme apresenta movimentos sutis de câmera, longos planos, fotografia primorosa, profundidade de personagens e, conseqüentemente, das relações entre eles.
É interessante ver como o escárnio e a descrença da tropa em Dersú, se transforma em respeito e admiração pela simplicidade e conhecimento que carrega o pequenino velho de pernas arqueadas, olhar vivo e fala apressada.
Dersú Usalá é pura poesia em movimento. A integração do homem com a natureza e a amizade entre os dois protagonistas é retratada de forma magistral por aquele que este velho e alquebrado escriba, considera um dos cinco grandes diretores da história do cinema mundial.
Em uma nota mais intimista, gosto de acreditar que Kurosawa dirigiu e escreveu um filme tão tocante e tão bonito depois de ter descoberto (ou re-descoberto) a vida. Acho que a partir do momento que se viu vivo, escreveu uma história de aproximação dos homens. Não a aproximação que hoje chamamos de “globalização”. Mas a aproximação de uma pessoa da outra. Sem máscaras, nem fingimentos. Somente o respeito e admiração pelo próximo.
4.5.04
Fotas
Pra quem não viu as fotas publicadas aqui, clica aqui e vê lá!
Retiro
Meu tempo às vezes se perde
Em coisas que não desejo
Mas não repare esse lado
Pois meu amor é o mesmo
Nos momentos de carinho
Eu me desligo de tudo
Nos braços de quem se ama
É fácil esquecer o mudo
Às vezes eu me retiro
E nada me faz sentido
Só há um canto na vida
Aonde eu me refugio
Afasta as sombras que eu vejo
Nos teus olhos tão aflitos
Você conhece minh’alma
E quando quer me visita
(Paulinho da Viola)
Retiro
Meu tempo às vezes se perde
Em coisas que não desejo
Mas não repare esse lado
Pois meu amor é o mesmo
Nos momentos de carinho
Eu me desligo de tudo
Nos braços de quem se ama
É fácil esquecer o mudo
Às vezes eu me retiro
E nada me faz sentido
Só há um canto na vida
Aonde eu me refugio
Afasta as sombras que eu vejo
Nos teus olhos tão aflitos
Você conhece minh’alma
E quando quer me visita
(Paulinho da Viola)
2.5.04
25.4.04
Recuperação
A tentativa de suicídio do Descobri foi evitada graças ao carinho de alguns amigos. O corpo do blog foi encontrado ainda com vida deitado ao lado de um frasco de aspirinas infantis com formato de bichinhos.
Depois de levado para o pronto-socorro, o blog agora está em fase de desintoxicação e recuperação podendo ter alta já nessa semana.
Uma vez recuperado, haverá um coquetel de reestréia a acontecer no dia 03 de maio do corrente ano. Todos estão convidados.
A festa será regada a Cidra Cereser, "cocrete" e quantidas estúpidas de cajuzinho. Querendo evitar que bolsos de paletós e bolsas se encharquem com a gordura e o açucar dos víveres oferecidos, um saco plástico será distribuído na entrada para que os convidados possam levar para casa um pouco da festa.
Alguns contratos já foram fechados: Falcão será o Mestre de Cerimônias e Rosana fará uma participação especialíssima cantando "Como uma Deusa" (tentei contratar a Joanna, mas ela já tinha compromisso). Após o show, o D.J Meciê Limá comandará as carrapetas com o melhor da Retrospectiva Furacão 2000.
Aguardo todos aqui no dia 03 de maio.
Um beijo no gato e um chute nas crianças!!
Depois de levado para o pronto-socorro, o blog agora está em fase de desintoxicação e recuperação podendo ter alta já nessa semana.
Uma vez recuperado, haverá um coquetel de reestréia a acontecer no dia 03 de maio do corrente ano. Todos estão convidados.
A festa será regada a Cidra Cereser, "cocrete" e quantidas estúpidas de cajuzinho. Querendo evitar que bolsos de paletós e bolsas se encharquem com a gordura e o açucar dos víveres oferecidos, um saco plástico será distribuído na entrada para que os convidados possam levar para casa um pouco da festa.
Alguns contratos já foram fechados: Falcão será o Mestre de Cerimônias e Rosana fará uma participação especialíssima cantando "Como uma Deusa" (tentei contratar a Joanna, mas ela já tinha compromisso). Após o show, o D.J Meciê Limá comandará as carrapetas com o melhor da Retrospectiva Furacão 2000.
Aguardo todos aqui no dia 03 de maio.
Um beijo no gato e um chute nas crianças!!
19.4.04
Carta de Suicídio
Seguinte: não faz mais sentido ficar enganando vocês. Há tempos que eu não consigo escrever nada de razoável para colocar aqui. Minha vida está uma bagunça fenomenal e como a grande maioria das pessoas, meus textos refletem coisas da minha vida e não dá para escrever bagunça e sofrimento. Preciso de um tempo para me reerguer.
Tenho andado muito cansado de mim mesmo. As mesma dores, as mesmas desilusões, a mesma falta de perspectiva, coração repleto e a vida vazia.
Conheci gente muito boa nesse quase um ano de Descobri. Gente que me acompanhou desde o começo e até desde antes do começo quando eu escrevia o Mago. Gente que me ajudou a escrever melhor (se é que isso é possível) e a ver os meus textos por um outro prisma.
Foi ótimo tê-los aqui compartilhando, xingando, rindo, brincando, chorando. Foi fantástico saber que até gente de outros países acompanhavam minhas aventuras e desventuras. Gente de Portugal, Estados Unidos, Uruguai, Japão e de um país chamado “Unknown” (hehehe) que representa 1,6% das visitas.
Bom... é isso aí. “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço”.
Ainda apareço pra deixar meus impertinentes comentários nos blogs alheios. Fiquem bem e lembrem-se dos meus sábios ensinamentos: rapadura é doce, mas não é mole não!
Beijos enormes e abraços apertados,
Marcio
Tenho andado muito cansado de mim mesmo. As mesma dores, as mesmas desilusões, a mesma falta de perspectiva, coração repleto e a vida vazia.
Conheci gente muito boa nesse quase um ano de Descobri. Gente que me acompanhou desde o começo e até desde antes do começo quando eu escrevia o Mago. Gente que me ajudou a escrever melhor (se é que isso é possível) e a ver os meus textos por um outro prisma.
Foi ótimo tê-los aqui compartilhando, xingando, rindo, brincando, chorando. Foi fantástico saber que até gente de outros países acompanhavam minhas aventuras e desventuras. Gente de Portugal, Estados Unidos, Uruguai, Japão e de um país chamado “Unknown” (hehehe) que representa 1,6% das visitas.
Bom... é isso aí. “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço”.
Ainda apareço pra deixar meus impertinentes comentários nos blogs alheios. Fiquem bem e lembrem-se dos meus sábios ensinamentos: rapadura é doce, mas não é mole não!
Beijos enormes e abraços apertados,
Marcio
13.4.04
10.4.04
The Beauty of All Things
There is something within you.
There is something in everything that is:
Unbelievable beauty, flowing from deep inside.
Don't be shocked or surprised if I lift your disguise.
Realize
that I can see it in all things, all,
but especially you.
There is something we carry,
Like a rhythm that tells us who we are.
It's the rhythm of living. Hear, and we'll come to see
who we can really be-fore Time erases time.
It's sublime.
And I can see it in all things, all, but especially you.
The time is upon us to lose our indifference.
For Time isn't holding us anywhere. I declare:
Life gives savoir faire.
Clean the windows of your inner star
And see things as they are:
An infinity of light like a torch in the night.
For the Sun and the Moon and the Stars
Are living within you.
You are shining in everything that is.
Here's what I see in your eyes right now:
Ten thousand lives over many years like leaves on the vine of this morning's glory,
The determination of years coming to fruition
In the ever-present now of your life, unfolding now in the flowering of days.
The constellation of stars in the sky are like a fugue of light in velvet hands.
The melody never ends, echoing again and again.
Nearer still sounds a melody leading through darkened rooms,
Playing like the Sun on the water; like its reflection in your downcast eyes.
When will you come to see you like I do?
And know you like I do? And hear you like I do?
And love you like I do?
(Laurence Hobgood/Kurt Elling)
There is something in everything that is:
Unbelievable beauty, flowing from deep inside.
Don't be shocked or surprised if I lift your disguise.
Realize
that I can see it in all things, all,
but especially you.
There is something we carry,
Like a rhythm that tells us who we are.
It's the rhythm of living. Hear, and we'll come to see
who we can really be-fore Time erases time.
It's sublime.
And I can see it in all things, all, but especially you.
The time is upon us to lose our indifference.
For Time isn't holding us anywhere. I declare:
Life gives savoir faire.
Clean the windows of your inner star
And see things as they are:
An infinity of light like a torch in the night.
For the Sun and the Moon and the Stars
Are living within you.
You are shining in everything that is.
Here's what I see in your eyes right now:
Ten thousand lives over many years like leaves on the vine of this morning's glory,
The determination of years coming to fruition
In the ever-present now of your life, unfolding now in the flowering of days.
The constellation of stars in the sky are like a fugue of light in velvet hands.
The melody never ends, echoing again and again.
Nearer still sounds a melody leading through darkened rooms,
Playing like the Sun on the water; like its reflection in your downcast eyes.
When will you come to see you like I do?
And know you like I do? And hear you like I do?
And love you like I do?
(Laurence Hobgood/Kurt Elling)
6.4.04
27.3.04
Rosa
Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus Esculturada E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
És todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção de tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer.
(Pixinhguinha/Otávio de Souza)
Estátua majestosa do amor
Por Deus Esculturada E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
És todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção de tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer.
(Pixinhguinha/Otávio de Souza)
22.3.04
A Santa Sexta-Feira e o Show do Jethro Tull
Passava um pouco da 19:30 de sexta a noite. Eu estava sentado ao computador esperando uma pessoa aparecer no MSN quando meu telefone toca. Era Pedro – meu fiel escudeiro.
- Preguinho, quer ir no show do Jethro?
- Pô neguinho, to duro feito côco!
- Caralho! Eu perguntei se você quer ir ao show e não se você tem dinheiro!
- Claro que eu quero, porra!
- Daqui a vinte minutos eu te ligo!
Sento-me ao computador mais uma vez para esperar. O telefone toca de novo. De novo era Pedro – meu fiel escudeiro – cantando no meu ouvido:
- “Sitting on a park bench”
- Vai rolar?
- Vai! Lá pelas dez e pouco a gente passa aí!
Dilema... Eu precisava muito, mas muito mesmo falar com a pessoa que eu estava esperando e nunca tinha visto um show do Jethro! O que fazer, meu pai?
Eis que a pessoa que eu estava procurando aparece. Contei meu dilema e ela, adoradora de Jethro também, me manda ir ao show. Tínhamos perto de duas horas para conversar e foi o que fizemos. O que foi dito? Só a gente sabe! Mas as coisas se resolveram da melhor maneira possível! A hora fatal chegou. Nos despedimos, passei pela geladeira pra pegar cerveja para o povo que estava chegando. Desci, entrei no carro e nos dirigimos para a Barra da Tijuca – o cu do Rio de Janeiro.
Ano de eleições para a prefeitura dos estados da confederação é uma merda! Na esquina da Jardim Botânico com Pacheco Leão, as obras permitiam que somente um carro por vez passasse. Tanto de um lado como do outro. O show começava as 22:30 e as 22:15 estávamos presos na rua Jardim Botânico. Alguém aí sabe o que é o transito normal da rua Jardim Botânico? Agora imagina quando só passa um carro de cada vez. Imaginou? Agora some-se a isso a nossa angústia pra chegar logo na casa de shows do Rio que mais mudou de nome (qual é o nome mesmo?).
Felizmente, ao passarmos pela rua Pacheco Leão, o trânsito melhorou e em poucos porém angustiantes minutos, chegamos ao Via Parque. Adentramos o estacionamento do shopping e... quem foi que disse que tinha vaga? Rodamos, rodamos, rodamos e estacionamos perto de um jardinzinho. Comentei:
- Foi impressão minha ou tinha uma fila enorme de gente na porta?
- Deve ser gente saindo do shopping e pagando estacionamento...
Claro que não! Era fila mesmo! Comentei:
- Bom... com esse monte de gente do lado de fora, o show não deve nem ter começado ainda! – Um carinha que estava na nossa frente vira-se para trás e, com toda a propriedade nos informa:
- O show já tá rolando há uns quarenta minutos!
Depois de superados todos os percalços, entramos no “não-sei-das-quantas” Hall e, como fora anunciado pelo arauto da desgraça anteriormente, o show já tinha de fato começado. Fomos nos embrenhando naquele mar de gente tentando achar um lugar que desse pra ver o palco. NOTA: nunca vi um show de Rock and Roll onde, na frente do palco ficam várias mesas e o povo roqueiro mesmo, se espremendo lááááá trás! Nunca vi isso na minha vida!
Bom, estávamos lá, o show estava rolando, a cerveja era Brahma (eca!) e custava cinco dinheiros. O garçons quase morreu de rir comigo:
- Quanto é a cerveja, irmão?
- Cinco dineiros!
- Uma só?
- Uma só!
- Putamerda! E é Brahma ainda por cima?? Bom... já que não tem tu, vai tu mesmo!
Nesse momento, Ian Anderson pára para conversar com a platéia e eu dou um berro histérico:
- SONGS FROM THE WOODS!!!
Não é que ela atacou de Songs from the Woods?
O show foi ótimo! Nota 10!! A organização do evento... nota 0!
Mas o que importa mesmoé que, durante todo o show, eu só pensava naquela pessoa. E dancei! Pra quem me conhece sabe que isso é raaaaro... Mas lá estava eu. Dançando! E só dançava porque pensava naquela pessoa e no quanto ela gosta de dançar!
Que foi? Tô feliz, oras!
- Preguinho, quer ir no show do Jethro?
- Pô neguinho, to duro feito côco!
- Caralho! Eu perguntei se você quer ir ao show e não se você tem dinheiro!
- Claro que eu quero, porra!
- Daqui a vinte minutos eu te ligo!
Sento-me ao computador mais uma vez para esperar. O telefone toca de novo. De novo era Pedro – meu fiel escudeiro – cantando no meu ouvido:
- “Sitting on a park bench”
- Vai rolar?
- Vai! Lá pelas dez e pouco a gente passa aí!
Dilema... Eu precisava muito, mas muito mesmo falar com a pessoa que eu estava esperando e nunca tinha visto um show do Jethro! O que fazer, meu pai?
Eis que a pessoa que eu estava procurando aparece. Contei meu dilema e ela, adoradora de Jethro também, me manda ir ao show. Tínhamos perto de duas horas para conversar e foi o que fizemos. O que foi dito? Só a gente sabe! Mas as coisas se resolveram da melhor maneira possível! A hora fatal chegou. Nos despedimos, passei pela geladeira pra pegar cerveja para o povo que estava chegando. Desci, entrei no carro e nos dirigimos para a Barra da Tijuca – o cu do Rio de Janeiro.
Ano de eleições para a prefeitura dos estados da confederação é uma merda! Na esquina da Jardim Botânico com Pacheco Leão, as obras permitiam que somente um carro por vez passasse. Tanto de um lado como do outro. O show começava as 22:30 e as 22:15 estávamos presos na rua Jardim Botânico. Alguém aí sabe o que é o transito normal da rua Jardim Botânico? Agora imagina quando só passa um carro de cada vez. Imaginou? Agora some-se a isso a nossa angústia pra chegar logo na casa de shows do Rio que mais mudou de nome (qual é o nome mesmo?).
Felizmente, ao passarmos pela rua Pacheco Leão, o trânsito melhorou e em poucos porém angustiantes minutos, chegamos ao Via Parque. Adentramos o estacionamento do shopping e... quem foi que disse que tinha vaga? Rodamos, rodamos, rodamos e estacionamos perto de um jardinzinho. Comentei:
- Foi impressão minha ou tinha uma fila enorme de gente na porta?
- Deve ser gente saindo do shopping e pagando estacionamento...
Claro que não! Era fila mesmo! Comentei:
- Bom... com esse monte de gente do lado de fora, o show não deve nem ter começado ainda! – Um carinha que estava na nossa frente vira-se para trás e, com toda a propriedade nos informa:
- O show já tá rolando há uns quarenta minutos!
Depois de superados todos os percalços, entramos no “não-sei-das-quantas” Hall e, como fora anunciado pelo arauto da desgraça anteriormente, o show já tinha de fato começado. Fomos nos embrenhando naquele mar de gente tentando achar um lugar que desse pra ver o palco. NOTA: nunca vi um show de Rock and Roll onde, na frente do palco ficam várias mesas e o povo roqueiro mesmo, se espremendo lááááá trás! Nunca vi isso na minha vida!
Bom, estávamos lá, o show estava rolando, a cerveja era Brahma (eca!) e custava cinco dinheiros. O garçons quase morreu de rir comigo:
- Quanto é a cerveja, irmão?
- Cinco dineiros!
- Uma só?
- Uma só!
- Putamerda! E é Brahma ainda por cima?? Bom... já que não tem tu, vai tu mesmo!
Nesse momento, Ian Anderson pára para conversar com a platéia e eu dou um berro histérico:
- SONGS FROM THE WOODS!!!
Não é que ela atacou de Songs from the Woods?
O show foi ótimo! Nota 10!! A organização do evento... nota 0!
Mas o que importa mesmoé que, durante todo o show, eu só pensava naquela pessoa. E dancei! Pra quem me conhece sabe que isso é raaaaro... Mas lá estava eu. Dançando! E só dançava porque pensava naquela pessoa e no quanto ela gosta de dançar!
Que foi? Tô feliz, oras!
17.3.04
Basta um Dia
Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
(Chico Buarque)
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia
(Chico Buarque)
12.3.04
Pedaço de Mim
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
(Chico Buarque)
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
(Chico Buarque)
10.3.04
Velho
- Abre! É pra você!
- Não imaginei que fosse pra sua mãe!
O velho, sentado em sua poltrona, admirava estático o cuidadoso embrulho feito pela moça da livraria. As mãos trêmulas pelos anos de tabagismo e intimidade com a garrafa começaram a desfazer o laço.
- Ah! Você é desses? – Perguntei me divertindo.
- Desses?
- É! Desses que desfazem o laço e vão abrindo o embrulho cheio de cuidados! Se você soubesse a agonia que isso causa em quem te dá o presente...
- Já fui moço e tive pressa! As coisas hoje me parecem mais divertidas quando feitas vagarosamente.
Velho. Era assim que eu o chamava. Coisa nossa. Na verdade, ele já era velho de espírito antes de sê-lo de fato. Lembro de quando perguntei sua idade e ele, rabugento como sempre, respondeu:
- Dez anos a mais que meu corpo!
Comecei a acreditar que ele jamais abriria o maldito embrulho e sabia que ele o abria devagar só pra me irritar. Passei a ter certeza disso quando reparei que ele colocara o livro a frente do rosto e me espiava por cima do mesmo fazendo força para não rir da minha angústia. Depois de mais alguns agoniantes instantes, o papel de embrulho enfeitado com vários Garfields caiu ao chão e um silêncio denso pairou sobre a sala. Pude ver que os grandes olhos verdes do Velho estavam marejados por trás das grossas lentes. Lentamente ele levantou a cabeça e me fuzilou com o olhar:
- Imbecil! Isso certamente custou uma pequena fortuna! Fortuna essa que deveria ter sido empregada num belo e romântico jantar com sua namorada!
- Também te amo, Velho! Que bom que você gostou!
O livro em questão era um exemplar da primeira edição de O Ser e o Nada de Jean Paul Sartre, escritor preferido do Velho e que de fato tinha me custado muitos meses de horas extras. Valeu à pena. Velho era escritor e já tinha algumas centenas de trabalhos publicados. Obras existencialistas e sobre realismo dialético. Havia se formado em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e por volta de 2007, já depois dos 30 anos de idade. Aos 35, fora convidado pelo governo francês a fazer um doutorado em Sorbonne, o que o obrigou a abandonar as escolas em que lecionava história e filosofia para o segundo grau. Foi assim que o conheci. Em uma branca sala de aula do Centro Educacional Anísio Teixeira, o ainda jovem professor entra em sala vestindo uma surrada calça jeans, tênis e uma camiseta com uma desbotada gravura de O Grito estampada no peito. Jogou sobre a mesa uma pasta de couro repleta de livros, textos e anotações que carregava a tira-colo. Olhou para a turma de aproximadamente 40 alunos e disparou:
- Bom dia, criaturas acéfalas! Sim! Acéfalas! Com o passar dos anos e com a minha tutela, os senhores se tornarão criaturas capazes de portar alguma coisa parecida com um cérebro dentro dessa cachola vazia que paira sobre seus pescoços! Sem mais delongas, quero que os senhores, por escrito, me entreguem seus nomes, idade, o último livro que leram e o livro que mais gostaram em todas as suas vazias vidas!
Os alunos se entreolhavam apavorados, cochichavam e murmuravam enquanto o Velho abriu a porta da sala, encostou-se ao batente e fumava um cigarro soltando a fumaça para fora da sala.
- Professor? O senhor vai fumar aqui? – perguntou um incauto aluno
- Vou não! Já estou fumando aqui! Algum problema?
- É que eu não suporto cheiro de cigarro...
- Ótimo! Fica sem respirar! Fiquem avisados, senhores: aqui dentro desta sala de aula não existe democracia! Exerçam a democracia em seus lares, no futebol de rua ou em qualquer outro lugar. Aqui dentro é uma ditadura comandada com mão de aço por este que vos fala!
Confesso que esse primeiro encontro foi um pouco traumatizante, mas no decorrer daquele ano, Velho foi mostrando quem ele realmente era: um pai pra muitos de nós e carrasco para outros tantos.
Certo dia, mais da metade da turma tinha matado aula para beber cerveja numa birosca perto do colégio. Velho deu sua aula para a metade presente (eu estava na metade da cervejada) e depois disso foi até a birosca. Entrou fingindo que não tinha nos visto, pediu duas cervejas, pegou um copo e sentou-se entre nós. Do meu lado, para ser preciso. Olhou um por um na roda, encheu seu copo passando as garrafas para que nos servíssemos, ergueu seu copo, brindamos e todo o conteúdo do copo foi sorvido em poucos segundos.
Fazia um calor rubro naquela tarde de julho. Velho conversava conosco e citava poetas, filósofos, falamos sobre música, cinema, literatura, artes. Seu discurso era sempre inflamado e apaixonado o que nos fazia prestar atenção naquele jovem velho que dizia odiar os modernistas e, principalmente, os pós-modernistas. Dizia que seu gosto musical começou em 1920 e parou no comecinho da década de 80 fazendo pouco caso e criticando todos os nossos ídolos. Numa análise mais profunda, acho até que ele se divertia com isso! No fim da tarde nos disse:
- Essa época que vocês estão vivendo é muito especial. Cultivem suas amizades, leiam MUITO e de tudo que passar por essas mãos, namorem e bebam com responsabilidade, tratem bem o outro, cuidem do nosso meio ambiente, sejam engajados em alguma causa que vocês acreditem piamente, tratem as mulheres com muito carinho e respeito. É nessa época da vida de vocês que seus valores, sua moral e sua ética estão se formando. Não desperdicem isso, não se tornem pessoas vazias e lembrem-se: a felicidade está na busca pelo seu sonho e não na realização do mesmo. - Velho pagou nossa conta e se foi cantarolando Ventura Highway. Fiquei observando o passo forte e decidido daquele homem que se tornaria meu ideal de vida.
Isso foi há muitos anos e nunca perdemos contato. Semana passada fui visitá-lo no hospital. Perecia que a velhice física o havia alcançado. Continuava rabugento como sempre mas de uma forma mais branda. Conversamos amenidades por cerca de uma hora até que Velho ficou cansado e me pediu para que eu fosse para casa.
Morrera ao longo daquela noite, foi o que a mocinha do hospital me contou pelo telefone. Ela me contou também que ele tinha deixado uma carta para mim. Corri até o hospital e ao entrar no seu quarto, vi a carta sobre a cama. Abri e li:
“Animal,
Não quis te contar mas sabia que não passaria da noite então, quando você se foi, escrevi essas linhas tortas não sabendo muito bem o por quê.
Quero que você seja o guardião de tudo que foi meu: meus livros, discos e escritos. Sei que estarão bem guardados com você.
Enquanto escrevo, lembrei-me de uma vez quando você me disse que queria ser igual a mim e que respondi em alto e bom som: ‘Impossível, Animal! Impossível!’
Saiba que continua achando impossível existir alguém igual a mim mas, rest assure que tu te tornaste uma pessoa melhor do que eu tenha sido em qualquer momento da minha existência.
Do pai que nunca fui para o filho que nunca tive!
Um forte abraço do
Velho”.
- Não imaginei que fosse pra sua mãe!
O velho, sentado em sua poltrona, admirava estático o cuidadoso embrulho feito pela moça da livraria. As mãos trêmulas pelos anos de tabagismo e intimidade com a garrafa começaram a desfazer o laço.
- Ah! Você é desses? – Perguntei me divertindo.
- Desses?
- É! Desses que desfazem o laço e vão abrindo o embrulho cheio de cuidados! Se você soubesse a agonia que isso causa em quem te dá o presente...
- Já fui moço e tive pressa! As coisas hoje me parecem mais divertidas quando feitas vagarosamente.
Velho. Era assim que eu o chamava. Coisa nossa. Na verdade, ele já era velho de espírito antes de sê-lo de fato. Lembro de quando perguntei sua idade e ele, rabugento como sempre, respondeu:
- Dez anos a mais que meu corpo!
Comecei a acreditar que ele jamais abriria o maldito embrulho e sabia que ele o abria devagar só pra me irritar. Passei a ter certeza disso quando reparei que ele colocara o livro a frente do rosto e me espiava por cima do mesmo fazendo força para não rir da minha angústia. Depois de mais alguns agoniantes instantes, o papel de embrulho enfeitado com vários Garfields caiu ao chão e um silêncio denso pairou sobre a sala. Pude ver que os grandes olhos verdes do Velho estavam marejados por trás das grossas lentes. Lentamente ele levantou a cabeça e me fuzilou com o olhar:
- Imbecil! Isso certamente custou uma pequena fortuna! Fortuna essa que deveria ter sido empregada num belo e romântico jantar com sua namorada!
- Também te amo, Velho! Que bom que você gostou!
O livro em questão era um exemplar da primeira edição de O Ser e o Nada de Jean Paul Sartre, escritor preferido do Velho e que de fato tinha me custado muitos meses de horas extras. Valeu à pena. Velho era escritor e já tinha algumas centenas de trabalhos publicados. Obras existencialistas e sobre realismo dialético. Havia se formado em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e por volta de 2007, já depois dos 30 anos de idade. Aos 35, fora convidado pelo governo francês a fazer um doutorado em Sorbonne, o que o obrigou a abandonar as escolas em que lecionava história e filosofia para o segundo grau. Foi assim que o conheci. Em uma branca sala de aula do Centro Educacional Anísio Teixeira, o ainda jovem professor entra em sala vestindo uma surrada calça jeans, tênis e uma camiseta com uma desbotada gravura de O Grito estampada no peito. Jogou sobre a mesa uma pasta de couro repleta de livros, textos e anotações que carregava a tira-colo. Olhou para a turma de aproximadamente 40 alunos e disparou:
- Bom dia, criaturas acéfalas! Sim! Acéfalas! Com o passar dos anos e com a minha tutela, os senhores se tornarão criaturas capazes de portar alguma coisa parecida com um cérebro dentro dessa cachola vazia que paira sobre seus pescoços! Sem mais delongas, quero que os senhores, por escrito, me entreguem seus nomes, idade, o último livro que leram e o livro que mais gostaram em todas as suas vazias vidas!
Os alunos se entreolhavam apavorados, cochichavam e murmuravam enquanto o Velho abriu a porta da sala, encostou-se ao batente e fumava um cigarro soltando a fumaça para fora da sala.
- Professor? O senhor vai fumar aqui? – perguntou um incauto aluno
- Vou não! Já estou fumando aqui! Algum problema?
- É que eu não suporto cheiro de cigarro...
- Ótimo! Fica sem respirar! Fiquem avisados, senhores: aqui dentro desta sala de aula não existe democracia! Exerçam a democracia em seus lares, no futebol de rua ou em qualquer outro lugar. Aqui dentro é uma ditadura comandada com mão de aço por este que vos fala!
Confesso que esse primeiro encontro foi um pouco traumatizante, mas no decorrer daquele ano, Velho foi mostrando quem ele realmente era: um pai pra muitos de nós e carrasco para outros tantos.
Certo dia, mais da metade da turma tinha matado aula para beber cerveja numa birosca perto do colégio. Velho deu sua aula para a metade presente (eu estava na metade da cervejada) e depois disso foi até a birosca. Entrou fingindo que não tinha nos visto, pediu duas cervejas, pegou um copo e sentou-se entre nós. Do meu lado, para ser preciso. Olhou um por um na roda, encheu seu copo passando as garrafas para que nos servíssemos, ergueu seu copo, brindamos e todo o conteúdo do copo foi sorvido em poucos segundos.
Fazia um calor rubro naquela tarde de julho. Velho conversava conosco e citava poetas, filósofos, falamos sobre música, cinema, literatura, artes. Seu discurso era sempre inflamado e apaixonado o que nos fazia prestar atenção naquele jovem velho que dizia odiar os modernistas e, principalmente, os pós-modernistas. Dizia que seu gosto musical começou em 1920 e parou no comecinho da década de 80 fazendo pouco caso e criticando todos os nossos ídolos. Numa análise mais profunda, acho até que ele se divertia com isso! No fim da tarde nos disse:
- Essa época que vocês estão vivendo é muito especial. Cultivem suas amizades, leiam MUITO e de tudo que passar por essas mãos, namorem e bebam com responsabilidade, tratem bem o outro, cuidem do nosso meio ambiente, sejam engajados em alguma causa que vocês acreditem piamente, tratem as mulheres com muito carinho e respeito. É nessa época da vida de vocês que seus valores, sua moral e sua ética estão se formando. Não desperdicem isso, não se tornem pessoas vazias e lembrem-se: a felicidade está na busca pelo seu sonho e não na realização do mesmo. - Velho pagou nossa conta e se foi cantarolando Ventura Highway. Fiquei observando o passo forte e decidido daquele homem que se tornaria meu ideal de vida.
Isso foi há muitos anos e nunca perdemos contato. Semana passada fui visitá-lo no hospital. Perecia que a velhice física o havia alcançado. Continuava rabugento como sempre mas de uma forma mais branda. Conversamos amenidades por cerca de uma hora até que Velho ficou cansado e me pediu para que eu fosse para casa.
Morrera ao longo daquela noite, foi o que a mocinha do hospital me contou pelo telefone. Ela me contou também que ele tinha deixado uma carta para mim. Corri até o hospital e ao entrar no seu quarto, vi a carta sobre a cama. Abri e li:
“Animal,
Não quis te contar mas sabia que não passaria da noite então, quando você se foi, escrevi essas linhas tortas não sabendo muito bem o por quê.
Quero que você seja o guardião de tudo que foi meu: meus livros, discos e escritos. Sei que estarão bem guardados com você.
Enquanto escrevo, lembrei-me de uma vez quando você me disse que queria ser igual a mim e que respondi em alto e bom som: ‘Impossível, Animal! Impossível!’
Saiba que continua achando impossível existir alguém igual a mim mas, rest assure que tu te tornaste uma pessoa melhor do que eu tenha sido em qualquer momento da minha existência.
Do pai que nunca fui para o filho que nunca tive!
Um forte abraço do
Velho”.
O que dizer dela?
E o que dizer dela, nua em pêlo,
pêlos ouriçados pela proximidade dele?
O que dizer dela, que ofega
e desfalece de olho aberto,
boca receptiva e
nua em pêlo?
O que dizer dele,
que com todos os defeitos-imperfeições dela,
é quem a recolhe nos braços,
cacos de dia,
e os remonta, um a um,
até ela ser outra,
nua em pêlo,
olho fechado, sono profundo.
O que dizer disso tudo,
que acontece a esmo,
dia sim outro também;
o que dizer dela?
pêlos ouriçados pela proximidade dele?
O que dizer dela, que ofega
e desfalece de olho aberto,
boca receptiva e
nua em pêlo?
O que dizer dele,
que com todos os defeitos-imperfeições dela,
é quem a recolhe nos braços,
cacos de dia,
e os remonta, um a um,
até ela ser outra,
nua em pêlo,
olho fechado, sono profundo.
O que dizer disso tudo,
que acontece a esmo,
dia sim outro também;
o que dizer dela?
3.3.04
Etc.
Estou sozinho, estou triste etc.
Quem virá com a nova brisa que penetra
Pelas frestas do meu ninho
Quem insiste em anunciar-se no desejo
Quem tanto não vejo ainda
Quem pessoa secreta
Vem, te chamo
Vem etc.
(Caetano Veloso)
Quem virá com a nova brisa que penetra
Pelas frestas do meu ninho
Quem insiste em anunciar-se no desejo
Quem tanto não vejo ainda
Quem pessoa secreta
Vem, te chamo
Vem etc.
(Caetano Veloso)
27.2.04
Memórias
Fazia frio e chovia uma chuvinha fina naquele dia de inverno. Passava um pouco das oito da manhã; o homem de terno e gravata dentro da TV narrava as notícias em tom dramático, a chaleira apitava sobre o fogão, os gatos se enrodilhavam em suas pernas pedindo comida e no aparelho de som, George Winston tocava “Rain”.
Não pensava em nada. Olhava os pingos de chuva se transformarem em flocos de neve e dançarem até o batente das janelas. Se esforçava, mas não conseguia lembrar de nada. Era quase um zumbi: não comia, mal dormia e tentava lembrar da época em que estava vivo. “Se estar vivo é sentir, então nunca estive vivo. Ao menos, não consigo me lembrar...”.
Acendeu um cigarro e sentou-se junto à janela observando o pequeno montinho de neve sobre o parapeito. O fogo da lareira crepitava e o cheiro de café se espalhava lentamente como um fog inglês. Um frio cinza tomava conta do alto apartamento de onde se via grande parte da cidade espalhando-se em blocos idênticos, que continham casa idênticas, que continham gente identicamente contente com a segurança de uma família e um lar. Não lembrava de nada.
Um dos gatos se empoleirou no alto da estante e deitava como a esfinge enquanto o outro, num canto do sofá, dormia tranqüilamente. O telefone tocou, mas resolveu deixar a máquina atender. Do outro lado, uma voz mais do que familiar:
- Marcio, aqui é sua mãe! Eu sei que você está em casa bebendo café com vodka e fumando um cigarro atrás do outro! – fez uma pausa longa. “Desistiu”. – Meu filho, você não pode se isolar do mundo! O mundo não se resume à sua casa, cara! Há quanto tempo você não escreve? Há quanto tempo você vem dizendo que não consegue criar? Me liga quando quiser...., e logo! Um beijo!
“Não sou só. Sou livre. Me libertei de tudo que me prendia, me angustiava. Disse não! Liberdade é poder dizer não!”. Acendeu outro cigarro, recostou-se no sofá e cochilou. Seus sonhos eram agitados e em preto e branco. Sempre sonhava colorido, mas dessa vez tudo estava em tons de cinza. Imagens obscuras se fundiam às sombras, pessoas se escondiam no escuro, todos fugiam exceto por um par de olhos que o seguia. Olhava por cima dos ombros tentando ver um rosto, mas não via nada mais do que um par de olhos.
Acordou num salto com o toco do cigarro queimando seus dedos. Derrubou o cinzeiro que se espatifou no carpete espalhando cinzas e tocos de cigarro. Correu até seu quarto e ao passar por um espelho, não se reconheceu. O rosto envelhecido, a barba grande, os quilos acumulados na cintura. Não era mais a imagem que tinha de si.
Ao entrar no quarto avistou os jeans jogados sobre a escrivaninha, era o que precisava. Agarrou os jeans, correu na direção da porta de saída agarrando os sapatos e o sobretudo no caminho. Chamou o elevador e vestia suas roupas enquanto esperava. Tinha se lembrado onde vira aqueles olhos. Onde os tinha visto? Quando? Não lembrava.
Lembrou-se de uma cidade que era fronteiriça e era para lá que dirigia o carro. Seu coração batia como se fosse explodir dentro do peito. Não se lembrava de endereço ou telefone. “Louco! Louco! Se diz livre mas entregou-se a todos os charmes da burguesia para que se sentisse livre! Ridículo! Você é ridículo!!”. Sua mente vociferava, tinha um nó no estômago e as pernas formigavam. Ao chegar a duas quadras de onde acreditava ser o que procurava, largou o carro no meio da rua e corria sob a chuva que agora caia torrencialmente. Corria e não sabia se gritava ou se tinha a boca aberta num grito mudo. Sabia que corria. Escutava seus passos no chão, tropeçava em montes de neve fofa, mas continuava a correr.
Chegou a um prédio de três andares, parou em frente e gritou. A mulher sentada junto à janela do último andar ouviu. Não podia acreditar naquilo e correu escadaria abaixo. Abriu o portão e os dois se viram. “Esses são os olhos”. Caminharam lentamente um na direção do outro. Ele tentou secar o rosto com a palma da mão. Queria saber se aquilo era real. Lembrou-se de tudo! Dela. Da vida, das conversas ao telefone. Ela parou. Ele caminho até ela e disse:
- Preciso de você! Preciso viver e acho que só vou viver quando estiver com você!
Ela andou até ele, o abraçou e disse:
- Shhh... Vai ficar tudo bem!
Não pensava em nada. Olhava os pingos de chuva se transformarem em flocos de neve e dançarem até o batente das janelas. Se esforçava, mas não conseguia lembrar de nada. Era quase um zumbi: não comia, mal dormia e tentava lembrar da época em que estava vivo. “Se estar vivo é sentir, então nunca estive vivo. Ao menos, não consigo me lembrar...”.
Acendeu um cigarro e sentou-se junto à janela observando o pequeno montinho de neve sobre o parapeito. O fogo da lareira crepitava e o cheiro de café se espalhava lentamente como um fog inglês. Um frio cinza tomava conta do alto apartamento de onde se via grande parte da cidade espalhando-se em blocos idênticos, que continham casa idênticas, que continham gente identicamente contente com a segurança de uma família e um lar. Não lembrava de nada.
Um dos gatos se empoleirou no alto da estante e deitava como a esfinge enquanto o outro, num canto do sofá, dormia tranqüilamente. O telefone tocou, mas resolveu deixar a máquina atender. Do outro lado, uma voz mais do que familiar:
- Marcio, aqui é sua mãe! Eu sei que você está em casa bebendo café com vodka e fumando um cigarro atrás do outro! – fez uma pausa longa. “Desistiu”. – Meu filho, você não pode se isolar do mundo! O mundo não se resume à sua casa, cara! Há quanto tempo você não escreve? Há quanto tempo você vem dizendo que não consegue criar? Me liga quando quiser...., e logo! Um beijo!
“Não sou só. Sou livre. Me libertei de tudo que me prendia, me angustiava. Disse não! Liberdade é poder dizer não!”. Acendeu outro cigarro, recostou-se no sofá e cochilou. Seus sonhos eram agitados e em preto e branco. Sempre sonhava colorido, mas dessa vez tudo estava em tons de cinza. Imagens obscuras se fundiam às sombras, pessoas se escondiam no escuro, todos fugiam exceto por um par de olhos que o seguia. Olhava por cima dos ombros tentando ver um rosto, mas não via nada mais do que um par de olhos.
Acordou num salto com o toco do cigarro queimando seus dedos. Derrubou o cinzeiro que se espatifou no carpete espalhando cinzas e tocos de cigarro. Correu até seu quarto e ao passar por um espelho, não se reconheceu. O rosto envelhecido, a barba grande, os quilos acumulados na cintura. Não era mais a imagem que tinha de si.
Ao entrar no quarto avistou os jeans jogados sobre a escrivaninha, era o que precisava. Agarrou os jeans, correu na direção da porta de saída agarrando os sapatos e o sobretudo no caminho. Chamou o elevador e vestia suas roupas enquanto esperava. Tinha se lembrado onde vira aqueles olhos. Onde os tinha visto? Quando? Não lembrava.
Lembrou-se de uma cidade que era fronteiriça e era para lá que dirigia o carro. Seu coração batia como se fosse explodir dentro do peito. Não se lembrava de endereço ou telefone. “Louco! Louco! Se diz livre mas entregou-se a todos os charmes da burguesia para que se sentisse livre! Ridículo! Você é ridículo!!”. Sua mente vociferava, tinha um nó no estômago e as pernas formigavam. Ao chegar a duas quadras de onde acreditava ser o que procurava, largou o carro no meio da rua e corria sob a chuva que agora caia torrencialmente. Corria e não sabia se gritava ou se tinha a boca aberta num grito mudo. Sabia que corria. Escutava seus passos no chão, tropeçava em montes de neve fofa, mas continuava a correr.
Chegou a um prédio de três andares, parou em frente e gritou. A mulher sentada junto à janela do último andar ouviu. Não podia acreditar naquilo e correu escadaria abaixo. Abriu o portão e os dois se viram. “Esses são os olhos”. Caminharam lentamente um na direção do outro. Ele tentou secar o rosto com a palma da mão. Queria saber se aquilo era real. Lembrou-se de tudo! Dela. Da vida, das conversas ao telefone. Ela parou. Ele caminho até ela e disse:
- Preciso de você! Preciso viver e acho que só vou viver quando estiver com você!
Ela andou até ele, o abraçou e disse:
- Shhh... Vai ficar tudo bem!
19.2.04
Opa.
Se eu disser que estou de DIETA MONETÁRIA séria e que, em lugar da boca fechei foi a mão, eu vou pro inferno, Pai?
Pra mim, conceito de "caro e barato" é simples:
- É mais de um real?
- É um e cinquenta, mina. ( notem que estou mesmo em são paulo )
- Então não quero.
Né?
Pra mim, conceito de "caro e barato" é simples:
- É mais de um real?
- É um e cinquenta, mina. ( notem que estou mesmo em são paulo )
- Então não quero.
Né?
12.2.04
EU QUERO.
Descobri que existe um vibrador da Hello Kity e agora não sossego enquanto não tiver um só pra, vc sabe, colocar na mesa de centro da sala pra enfeitar.
\o/
\o/
5.2.04
Conversas que um dia chato no escritório pode gerar
Marcio: sabe qual é a pior forma de se encotrar um bicho na goiaba?
Marcio: encontrar
Daniel San: lembra o bixinho do C&P
Marcio: sei. quer responder a porra da pergunta?
Daniel San: sei não
Marcio: encontrar meio bicho!
Marcio: hahahahahahahahaha!
Daniel San: eca!
Marcio: muito engraçado!
Marcio: irc!
Daniel San: fazia anos que eu não ria tanto
Marcio: eu imagino!
Daniel San :décadas
Daniel San: desde a Guerra do Vietnã
Marcio: eu lembro de vc se descaralhando de rir no meio da guerra
Daniel San: quando servi com John Kerry, meu amigo, futuro presidente dos EE.UU
Marcio: manjo!
Marcio: sabe que ele dava muito a bunda pro dentista do pelotão?
Daniel San: estávamos num bote PC149, no meio de um alagado
Marcio: o Dr. Extração sem Dor
Daniel San: sabia, fui eu que os apresentei
Daniel San: mas, como ia dizendo...
Marcio: ah!
Marcio: sim, diga!
Daniel San: estávamos num bote, PC149, no meio de um alagado... de um lado, trezentos vietnamitas
Marcio: e aí?
Daniel San: de outro, um paredão de mata fechada sem nenhuma possibilidade de correr
Daniel San: eu podia ver a felicidade no rosto daqueles putos camponeses
Daniel San: foi quando JK me disse
- abra aquela caixa
Daniel San: eu abri, e para minha surpresa, encontrei vários saquinhos, com um gás escuro dentro
Daniel San: um gás meio verde, meio azul
Marcio: eita
Daniel San: ele disse para mim
- despeje-os na água, todos!
Daniel San: eu os despejei, enquanto os camponeses riam e engatilhavam as escopetas e metralhadoras
Marcio: e aí, e aí?
Daniel San: quando os saquinhos chegaram na borda do matagal onde os vietnamitas estavam
Daniel San: ele puxou do bolso uma espécie de controle remoto
Daniel San: apertou um botãozinho que dizia mais ou menos
- shoot her ass!
Daniel San: e boooooooommmmm!!!!!!!!!!!!
Daniel San: a mata toda se transformou numa fétida e verde-escura fumaçeira!
Daniel San: foi quando ele me disse
- comprei isto do Márcio... saca o Personal Peido-Embaleitor 74?
Daniel San: (the end)
Marcio: é verdade! me lembro de ter vendido pra ele o último carregamento!
Daniel San: foi o que salvou aquela missão americana em solo hostil
Marcio: nesse dia, eu estava num bar em Pu-tang
Daniel San: hahahahahahahaha!
Marcio: bebi tanto e comi tanto uma vietnamita que mijei fogo no dia seguinte!
Daniel San: sim, eu lembro, fica numa picada, perto de Zo-Nang
Daniel San: aaahhhh, por isso que o batalhão lhe chamava de lança-fogo??
Marcio: isso! foi uma época triste de ,minha vida!
Daniel San: então foi assim que saímos do Vietnã... num Airbus
Marcio: sim, sim... me lembro bem!
Daniel San: comprado em Feira de Sant´ana, pelo Sarney
Marcio: lembro-me inclusive, que o avião tinha uma decoração toda nordestina!
Daniel San: tava lá o velho Ulysses também,
Marcio: não foi Ulysses que queria abrir a porta do avião pra vomitar?
Daniel San: isso, as atendentes nos recebiam com aqueles chapéu-lampião
Daniel San: não, quem FEZ isso foi o Tancredo Neves
Marcio: ah é...!
Marcio: se lembra do Delfin entalado no assento?
Daniel San: hahaha! ele queria ir na asa!
Daniel San: sim, estamos apresentando o programa: RECORDAR É VIVER
Marcio:claro! estamos relembrando as histórias do nosso tempo no Vietnam
Marcio: guerra é fogo!
Daniel San: literalmente
Falar besteira nessa quantidade é quase uma arte!
Marcio: encontrar
Daniel San: lembra o bixinho do C&P
Marcio: sei. quer responder a porra da pergunta?
Daniel San: sei não
Marcio: encontrar meio bicho!
Marcio: hahahahahahahahaha!
Daniel San: eca!
Marcio: muito engraçado!
Marcio: irc!
Daniel San: fazia anos que eu não ria tanto
Marcio: eu imagino!
Daniel San :décadas
Daniel San: desde a Guerra do Vietnã
Marcio: eu lembro de vc se descaralhando de rir no meio da guerra
Daniel San: quando servi com John Kerry, meu amigo, futuro presidente dos EE.UU
Marcio: manjo!
Marcio: sabe que ele dava muito a bunda pro dentista do pelotão?
Daniel San: estávamos num bote PC149, no meio de um alagado
Marcio: o Dr. Extração sem Dor
Daniel San: sabia, fui eu que os apresentei
Daniel San: mas, como ia dizendo...
Marcio: ah!
Marcio: sim, diga!
Daniel San: estávamos num bote, PC149, no meio de um alagado... de um lado, trezentos vietnamitas
Marcio: e aí?
Daniel San: de outro, um paredão de mata fechada sem nenhuma possibilidade de correr
Daniel San: eu podia ver a felicidade no rosto daqueles putos camponeses
Daniel San: foi quando JK me disse
- abra aquela caixa
Daniel San: eu abri, e para minha surpresa, encontrei vários saquinhos, com um gás escuro dentro
Daniel San: um gás meio verde, meio azul
Marcio: eita
Daniel San: ele disse para mim
- despeje-os na água, todos!
Daniel San: eu os despejei, enquanto os camponeses riam e engatilhavam as escopetas e metralhadoras
Marcio: e aí, e aí?
Daniel San: quando os saquinhos chegaram na borda do matagal onde os vietnamitas estavam
Daniel San: ele puxou do bolso uma espécie de controle remoto
Daniel San: apertou um botãozinho que dizia mais ou menos
- shoot her ass!
Daniel San: e boooooooommmmm!!!!!!!!!!!!
Daniel San: a mata toda se transformou numa fétida e verde-escura fumaçeira!
Daniel San: foi quando ele me disse
- comprei isto do Márcio... saca o Personal Peido-Embaleitor 74?
Daniel San: (the end)
Marcio: é verdade! me lembro de ter vendido pra ele o último carregamento!
Daniel San: foi o que salvou aquela missão americana em solo hostil
Marcio: nesse dia, eu estava num bar em Pu-tang
Daniel San: hahahahahahahaha!
Marcio: bebi tanto e comi tanto uma vietnamita que mijei fogo no dia seguinte!
Daniel San: sim, eu lembro, fica numa picada, perto de Zo-Nang
Daniel San: aaahhhh, por isso que o batalhão lhe chamava de lança-fogo??
Marcio: isso! foi uma época triste de ,minha vida!
Daniel San: então foi assim que saímos do Vietnã... num Airbus
Marcio: sim, sim... me lembro bem!
Daniel San: comprado em Feira de Sant´ana, pelo Sarney
Marcio: lembro-me inclusive, que o avião tinha uma decoração toda nordestina!
Daniel San: tava lá o velho Ulysses também,
Marcio: não foi Ulysses que queria abrir a porta do avião pra vomitar?
Daniel San: isso, as atendentes nos recebiam com aqueles chapéu-lampião
Daniel San: não, quem FEZ isso foi o Tancredo Neves
Marcio: ah é...!
Marcio: se lembra do Delfin entalado no assento?
Daniel San: hahaha! ele queria ir na asa!
Daniel San: sim, estamos apresentando o programa: RECORDAR É VIVER
Marcio:claro! estamos relembrando as histórias do nosso tempo no Vietnam
Marcio: guerra é fogo!
Daniel San: literalmente
Falar besteira nessa quantidade é quase uma arte!
4.2.04
Jabá pouco é bobagem
Fala, sangue.
Seguinte: aquele lance de meninadatorre.com tava me dando nos pacová já. Aí, chutei o pau da barraca e fiz um outro, nome nadavê, tipo ansim, pá botá os bicho pá fora, tá ligado?
Então.
Agora a Menina da Torre é A MINA CARIOCA DE SAMPA.
Já tô pedindo um template lá. Quem quiser ajudar.....
Mas ó, Chefe: fica tranquilo que eu já trouxe meus paninhos pra cá e me instalei, falou?
Daqui não saio, adqui ninguém me ti-ra.
Seguinte: aquele lance de meninadatorre.com tava me dando nos pacová já. Aí, chutei o pau da barraca e fiz um outro, nome nadavê, tipo ansim, pá botá os bicho pá fora, tá ligado?
Então.
Agora a Menina da Torre é A MINA CARIOCA DE SAMPA.
Já tô pedindo um template lá. Quem quiser ajudar.....
Mas ó, Chefe: fica tranquilo que eu já trouxe meus paninhos pra cá e me instalei, falou?
Daqui não saio, adqui ninguém me ti-ra.
3.2.04
A Verdade Verdadeira
Perseverar é se foder até não poder mais.
E, para quem não sabia: eu sempre estive aqui. Muito prazer, eu sou a Menina da Torre e costumo abalar Bangu. Bangu não, que é coisa de pobre. Mindinguinha. Eu abalo do Jabaquara ao Tucuruvi. Sou a rainha do Taboão. E por aí afora. Tô chique que só, me afogando em enchentes em uma das maiores metrópoles do mundo. Mas pelo menos é de se dar orgulho. " Uma das maiores do mundo" Heh.
Sou a Vice-Presidente de Operações desta pocilga até segunda ordem.
E ai de quem ousar dizer o contrário.
Estou exilada e por enquanto só mantenho contato por aqui. E não, este não é meu novo endereço. Em breve, na sua TV, a próxima novela das sete. Não perca!
E, para quem não sabia: eu sempre estive aqui. Muito prazer, eu sou a Menina da Torre e costumo abalar Bangu. Bangu não, que é coisa de pobre. Mindinguinha. Eu abalo do Jabaquara ao Tucuruvi. Sou a rainha do Taboão. E por aí afora. Tô chique que só, me afogando em enchentes em uma das maiores metrópoles do mundo. Mas pelo menos é de se dar orgulho. " Uma das maiores do mundo" Heh.
Sou a Vice-Presidente de Operações desta pocilga até segunda ordem.
E ai de quem ousar dizer o contrário.
Estou exilada e por enquanto só mantenho contato por aqui. E não, este não é meu novo endereço. Em breve, na sua TV, a próxima novela das sete. Não perca!
30.1.04
Aquela velha idade nova.
Eram duas, as moças. Bem, "moças" é bondade, já que deviam equilibrar-se entre seus sessenta e setenta anos. Não importa. Estavam lado a lado, em um daqueles bancos de cor cinza do metrô de São Paulo. Linha Azul, estação Ana Rosa, sentido Tucuruvi, destino Sé. Quem conhece um pouco esse caos de linhas e baldeações e metamorfoses já se situou. Quem não, bem, também não tem muito o que exlicar. É mais ou menos como estar na Linha verde do metrô do Rio, na estação de Triagem, sentido Estácio, destino São Cristóvão. Ok. Mas divago.
Eram duas, as moças. Ambas enrugadas, mas as semelhanças paravam por aí. A da esquerda, tadinha, um pouco curvada, vestido de pano preto e branco, cabelo preso em coque, sandálias rasteiras de couro, nenhum acessório a não ser por uma bolsa igualmente de pano preto e olhos azuis distantes em algum ano de antes. Ou de depois. Ou de nunca mais.
Eram duas, as moças. A da direita, enrugada sim, mas o sintoma velhice só se podia perceber por este fato. Vestia jeans bordado, camisa de seda com babados, jaqueta jeans com lantejoulas, sapato bico fino e carregava em si anéis e brincos ostensivos. Tinha uma maquiagem forte, cabelos avermelhados e um esforço gigantesco em se parecer mais nova. Inquieta, não sossegava um minutos, abria a bolsa, tirava um espelhinho, ajeitava o cabelo, puxava um lenço, secava o rosto - céus, como fazia calor - , olhava o telefone, virava-se para olhar a rua, cruzava as pernas, descruzava e quem estava em volta começou a se incomodar.
Menos eu. Eram duas, as moças. E eu ali, de pé - tinha cedido o meu lugar no banco cinza para a primeira, da esquerda - frente às duas, tecendo cenas em minha mente: de onde estavam vindo? Por que eram tão diferentes? Que passado guardavam ali, estampado em cada ruga e em cada gesto - exagerado em uma e nulo em outra - e para onde estavam seguindo?
Fiquei a imaginar. Eram duas as moças. Algumas décadas atrás, a da esquerda era uma recatada moça de família. Casou-se sem amor, teve filhos por ser o percurso normal da mulher, envelheceu porque assim o tinha de ser. A outra, da direita, essa não: frequentou salões e cabarés, deitou-se com os homens que quis - e com os que não quis, por dinheiro. Viveu. Quebrou a cara algumas vezes, mas paciência. Ou poderia ser o contrário. Ou não. Sou só eu imaginando coisas.
Eu ali, frente à elas. Uma quieta, a outra irrequieta ainda. Elas me olham. E eu me imagino equilibrando-me entre meus sessenta e setenta anos, se vou ser como uma ou outra. E elas ficam ali, a lembrar de seus vinte e poucos.
E desço sem perguntar qual das duas é mais feliz.
Eram duas, as moças. Ambas enrugadas, mas as semelhanças paravam por aí. A da esquerda, tadinha, um pouco curvada, vestido de pano preto e branco, cabelo preso em coque, sandálias rasteiras de couro, nenhum acessório a não ser por uma bolsa igualmente de pano preto e olhos azuis distantes em algum ano de antes. Ou de depois. Ou de nunca mais.
Eram duas, as moças. A da direita, enrugada sim, mas o sintoma velhice só se podia perceber por este fato. Vestia jeans bordado, camisa de seda com babados, jaqueta jeans com lantejoulas, sapato bico fino e carregava em si anéis e brincos ostensivos. Tinha uma maquiagem forte, cabelos avermelhados e um esforço gigantesco em se parecer mais nova. Inquieta, não sossegava um minutos, abria a bolsa, tirava um espelhinho, ajeitava o cabelo, puxava um lenço, secava o rosto - céus, como fazia calor - , olhava o telefone, virava-se para olhar a rua, cruzava as pernas, descruzava e quem estava em volta começou a se incomodar.
Menos eu. Eram duas, as moças. E eu ali, de pé - tinha cedido o meu lugar no banco cinza para a primeira, da esquerda - frente às duas, tecendo cenas em minha mente: de onde estavam vindo? Por que eram tão diferentes? Que passado guardavam ali, estampado em cada ruga e em cada gesto - exagerado em uma e nulo em outra - e para onde estavam seguindo?
Fiquei a imaginar. Eram duas as moças. Algumas décadas atrás, a da esquerda era uma recatada moça de família. Casou-se sem amor, teve filhos por ser o percurso normal da mulher, envelheceu porque assim o tinha de ser. A outra, da direita, essa não: frequentou salões e cabarés, deitou-se com os homens que quis - e com os que não quis, por dinheiro. Viveu. Quebrou a cara algumas vezes, mas paciência. Ou poderia ser o contrário. Ou não. Sou só eu imaginando coisas.
Eu ali, frente à elas. Uma quieta, a outra irrequieta ainda. Elas me olham. E eu me imagino equilibrando-me entre meus sessenta e setenta anos, se vou ser como uma ou outra. E elas ficam ali, a lembrar de seus vinte e poucos.
E desço sem perguntar qual das duas é mais feliz.
25.1.04
Análise
Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, nesse ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
(Fernando Pessoa)
Que me vem de olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, nesse ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
(Fernando Pessoa)
20.1.04
Perguntinhas...
Vocês já repararam que eu tenho dado títulos aos meus textos?
Vocês (além do Léo) repararam que eu matei meu primeiro personagem?
Vocês (além do Léo) repararam que eu matei meu primeiro personagem?
13.1.04
Das memórias e seus percalços
Andava pela rua cabisbaixo repassando sua vida como se fosse uma sessão de slides. Recriava diálogos modificando-os como se acontecessem agora e pudesse incluir ou suprimir falas, fazer outros movimentos. De um certo modo, se divertia.
Uma chuva fina caia sobre a cidade emprestando uma coloração plúmbea e fria aos prédios e até mesmo ao mar que mais parecia uma continuação em movimento do céu negro e carregado. Sentou-se em um banco da orla e nem se incomodou com o contato da pedra fria e úmida contra seu traseiro. Admirava o movimento das ondas e suas memórias surgiam no mesmo ritmo: indo e voltando não dando mais tempo para que as cenas fossem reconstruídas. Simplesmente apareciam abruptamente, sumindo com delicadeza deixando suas impressões na areia e voltando para o fundo escuro de onde vieram. Sentia-se sufocado por tantas lembranças e já não conseguia mais ficar sentado, precisava se movimentar. Acreditava que assim deixaria para trás suas memórias mas não podia. “Quem sou eu sem minhas memórias? Como uma pessoa pode se sentir completa sem relembrar o que passou, o que vivi?”. Parou repentinamente e reparou que estava de olhos fechados. As perguntas cessaram assim como o ir e vir de suas lembranças. Olhou ao redor e se descobriu nu em meio à praia, suas roupas tinham ficado para trás e sentia seu corpo quente apesar do dia frio. Olhou para o mar e resolveu ir de encontro às suas memórias, foi indo, indo, vencendo as ondas com toda a determinação que lhe restava. De tão determinado, sentia-se invencível, capaz de vencer a própria morte.
Seu corpo fora encontrado ainda agonizante nas areias da praia de Ipanema. O pescador que o encontrou, contou à polícia que ainda pode ouvir seu último sussurro:
- Encontrei – ele dizia – encontrei...!
Uma chuva fina caia sobre a cidade emprestando uma coloração plúmbea e fria aos prédios e até mesmo ao mar que mais parecia uma continuação em movimento do céu negro e carregado. Sentou-se em um banco da orla e nem se incomodou com o contato da pedra fria e úmida contra seu traseiro. Admirava o movimento das ondas e suas memórias surgiam no mesmo ritmo: indo e voltando não dando mais tempo para que as cenas fossem reconstruídas. Simplesmente apareciam abruptamente, sumindo com delicadeza deixando suas impressões na areia e voltando para o fundo escuro de onde vieram. Sentia-se sufocado por tantas lembranças e já não conseguia mais ficar sentado, precisava se movimentar. Acreditava que assim deixaria para trás suas memórias mas não podia. “Quem sou eu sem minhas memórias? Como uma pessoa pode se sentir completa sem relembrar o que passou, o que vivi?”. Parou repentinamente e reparou que estava de olhos fechados. As perguntas cessaram assim como o ir e vir de suas lembranças. Olhou ao redor e se descobriu nu em meio à praia, suas roupas tinham ficado para trás e sentia seu corpo quente apesar do dia frio. Olhou para o mar e resolveu ir de encontro às suas memórias, foi indo, indo, vencendo as ondas com toda a determinação que lhe restava. De tão determinado, sentia-se invencível, capaz de vencer a própria morte.
Seu corpo fora encontrado ainda agonizante nas areias da praia de Ipanema. O pescador que o encontrou, contou à polícia que ainda pode ouvir seu último sussurro:
- Encontrei – ele dizia – encontrei...!
8.1.04
2.1.04
12.12.03
- Sabe o que eu queria?
- Não.
- Ser seguro de mim...
- E você não é?
- Não. Por que? Pareço?
- Parece... Mas também, a gente se conhece pouco. Ainda não sei suas reações, seu comportamento.
- É verdade. E o mais curioso é que parece que a gente se conhece há tempos incontáveis.
- Tempo... Acho que é a única coisa comum a tudo. Tudo mesmo! Tudo tem um tempo seu, próprio. E ainda assim, tempo pode ser conceitual.
- Como assim?
- Qual o tempo certo de se começar a trabalhar? Qual o tempo certo de se ter um filho? “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
- O que é isso? É seu?
- Não. É uma coisa de um livro que eu li quando era pequeno. Cada letra tinha um versinho desses. O “T” era esse. Acho que era um livro de trava-línguas.
- E você lembra dos outros?
- Não... Tem muito tempo que eu li isso... Quanto tempo a gente tem aqui nessa terra? Quando eu morrer, para onde vai o tempo?
- Por que você se preocupa tanto com o tempo?
- Porque perdi muito tempo tentando descobrir quem eu sou.
- E já descobriu?
- Não. Alguém já se descobriu por completo?
- Não que eu conheça. As pessoas mudam de acordo com o tempo.
- O tempo conceitual ou o tempo geral, dessa forma que a gente conhece?
- Acho que da forma geral, mundana.
- Ah...Mas o que deflagra essas mudanças? O tempo ou a vivência?
- Quanto mais tempo de vida se tem, maior a vivência. Então o tempo nos muda.
- Mas pode-se ter muita vivência em pouco tempo de vida. A vida é dissonante e muitas vezes, nos leva para lugares estranhos.
- É verdade... Por falar em tempo... Nosso tempo acabou. São cento e cinqüenta dinheiros.
- Ué! Há pouco tempo atrás eram cem dinheiros!
- Ah... Mas isso foi há muito tempo!
- É... Deve ser o sinal dos tempos...
- Não.
- Ser seguro de mim...
- E você não é?
- Não. Por que? Pareço?
- Parece... Mas também, a gente se conhece pouco. Ainda não sei suas reações, seu comportamento.
- É verdade. E o mais curioso é que parece que a gente se conhece há tempos incontáveis.
- Tempo... Acho que é a única coisa comum a tudo. Tudo mesmo! Tudo tem um tempo seu, próprio. E ainda assim, tempo pode ser conceitual.
- Como assim?
- Qual o tempo certo de se começar a trabalhar? Qual o tempo certo de se ter um filho? “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
- O que é isso? É seu?
- Não. É uma coisa de um livro que eu li quando era pequeno. Cada letra tinha um versinho desses. O “T” era esse. Acho que era um livro de trava-línguas.
- E você lembra dos outros?
- Não... Tem muito tempo que eu li isso... Quanto tempo a gente tem aqui nessa terra? Quando eu morrer, para onde vai o tempo?
- Por que você se preocupa tanto com o tempo?
- Porque perdi muito tempo tentando descobrir quem eu sou.
- E já descobriu?
- Não. Alguém já se descobriu por completo?
- Não que eu conheça. As pessoas mudam de acordo com o tempo.
- O tempo conceitual ou o tempo geral, dessa forma que a gente conhece?
- Acho que da forma geral, mundana.
- Ah...Mas o que deflagra essas mudanças? O tempo ou a vivência?
- Quanto mais tempo de vida se tem, maior a vivência. Então o tempo nos muda.
- Mas pode-se ter muita vivência em pouco tempo de vida. A vida é dissonante e muitas vezes, nos leva para lugares estranhos.
- É verdade... Por falar em tempo... Nosso tempo acabou. São cento e cinqüenta dinheiros.
- Ué! Há pouco tempo atrás eram cem dinheiros!
- Ah... Mas isso foi há muito tempo!
- É... Deve ser o sinal dos tempos...
26.11.03
A Estrada
Encostei meu carro e olhei para o mapa mais uma vez. Quem olhava de longe e me via de cenho franzido poderia pensar que eu estava entendendo o que estava desenhado ali. Tirei os olhos do mapa e olhei para frente algumas vezes numa tentativa vã de me achar naquela imensidão de estrada cercada por mato. Sai do carro para ter uma visão melhor da estrada e, quem sabe, achar uma placa que indicasse onde eu estava.
- Muito bem... Admita! Você está completamente perdido! Também... Mapa vagabundo dos diabos! – Pensava com uma certa raiva de mim. – Muito bonito, Zé! Culpe o mapa!
No som do carro, Robert Plant cantava as maravilhas que o esperavam na Califórnia e, logo em seguida, Christopher Cross dizia “nunca serei o mesmo sem você aqui”. Era uma seleção musical duvidosa, porém eclética. Duvidosa porque os roqueiros me crucificariam e os românticos me queimariam vivo ainda que gostasse muito dessa misturada sem dar preferência a um ou a outro.
Rasguei o “falso” mapa e me sentei no capô do carro para admirar a paisagem ao meu redor. Descobri que já passavam das três da tarde e que estava dirigindo desde as seis da manhã. Fui ao carro mais uma vez para buscar o maço de cigarros e, droga, só tem mais dois!
- Preciso de cigarros e uma cerveja. E rápido! – Voltei para o banco do motorista, girei a chave e o rosnado do motor me fez relaxar um pouco. Mick Jagger começou a cantar Paint in Black. Coloquei os óculos escuros e me senti como Mad Max. Acelerava cada vez mais e, como a estrada estava vazia, posicionei o carro bem sobre as faixas amarelas. Parecia que o carro as ia engolindo furiosamente como um cortador de grama a jato.
Ao longe, avistei um posto de gasolina que não recebia fregueses há um bom tempo. A poeira já tinha se apossado das bombas de combustível e da varanda da pequena loja de conveniência anexa ao posto. Uma senhora, perto dos seus setenta anos, sentava em uma cadeira de balanço na varanda e fumava um cigarro enquanto admirava o nada.
Estacionei o carro ao lado de uma das bombas e sai do carro em estilo cinematográfico retirando os óculos escuros puxando a haste direita num movimento brusco para a esquerda e para baixo.
A tal senhora usava um vestido quadriculado com um avental amarrado à cintura. Veio caminhando lentamente em minha direção e disse com uma voz quase firme tentando disfarçar a tremedeira:
- Não tenho combustível. O fornecedor deveria ter passado aqui há uma semana mas ainda não veio.
- A senhora tem cigarros?
- Tem uma máquina lá dentro que acho que ainda funciona – Tentei em vão identificar seu sotaque numa esperança de descobrir onde estava mas não deu certo.
- Ok! Obrigado.
Entrei na pequena loja onde, nos fundos, ficava a máquina. Depositei duas notas e apertei o botão correspondente à marca de minha preferência mas nada aconteceu. Chutei a lateral da máquina e três maços caíram no receptáculo. Sem cerimônia, peguei os três e os guardei nos bolsos dos jeans que já estavam bem surrados.
- Ah, vai... Foi a máquina que quis me roubar e depois da coerção, mudou de idéia! – Pensei me desculpando pelo furto qualificado.
Havia uma porta lateral na da loja e, muito curioso, resolvi averiguar. A tal porta não era aberta há muito tempo e, com um certo esforço, consegui move-la. As velhas dobradiças rangeram e um odor espesso de poeira me invadiu as narinas.
Atrás da porta havia um grande salão de pé direito alto. Muitas mesas com cadeiras apoiadas cercavam um pequeno palco e sobre ele, um piano coberto com lençol branco e mais acima, um belo e majestoso lustre de cristal. As janelas de vidro colorido retratavam grandes nomes do jazz como Wayne Shorter, Louis Armstrong, John Coltrane e Thelonious Monk.
Lentamente, meio hipnotizado, caminhei até o majestoso piano de calda. Descobri a frente do instrumento e a inscrição Steinway and Sons pareceu tomar vida ao refletir a débil iluminação externa que era filtrada pelos vidros coloridos. Levantei a tampa do teclado e pressionei uma tecla. O som encheu o ambiente ecoando por todos os cantos e custou a morrer. Sentei-me no empoeirado banquinho fazendo uma nuvem branca subir. Dedilhei alguns acordes e o piano estava surpreendentemente afinado. Uma empolgação juvenil tomou conta de mim e continuei tocando animadamente.
- Há muito tempo não se escuta música nesse salão. – A senhora estava escorada no umbral da porta e me olhava com olhos tristes.
- Credo! A senhora me assustou!
- Estava só observando. Toque mais se quiser.
- Um pergunta: a senhora tem alguma previsão de quando o combustível vai chegar?
- Não. Como está seu tanque?
- Vazio. Bem vazio.
- Posso te alugar um quarto que tenho aqui em cima. Nada luxuoso: uma cama grande, um relógio de parede e uma geladeira.
- E quem precisa de mais que isso?
Sorrimos e a senhora chegou mais perto do piano cantando algumas canções antigas.
- Muito bem... Admita! Você está completamente perdido! Também... Mapa vagabundo dos diabos! – Pensava com uma certa raiva de mim. – Muito bonito, Zé! Culpe o mapa!
No som do carro, Robert Plant cantava as maravilhas que o esperavam na Califórnia e, logo em seguida, Christopher Cross dizia “nunca serei o mesmo sem você aqui”. Era uma seleção musical duvidosa, porém eclética. Duvidosa porque os roqueiros me crucificariam e os românticos me queimariam vivo ainda que gostasse muito dessa misturada sem dar preferência a um ou a outro.
Rasguei o “falso” mapa e me sentei no capô do carro para admirar a paisagem ao meu redor. Descobri que já passavam das três da tarde e que estava dirigindo desde as seis da manhã. Fui ao carro mais uma vez para buscar o maço de cigarros e, droga, só tem mais dois!
- Preciso de cigarros e uma cerveja. E rápido! – Voltei para o banco do motorista, girei a chave e o rosnado do motor me fez relaxar um pouco. Mick Jagger começou a cantar Paint in Black. Coloquei os óculos escuros e me senti como Mad Max. Acelerava cada vez mais e, como a estrada estava vazia, posicionei o carro bem sobre as faixas amarelas. Parecia que o carro as ia engolindo furiosamente como um cortador de grama a jato.
Ao longe, avistei um posto de gasolina que não recebia fregueses há um bom tempo. A poeira já tinha se apossado das bombas de combustível e da varanda da pequena loja de conveniência anexa ao posto. Uma senhora, perto dos seus setenta anos, sentava em uma cadeira de balanço na varanda e fumava um cigarro enquanto admirava o nada.
Estacionei o carro ao lado de uma das bombas e sai do carro em estilo cinematográfico retirando os óculos escuros puxando a haste direita num movimento brusco para a esquerda e para baixo.
A tal senhora usava um vestido quadriculado com um avental amarrado à cintura. Veio caminhando lentamente em minha direção e disse com uma voz quase firme tentando disfarçar a tremedeira:
- Não tenho combustível. O fornecedor deveria ter passado aqui há uma semana mas ainda não veio.
- A senhora tem cigarros?
- Tem uma máquina lá dentro que acho que ainda funciona – Tentei em vão identificar seu sotaque numa esperança de descobrir onde estava mas não deu certo.
- Ok! Obrigado.
Entrei na pequena loja onde, nos fundos, ficava a máquina. Depositei duas notas e apertei o botão correspondente à marca de minha preferência mas nada aconteceu. Chutei a lateral da máquina e três maços caíram no receptáculo. Sem cerimônia, peguei os três e os guardei nos bolsos dos jeans que já estavam bem surrados.
- Ah, vai... Foi a máquina que quis me roubar e depois da coerção, mudou de idéia! – Pensei me desculpando pelo furto qualificado.
Havia uma porta lateral na da loja e, muito curioso, resolvi averiguar. A tal porta não era aberta há muito tempo e, com um certo esforço, consegui move-la. As velhas dobradiças rangeram e um odor espesso de poeira me invadiu as narinas.
Atrás da porta havia um grande salão de pé direito alto. Muitas mesas com cadeiras apoiadas cercavam um pequeno palco e sobre ele, um piano coberto com lençol branco e mais acima, um belo e majestoso lustre de cristal. As janelas de vidro colorido retratavam grandes nomes do jazz como Wayne Shorter, Louis Armstrong, John Coltrane e Thelonious Monk.
Lentamente, meio hipnotizado, caminhei até o majestoso piano de calda. Descobri a frente do instrumento e a inscrição Steinway and Sons pareceu tomar vida ao refletir a débil iluminação externa que era filtrada pelos vidros coloridos. Levantei a tampa do teclado e pressionei uma tecla. O som encheu o ambiente ecoando por todos os cantos e custou a morrer. Sentei-me no empoeirado banquinho fazendo uma nuvem branca subir. Dedilhei alguns acordes e o piano estava surpreendentemente afinado. Uma empolgação juvenil tomou conta de mim e continuei tocando animadamente.
- Há muito tempo não se escuta música nesse salão. – A senhora estava escorada no umbral da porta e me olhava com olhos tristes.
- Credo! A senhora me assustou!
- Estava só observando. Toque mais se quiser.
- Um pergunta: a senhora tem alguma previsão de quando o combustível vai chegar?
- Não. Como está seu tanque?
- Vazio. Bem vazio.
- Posso te alugar um quarto que tenho aqui em cima. Nada luxuoso: uma cama grande, um relógio de parede e uma geladeira.
- E quem precisa de mais que isso?
Sorrimos e a senhora chegou mais perto do piano cantando algumas canções antigas.
24.11.03
12.11.03
Sentou-se à mesa munido de lápis e papel, acendeu um cigarro, deu uma tragada e apoiou-o no cinzeiro que tinha furtado de um restaurante. Soltou a fumaça vagarosamente tentando achar formas distintas e sorriu com co canto da boca.
A sala toda estava escura a não ser pelo lustre que ficava exatamente sobre a mesa. Dentro do lustre uma lâmpada concentrava seu facho amarelado sobre o papel e o cinzeiro. Além disso, a casa escura e silenciosa como uma igreja. Percebendo a movimentação seus gatos subiram na mesa para averiguar o que acontecia, ganharam carinhos, festinhas e desceram para continuar dormindo no sofá.
Olhava além do único ponto luminoso da casa e percebeu como a fumaça do cigarro criava formas fantasmagóricas. Tinha a impressão de que a escuridão parecia querer engolfá-lo e torná-lo parte dela.
Recostou na cadeira, deu uma longa tragada no cigarro apagando-o logo em seguida. Fechou os olhos e permaneceu assim por algum tempo. Tinha a nítida sensação de que o tempo havia parado. Sentiu uma moleza e cochilou. Ao acordar, percebeu que estava bem no meio de um campo de alfazemas. O dia ia nascendo e o sol, preguiçosamente começava a despontar no horizonte. Olhou para baixo e viu a leve bruma que subia do chão trazendo consigo, o cheiro inebriante das plantas. Passou os olhos ao seu redor e não havia nada mais do que muitos quilômetros de plantações de flores divididas em enormes retângulos não muito regulares delimitados por uma pequena vala onde a água se concentrava.
Havia papoulas vermelhas, rosas de todas as cores, margaridas, violetas, amores-perfeitos. Sentiu algo frio atingir seu peito e olhando para si, percebeu que estava nu e que o sistema de irrigação tinha sido ligado. Sentiu o cheiro de terra molhada invadir suas narinas, fechou os olhos, fez uma volta completa sobre os pés tentando distinguir todos os aromas presentes e sentiu que em algum lugar distante, estavam queimando lenha. Abriu os olhos e viu fumaça ao longe.
Começou a caminhar na direção da fumaça mas não consegui conter a curiosidade em saber que lugar era aquele. Começou a correr e lembrou-se de que estava nu.
- Como é que eu apareço assim na casa dos outros? – Pensou parando de correr.
Continuou caminhando mas a largas passadas e decidiu que contaria uma história qualquer aos seus possíveis anfitriões.
Chegou até os rústicos e irregulares degraus que levavam até a varanda de tábuas corridas que, devido às intempéries, estavam empenadas e soltas em alguns pontos. Bateu com os nós dos dedos à pesada porta de madeira de lei e correu para trás de um barril a fim de se esconder. Esperou alguns segundos mas não houve resposta. Dirigiu-se à porta mais uma vez e bateu mais forte correndo em seguida para seu barril-esconderijo. Nada. Voltou à porta e girou a maçaneta e a porta abriu forçando os gonzos secos e rangendo alto.
Ao espiar dentro da casa reparou que se sentia estranhamente familiarizado com os móveis e com o ambiente. Não havia televisão na sala. Somente dois sofás de três lugares cada formavam um ângulo reto entre si e que emolduravam uma mesa de centro com tampo de vidro. Sobre a mesa, um cinzeiro com algumas guimbas de cigarros de palha. ouviu um ruído de uma panela de barro sendo postas sobre um fogão a lenha. Em pouco tempo o cheiro de café invadiu a casa. Agora ouvia passos se dirigindo a espaçosa e pouco mobiliada sala.
Sentiu um frio no estômago mas decidiu que não correria nem se esconderia. Um velho magro porém com a musculatura bem definida pelos anos de trabalho braçal. Um cavanhaque já branco e muito bem aparado emoldurava a boca de lábios grossos. Alguns vasos bem dilatados nos cantos do nariz denunciavam a intimidade com o álcool.
O velho voltou-se para ele e os verdes, expressivos e penetrantes olhos verdes encontraram os seus.
- Finalmente você chegou! – Disse com a voz firme – Estou te esperando desde bem cedo. Por que demorou tanto? – Abriu a boca mas não conseguia proferir as palavras. – Nah... não diga nada. Sei o que você está pensando.
- Quem é você – Balbuciou o jovem.
- Não reparou a semelhança? Eu sou você. Somos a mesma pessoa com alguns anos de intervalo.
- Mas que lugar é esse? Como é que isso aconteceu?
- Tem uma hora na vida de uma pessoa, quando se está feliz e equilibrado, em que uma janela temporal é aberta. Ao olhar por essa janela, pode-se ver o passado ou o futuro. Sua escolha foi o futuro
- Esse é o meu futuro? Mas não é nada do que planejei apesar de não me desagradar em nada!
- Essa foi a escolha que fizemos!
- Foi uma boa escolha?
- Foi a grande escolha que fizemos. Aqui somos felizes com nossas flores, o silêncio, o trabalho. Nossos amigos nos visitam com freqüência e ainda por cima, fazemos nossa própria cerveja!
Sentaram se um em cada sofá, bebiam cerveja e fumavam conversando sobre o passado. Riram bastante e lá pelas tantas, foram dormir. O jovem acordou cedo e não se lembrava de ter dormido tão bem assim. Queria conversar com o velho mas não o encontrou. Resignou-se e foi cuidar do trabalho da fazenda. Herança de seu futuro.
A sala toda estava escura a não ser pelo lustre que ficava exatamente sobre a mesa. Dentro do lustre uma lâmpada concentrava seu facho amarelado sobre o papel e o cinzeiro. Além disso, a casa escura e silenciosa como uma igreja. Percebendo a movimentação seus gatos subiram na mesa para averiguar o que acontecia, ganharam carinhos, festinhas e desceram para continuar dormindo no sofá.
Olhava além do único ponto luminoso da casa e percebeu como a fumaça do cigarro criava formas fantasmagóricas. Tinha a impressão de que a escuridão parecia querer engolfá-lo e torná-lo parte dela.
Recostou na cadeira, deu uma longa tragada no cigarro apagando-o logo em seguida. Fechou os olhos e permaneceu assim por algum tempo. Tinha a nítida sensação de que o tempo havia parado. Sentiu uma moleza e cochilou. Ao acordar, percebeu que estava bem no meio de um campo de alfazemas. O dia ia nascendo e o sol, preguiçosamente começava a despontar no horizonte. Olhou para baixo e viu a leve bruma que subia do chão trazendo consigo, o cheiro inebriante das plantas. Passou os olhos ao seu redor e não havia nada mais do que muitos quilômetros de plantações de flores divididas em enormes retângulos não muito regulares delimitados por uma pequena vala onde a água se concentrava.
Havia papoulas vermelhas, rosas de todas as cores, margaridas, violetas, amores-perfeitos. Sentiu algo frio atingir seu peito e olhando para si, percebeu que estava nu e que o sistema de irrigação tinha sido ligado. Sentiu o cheiro de terra molhada invadir suas narinas, fechou os olhos, fez uma volta completa sobre os pés tentando distinguir todos os aromas presentes e sentiu que em algum lugar distante, estavam queimando lenha. Abriu os olhos e viu fumaça ao longe.
Começou a caminhar na direção da fumaça mas não consegui conter a curiosidade em saber que lugar era aquele. Começou a correr e lembrou-se de que estava nu.
- Como é que eu apareço assim na casa dos outros? – Pensou parando de correr.
Continuou caminhando mas a largas passadas e decidiu que contaria uma história qualquer aos seus possíveis anfitriões.
Chegou até os rústicos e irregulares degraus que levavam até a varanda de tábuas corridas que, devido às intempéries, estavam empenadas e soltas em alguns pontos. Bateu com os nós dos dedos à pesada porta de madeira de lei e correu para trás de um barril a fim de se esconder. Esperou alguns segundos mas não houve resposta. Dirigiu-se à porta mais uma vez e bateu mais forte correndo em seguida para seu barril-esconderijo. Nada. Voltou à porta e girou a maçaneta e a porta abriu forçando os gonzos secos e rangendo alto.
Ao espiar dentro da casa reparou que se sentia estranhamente familiarizado com os móveis e com o ambiente. Não havia televisão na sala. Somente dois sofás de três lugares cada formavam um ângulo reto entre si e que emolduravam uma mesa de centro com tampo de vidro. Sobre a mesa, um cinzeiro com algumas guimbas de cigarros de palha. ouviu um ruído de uma panela de barro sendo postas sobre um fogão a lenha. Em pouco tempo o cheiro de café invadiu a casa. Agora ouvia passos se dirigindo a espaçosa e pouco mobiliada sala.
Sentiu um frio no estômago mas decidiu que não correria nem se esconderia. Um velho magro porém com a musculatura bem definida pelos anos de trabalho braçal. Um cavanhaque já branco e muito bem aparado emoldurava a boca de lábios grossos. Alguns vasos bem dilatados nos cantos do nariz denunciavam a intimidade com o álcool.
O velho voltou-se para ele e os verdes, expressivos e penetrantes olhos verdes encontraram os seus.
- Finalmente você chegou! – Disse com a voz firme – Estou te esperando desde bem cedo. Por que demorou tanto? – Abriu a boca mas não conseguia proferir as palavras. – Nah... não diga nada. Sei o que você está pensando.
- Quem é você – Balbuciou o jovem.
- Não reparou a semelhança? Eu sou você. Somos a mesma pessoa com alguns anos de intervalo.
- Mas que lugar é esse? Como é que isso aconteceu?
- Tem uma hora na vida de uma pessoa, quando se está feliz e equilibrado, em que uma janela temporal é aberta. Ao olhar por essa janela, pode-se ver o passado ou o futuro. Sua escolha foi o futuro
- Esse é o meu futuro? Mas não é nada do que planejei apesar de não me desagradar em nada!
- Essa foi a escolha que fizemos!
- Foi uma boa escolha?
- Foi a grande escolha que fizemos. Aqui somos felizes com nossas flores, o silêncio, o trabalho. Nossos amigos nos visitam com freqüência e ainda por cima, fazemos nossa própria cerveja!
Sentaram se um em cada sofá, bebiam cerveja e fumavam conversando sobre o passado. Riram bastante e lá pelas tantas, foram dormir. O jovem acordou cedo e não se lembrava de ter dormido tão bem assim. Queria conversar com o velho mas não o encontrou. Resignou-se e foi cuidar do trabalho da fazenda. Herança de seu futuro.
8.11.03
Queria rasgar o próprio peito e sair de dentro de si! Se libertar da prisão que lhe era imposta pelos outros, pela sociedade. Queria simplesmente, ser ele mesmo. Só isso.
- Só? E você acha que isso é simples? Como lhe dar com a reprovação alheia? Como mostrar como realmente se é exibindo todos os seus pontos fracos, abrindo a guarda para que pudessem feri-lo? Como explicar que se é sensível, amoroso, carinhoso, compreensível apesar de escutar os problemas dos que o cercam e querer arranjar soluções mirabolantes em um mundo que deixou esses sentimentos todos para trás há muito?
- Talvez porque eu não saiba quem sou ainda! Não completamente! Ainda há portas a serem exploradas dentro da minha mente! Portas que são abertas esporadicamente quando escuto uma música ou vejo um filme que me toca! Portas que ficam no escuro e me é impossível achar a chave! Não que eu não saiba onde ela está porque sei exatamente onde estão essas chaves! Tenho que lidar com meu medo de abri-las e encontrar coisas que fiz questão de esquecer mas que ainda assim, fazem parte da minha formação!
Ninguém se faz sozinho! Todos somos produtos das pessoas que nos cercam, do ambiente em que fomos criados, das coisas que escolhemos...
Queria poder contar que choro feito criança a cada cena de um filme, a cada frase de uma música, a cada elogio que recebo. Mas tenho que encarar os olhares de reprovação ou de estranheza. Queria poder saber o que sei hoje quando era mais novo! Teria feito algumas coisas diferentemente! Não que me arrependa do que fiz, disse ou deixei de fazer ou de dizer. Não nem arrependo de nada. Tenho um sonho utópico de poder mudar as coisas que me cercam, as pessoas tudo! Não que eu ache que meu mundo seja perfeito ou que as pessoas são imperfeitas. Só acho que falta amor, paixão, tesão, compaixão, humanidade, solidariedade, vontade, preocupação com o outro.
Aprenda com o grande ensinamento do cristianismo: AME O PRÓXIMO! Todos temos os mesmo questionamentos, as mesmas aflições, as mesmas inseguranças! Se abra, toque as pessoas! Tem tanta gente por aí que precisa e quer ser tocada. Basta um aperto de mão, um tapinha no ombro. Mostre que você se importa com quem está na rua. Seja gentil com as pessoas. Trate as mulheres como princesas porque elas todas o são e querem ser tratadas assim! Ouça mais música, mas música boa! Viaje nessas músicas! Elas têm o poder de abrir essas portas que a gente mantém trancadas! Tenha boas lembranças por mais que uma separação tenha sido traumática ou que alguém tenha te machucado muito. Tenha carinho! É tão bom ter carinho, dar carinho e ser acarinhado! Saiba dar sem receber ou esperar nada em troca. Peça colo. Dê colo. Escreva, cante, fale, converse, faça arte pois a arte imita a vida! Mostre através de alguma coisa como é a sua vida! Express yourself!! Fique na sua quando se sentir intimista! Você é a melhor companhia para você! Seja fiel às suas idéias, aos seus ideais e às suas crenças mas não seja fanático. Dance como se ninguém estivesse vendo!
Chore de alegria ou de tristeza! Chorar alivia a alma, te deixa mais leve!
Seja seu ego e não seu alter-ego! Mergulhe de cabeça. Se a piscina estiver vazia, o tempo vai tratar as feridas!
Seja você e lembre-se: felicidade não é a chegada e sim o caminho!
N.A: Escrevi esse texto de uma forma que nunca tinha feito antes. Simplesmente fui escrevendo e evitei corrigir erros que geralmente comento mesmo tentando corrigi-los mas espero fazê-lo com o passar do tempo. Acho que esse texto mereceu ir ao ar do jeito que foi concebido.
Chorei muito ao escrevê-lo pois ainda acho que, não só o mundo mas as pessoas ainda têm salvação! Vamos fazer deste mundo um mundo melhor e isso só cabe a nós! E que, fundamentalmente e ao contrário de Maquiavel, acho que todos somos bons por natureza!
- Só? E você acha que isso é simples? Como lhe dar com a reprovação alheia? Como mostrar como realmente se é exibindo todos os seus pontos fracos, abrindo a guarda para que pudessem feri-lo? Como explicar que se é sensível, amoroso, carinhoso, compreensível apesar de escutar os problemas dos que o cercam e querer arranjar soluções mirabolantes em um mundo que deixou esses sentimentos todos para trás há muito?
- Talvez porque eu não saiba quem sou ainda! Não completamente! Ainda há portas a serem exploradas dentro da minha mente! Portas que são abertas esporadicamente quando escuto uma música ou vejo um filme que me toca! Portas que ficam no escuro e me é impossível achar a chave! Não que eu não saiba onde ela está porque sei exatamente onde estão essas chaves! Tenho que lidar com meu medo de abri-las e encontrar coisas que fiz questão de esquecer mas que ainda assim, fazem parte da minha formação!
Ninguém se faz sozinho! Todos somos produtos das pessoas que nos cercam, do ambiente em que fomos criados, das coisas que escolhemos...
Queria poder contar que choro feito criança a cada cena de um filme, a cada frase de uma música, a cada elogio que recebo. Mas tenho que encarar os olhares de reprovação ou de estranheza. Queria poder saber o que sei hoje quando era mais novo! Teria feito algumas coisas diferentemente! Não que me arrependa do que fiz, disse ou deixei de fazer ou de dizer. Não nem arrependo de nada. Tenho um sonho utópico de poder mudar as coisas que me cercam, as pessoas tudo! Não que eu ache que meu mundo seja perfeito ou que as pessoas são imperfeitas. Só acho que falta amor, paixão, tesão, compaixão, humanidade, solidariedade, vontade, preocupação com o outro.
Aprenda com o grande ensinamento do cristianismo: AME O PRÓXIMO! Todos temos os mesmo questionamentos, as mesmas aflições, as mesmas inseguranças! Se abra, toque as pessoas! Tem tanta gente por aí que precisa e quer ser tocada. Basta um aperto de mão, um tapinha no ombro. Mostre que você se importa com quem está na rua. Seja gentil com as pessoas. Trate as mulheres como princesas porque elas todas o são e querem ser tratadas assim! Ouça mais música, mas música boa! Viaje nessas músicas! Elas têm o poder de abrir essas portas que a gente mantém trancadas! Tenha boas lembranças por mais que uma separação tenha sido traumática ou que alguém tenha te machucado muito. Tenha carinho! É tão bom ter carinho, dar carinho e ser acarinhado! Saiba dar sem receber ou esperar nada em troca. Peça colo. Dê colo. Escreva, cante, fale, converse, faça arte pois a arte imita a vida! Mostre através de alguma coisa como é a sua vida! Express yourself!! Fique na sua quando se sentir intimista! Você é a melhor companhia para você! Seja fiel às suas idéias, aos seus ideais e às suas crenças mas não seja fanático. Dance como se ninguém estivesse vendo!
Chore de alegria ou de tristeza! Chorar alivia a alma, te deixa mais leve!
Seja seu ego e não seu alter-ego! Mergulhe de cabeça. Se a piscina estiver vazia, o tempo vai tratar as feridas!
Seja você e lembre-se: felicidade não é a chegada e sim o caminho!
N.A: Escrevi esse texto de uma forma que nunca tinha feito antes. Simplesmente fui escrevendo e evitei corrigir erros que geralmente comento mesmo tentando corrigi-los mas espero fazê-lo com o passar do tempo. Acho que esse texto mereceu ir ao ar do jeito que foi concebido.
Chorei muito ao escrevê-lo pois ainda acho que, não só o mundo mas as pessoas ainda têm salvação! Vamos fazer deste mundo um mundo melhor e isso só cabe a nós! E que, fundamentalmente e ao contrário de Maquiavel, acho que todos somos bons por natureza!
30.10.03
Como muitos devem imaginar, hoje é meu aniversário. Este ano uma coisa legal me aconteceu: ao contrário dos outros anos quando eu ficava triste e até meio deprimido por ver que os anos passaram e que eu atingi muito pouco do que a sociedade considera sucesso, me peguei pensando nas pessoas que conheci ao longo dessa 29 primaveras. Descobri que as pessoas que ficaram são as que realmente gostam de mim apesar de eu ser eu, ou melhor, ser assim desse jeito. Descobri que as pessoas que passaram, deixaram marca e que penso em cada uma delas com muito respeito e carinho. Que as pessoas que me sacanearam, fizeram com que eu ficasse mais esperto apesar de fazer com que eu acreditasse que o negócio era “levar vantagem em tudo” e que a lei era a “lei da selva”.
Com isso, reproduzo um trecho do diálogo com uma pessoa muito, mas muito querida que me ligou na virada do dia 29 para o dia 30:
“- ... porque você é meu amigo, amo muito você e eu não quero te perder!
- Mas só sou o que sou por causa das pessoas que me cercam
- Vai tomar no cu!”
Com isso, reproduzo um trecho do diálogo com uma pessoa muito, mas muito querida que me ligou na virada do dia 29 para o dia 30:
“- ... porque você é meu amigo, amo muito você e eu não quero te perder!
- Mas só sou o que sou por causa das pessoas que me cercam
- Vai tomar no cu!”
29.10.03
Gostaria de pedir mil desculpas pelo meu sumiço. É que essas duas últimas semanas foram as que antecederam meus 10 dias de férias e a coisa ficou muito, mas muito corrida.
O bom disso tudo é que tenho tido algumas idéias que pretendo transformar em textos esperando sempre que vocês gostem!
Um beijo para todos e aguardem só mais um pouco que já, já tem texto novo!
O bom disso tudo é que tenho tido algumas idéias que pretendo transformar em textos esperando sempre que vocês gostem!
Um beijo para todos e aguardem só mais um pouco que já, já tem texto novo!
15.10.03
A sala de espera do consultório lhe parecia muito mais impessoal e fria do que o normal. Nem as belas reproduções de Miró e Escher quebravam a monotonia branca das paredes. Esfregava as mãos numa vã tentativa de aquecê-las até que decidiu sentar-se sobre elas. Ato que acabou criando um dilema:
- E agora? Como é que eu faço pra ler a revista?
Olhou ao redor e se viu a sós com a secretária do psicólogo que estava muito ocupada lixando as unhas e nem se importava com o (nem tão) jovem que já estava ficando com os lábios roxos de frio.
Uma senhora saiu da sala ainda enxugando algumas lágrimas que insistiam em lhe encher os olhos. Agradeceu ao médico com um leve aperto de mão e se foi.
- O senhor é o próximo. - Disse a secretária.
Caminhou timidamente até a porta que dava para uma sala ampla e iluminada onde ao fundo, atrás de uma bela escrivaninha e a frente de uma enorme janela, sentava-se o doutor. Havia ainda na sala, um enorme tatame forrado com um belo lençol com estampa de arco-íris próximo à escrivaninha e muitas, muitas almofadas espalhadas. Dirigiu-se ao tatame e largou seu corpo pesadamente sobre as almofadas das mais variadas cores. Fez um amontoado delas, recostou-se e, com os joelhos em arco, abraçou uma almofada.
- Então? O que o traz aqui? - Perguntou o doutor educadamente.
- Fiz uma coisa com a qual não tenho conseguido viver.
- Então vamos falar sobre isso. O que você fez de tão terrível assim.
- Cometi suicídio.
- O senhor quer dizer homicídio?
- Não. Quis dizer exatamente o que disse. Eu cometi suicídio. Uma morte lenta, gradual e sofrida das minhas idéias, meus ideais, minha ética, meu discernimento... todos mortos. Um verdadeiro genocídio.
Vendi meu corpo e minha alma para um emprego que não me trouxe satisfação nem realizações. Troquei o suor do meu rosto por uma pequena quantia mensal. Sem motivação, vi minhas idéias serem trocadas por uma convivência mais lisa com colegas, chefes e afins. Deixei de sonhar, deixei de sorrir. Minhas gargalhadas, tão frequentes, foram silenciando e se tornaram feições circunspectas e meu olhar esfriou. Verti minha vida na pia de pessoas de vida vazia... tudo isso por medo.
- O medo do desconhecido e do fracasso são muito comuns - Interveio o doutor.
- Não tenho medo do fracasso.
- E do que você tem medo?
- Do sucesso.
- E agora? Como é que eu faço pra ler a revista?
Olhou ao redor e se viu a sós com a secretária do psicólogo que estava muito ocupada lixando as unhas e nem se importava com o (nem tão) jovem que já estava ficando com os lábios roxos de frio.
Uma senhora saiu da sala ainda enxugando algumas lágrimas que insistiam em lhe encher os olhos. Agradeceu ao médico com um leve aperto de mão e se foi.
- O senhor é o próximo. - Disse a secretária.
Caminhou timidamente até a porta que dava para uma sala ampla e iluminada onde ao fundo, atrás de uma bela escrivaninha e a frente de uma enorme janela, sentava-se o doutor. Havia ainda na sala, um enorme tatame forrado com um belo lençol com estampa de arco-íris próximo à escrivaninha e muitas, muitas almofadas espalhadas. Dirigiu-se ao tatame e largou seu corpo pesadamente sobre as almofadas das mais variadas cores. Fez um amontoado delas, recostou-se e, com os joelhos em arco, abraçou uma almofada.
- Então? O que o traz aqui? - Perguntou o doutor educadamente.
- Fiz uma coisa com a qual não tenho conseguido viver.
- Então vamos falar sobre isso. O que você fez de tão terrível assim.
- Cometi suicídio.
- O senhor quer dizer homicídio?
- Não. Quis dizer exatamente o que disse. Eu cometi suicídio. Uma morte lenta, gradual e sofrida das minhas idéias, meus ideais, minha ética, meu discernimento... todos mortos. Um verdadeiro genocídio.
Vendi meu corpo e minha alma para um emprego que não me trouxe satisfação nem realizações. Troquei o suor do meu rosto por uma pequena quantia mensal. Sem motivação, vi minhas idéias serem trocadas por uma convivência mais lisa com colegas, chefes e afins. Deixei de sonhar, deixei de sorrir. Minhas gargalhadas, tão frequentes, foram silenciando e se tornaram feições circunspectas e meu olhar esfriou. Verti minha vida na pia de pessoas de vida vazia... tudo isso por medo.
- O medo do desconhecido e do fracasso são muito comuns - Interveio o doutor.
- Não tenho medo do fracasso.
- E do que você tem medo?
- Do sucesso.
8.10.03
Todos se despediram dele. Amigos, familiares, passantes. O grupo estava bem perto do portão de embarque e a cena quase comoveu um dos seguranças. Muitos abraços, beijos, tapinhas nas costas, alguns tapas "delicados" no rosto e muitas, muitas lágrimas. Acenou uma última vez e decidiu que não iaria olhar para trás.
Girou sobre os calcanhares, ajeitou o mochilão nas costas e se foi. Sumiu logo após ter passado pelo detetor de metais e dirigindo-se ao portão de embarque lembrou-se de que tinha um certo temor de aviões.
- Quero ver como é que vai ser no dia em que as leis da física forem revogadas... - pensou distraidamente.
A aeromoça falava mas sua voz parecia vir de muito longe. Agradeceu a atenção dela e parou na pista olhando fixamente para o aparelho enquanto se imaginava frente à esfinge pronta para devorá-lo caso não a decifrasse. Tentou sorrir mas o máximo que conseguiu foi um esgar sofrido. Quase abandonou tudo e voltou mas conseguiu controlar o impulso e começou a subir as escadas que o levariam ao interior do avião.
Tudo parecia em câmara lenta. Inclusive as vozes das aeromoças que o recebiam à porta do aparelho. Procurou por seu lugar mas o corredor parecia se alongar mais e mais fazendo com que seu assento ficasse cada vez mais longe. Fingiu indiferença e seguiu pelo elástico corredor. Guardou o mochilão no compartimento e sentou-se pesadamente na poltrona. Levantou-se mais uma vez e, olhandou ao redor, identificou as saídas de emergência. Voltou a sentar-se.
Olhava fixamente para um ponto distante dentro de si.
- Lskfjshdflkkkjefhhhodifh?
- Perdão. O que disse?
- O senhor gostaria de uma bebida antes da decolagem?
- Vodka com gelo e um twist!
- Não temos limão, senhor
- Sem twist então!
A aeromoça esticou o braço para entregar-lhe o copo e ele reparou como as mãos dela eram bonitas e bem cuidadas. Sorriu e agradeceu.
Bebeu tudo em duas goladas e percebeu que tudo voltava a ficar em foco. Infelizmente isso não fez com que a poltrona ficasse mais confortável. Deslisou a bunda até quase o fim do assento mas de pouco adiantou e resolveu parar de lutar contra ele pois certamente perderia a briga. Pediu mais uma vodka e dois goles depois, a poltrona começou a ficar razoavelmente confortável.
A voz do capitão pelo alto-falante avisa que "vamos começar a taxiar a pista". Lembrou-se do quanto sofria nas deolagens e economizou vodka.
Relaxou um pouco após a traumática deolagem e não conseguiu deixar de pensar que todos os capitães dos vôos que tomou gostavam de fazer o avião sacudir bastante só para sacanear.
- Você parece nervoso! - A voz era grave porém, indubitavelmente, feminina.
- É tão óbvio assim?
- Bastante! Esperei a té decolarmos para falar com você. Achei que você ia precisar de uma conversinha.
A mulher, já perto dos quarenta, não era exatamente bonita mas seu rosto era assimetricamente atraente. Tinha a pele queimada pelo sol e uma vasta cabeleira vermelha emoldurava o rosto fino de lábios iguamlente finos que escondiam dentes bem alinhados e muito brancos. Vestia uma calça jeans já bem surradas e uma jaqueta de couro marrom com uma camiseta branca por baixo.
- E eu achando que era um sujeito discreto. Quer um drink?
- Me dá um gole do seu?
- Mas aí você vai descobrir meus segredos. Bom... na verdade eles nem são importantes. - terminou a frase e entregou o copo. Ela bebeu pequenos goles e devolveu o copo com uma mancha vermelha de baton. Ele pegou o copo e achou que o copo plástico com a mancha de baton e a vodka tinham ficado muito bonitos.
- Desculpe. Manchei seu copo.
- Sem problema. Ficou até mais bonito o drink! - ela sorriu e perguntou:
- É a primeira vez que você sai do país?
- Não. Ja tinha saido antes mas acho que dessa vez não volto.
- Hmmm... Vai encontrar alguém?
- Vou.
- Quem?
- ... Eu.
Girou sobre os calcanhares, ajeitou o mochilão nas costas e se foi. Sumiu logo após ter passado pelo detetor de metais e dirigindo-se ao portão de embarque lembrou-se de que tinha um certo temor de aviões.
- Quero ver como é que vai ser no dia em que as leis da física forem revogadas... - pensou distraidamente.
A aeromoça falava mas sua voz parecia vir de muito longe. Agradeceu a atenção dela e parou na pista olhando fixamente para o aparelho enquanto se imaginava frente à esfinge pronta para devorá-lo caso não a decifrasse. Tentou sorrir mas o máximo que conseguiu foi um esgar sofrido. Quase abandonou tudo e voltou mas conseguiu controlar o impulso e começou a subir as escadas que o levariam ao interior do avião.
Tudo parecia em câmara lenta. Inclusive as vozes das aeromoças que o recebiam à porta do aparelho. Procurou por seu lugar mas o corredor parecia se alongar mais e mais fazendo com que seu assento ficasse cada vez mais longe. Fingiu indiferença e seguiu pelo elástico corredor. Guardou o mochilão no compartimento e sentou-se pesadamente na poltrona. Levantou-se mais uma vez e, olhandou ao redor, identificou as saídas de emergência. Voltou a sentar-se.
Olhava fixamente para um ponto distante dentro de si.
- Lskfjshdflkkkjefhhhodifh?
- Perdão. O que disse?
- O senhor gostaria de uma bebida antes da decolagem?
- Vodka com gelo e um twist!
- Não temos limão, senhor
- Sem twist então!
A aeromoça esticou o braço para entregar-lhe o copo e ele reparou como as mãos dela eram bonitas e bem cuidadas. Sorriu e agradeceu.
Bebeu tudo em duas goladas e percebeu que tudo voltava a ficar em foco. Infelizmente isso não fez com que a poltrona ficasse mais confortável. Deslisou a bunda até quase o fim do assento mas de pouco adiantou e resolveu parar de lutar contra ele pois certamente perderia a briga. Pediu mais uma vodka e dois goles depois, a poltrona começou a ficar razoavelmente confortável.
A voz do capitão pelo alto-falante avisa que "vamos começar a taxiar a pista". Lembrou-se do quanto sofria nas deolagens e economizou vodka.
Relaxou um pouco após a traumática deolagem e não conseguiu deixar de pensar que todos os capitães dos vôos que tomou gostavam de fazer o avião sacudir bastante só para sacanear.
- Você parece nervoso! - A voz era grave porém, indubitavelmente, feminina.
- É tão óbvio assim?
- Bastante! Esperei a té decolarmos para falar com você. Achei que você ia precisar de uma conversinha.
A mulher, já perto dos quarenta, não era exatamente bonita mas seu rosto era assimetricamente atraente. Tinha a pele queimada pelo sol e uma vasta cabeleira vermelha emoldurava o rosto fino de lábios iguamlente finos que escondiam dentes bem alinhados e muito brancos. Vestia uma calça jeans já bem surradas e uma jaqueta de couro marrom com uma camiseta branca por baixo.
- E eu achando que era um sujeito discreto. Quer um drink?
- Me dá um gole do seu?
- Mas aí você vai descobrir meus segredos. Bom... na verdade eles nem são importantes. - terminou a frase e entregou o copo. Ela bebeu pequenos goles e devolveu o copo com uma mancha vermelha de baton. Ele pegou o copo e achou que o copo plástico com a mancha de baton e a vodka tinham ficado muito bonitos.
- Desculpe. Manchei seu copo.
- Sem problema. Ficou até mais bonito o drink! - ela sorriu e perguntou:
- É a primeira vez que você sai do país?
- Não. Ja tinha saido antes mas acho que dessa vez não volto.
- Hmmm... Vai encontrar alguém?
- Vou.
- Quem?
- ... Eu.
25.9.03
Andava pela rua distraidamente. Quase absorto em profundos pensamentos, reduzia cada vez mais o ritmo de sua caminhada. Parou, olhou para os lados e recostou-se á uma parede, em baixo de uma grande e velha marquise, onde podia observar a multidão que passava. Flagrou-se observando cada vez mais profundamente cada indivíduo e não pode deixar de notar como as pessoas eram tão diferentes e estranhamente tão parecidas.
Médicos, advogados, engenheiros, secretárias, mascates, palhaços, malabaristas, pedintes... tão “indivíduos” e tão... homogêneos. Todos parte de uma grande engrenagem.
Sentiu-se sufocado, preso. Afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho numa tentativa vã de respirar. Livrou-se da alça da pasta que cruzava seu peito. Nunca aquela pasta lhe pareceu tão pesada.
- Por que carrego tanta coisa? – Pensou quase falando baixo. Ao colocar a pasta no chão alguma coisa mudou. Começou a rir uma risada contida que aos poucos foi crescendo. Pensava no quão ridículo era aquilo mas não conseguia parar de rir.
Agora gargalhava insanamente. Lágrimas escorriam de seus olhos e sua barriga doía loucamente mas simplesmente não conseguia parar de rir. Não sabia exatamente o que achava tão engraçado. Simplesmente deu vontade de rir.
Os transeuntes se aglomeravam para ver a cena pitoresca.
- Recebeu o salário! – Diziam alguns.
- E viu que não vai dar pra nada! – Completou um engraçadinho de plantão.
Aquele comentário foi demais. Explodiu numa gargalhada descontrolada, ele agora deitava no chão da calçada de uma avenida extremamente movimentada, segurando a barriga e cada vez mais lágrimas escorriam de seus olhos. Com muito esforço consegui se sentar com as costas encostadas á parede e os joelhos arqueados onde apoiou a cabeça tentando recuperar o controle. Respirou fundo, e murmurou um “ai, meu pai.” Enquanto enxugava as lágrimas com a gravata. Respirou fundo e acreditava estar pronto. Olhou em volta e não pode conter a risada que veio como uma onda. Não. Como um maremoto. Definitivamente não conseguia se controlar.
Sentiu uma picada no pescoço e sentiu como se estivesse olhando por um caleidoscópio. Em poucos segundos o mundo pareceu se transformar num grande borrão.
Acordou num susto e depois de algum tempo, percebeu que estava em sua cama. O despertador buzinava incessantemente há meia hora. Desligou-o e dirigiu-se ao espelho do banheiro.
Sentia-se bem. A não ser pela sensação de ressaca e uma estranha picada de mosquito no pescoço.
- Tenho que dar um jeito nesses mosquitos.
Médicos, advogados, engenheiros, secretárias, mascates, palhaços, malabaristas, pedintes... tão “indivíduos” e tão... homogêneos. Todos parte de uma grande engrenagem.
Sentiu-se sufocado, preso. Afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho numa tentativa vã de respirar. Livrou-se da alça da pasta que cruzava seu peito. Nunca aquela pasta lhe pareceu tão pesada.
- Por que carrego tanta coisa? – Pensou quase falando baixo. Ao colocar a pasta no chão alguma coisa mudou. Começou a rir uma risada contida que aos poucos foi crescendo. Pensava no quão ridículo era aquilo mas não conseguia parar de rir.
Agora gargalhava insanamente. Lágrimas escorriam de seus olhos e sua barriga doía loucamente mas simplesmente não conseguia parar de rir. Não sabia exatamente o que achava tão engraçado. Simplesmente deu vontade de rir.
Os transeuntes se aglomeravam para ver a cena pitoresca.
- Recebeu o salário! – Diziam alguns.
- E viu que não vai dar pra nada! – Completou um engraçadinho de plantão.
Aquele comentário foi demais. Explodiu numa gargalhada descontrolada, ele agora deitava no chão da calçada de uma avenida extremamente movimentada, segurando a barriga e cada vez mais lágrimas escorriam de seus olhos. Com muito esforço consegui se sentar com as costas encostadas á parede e os joelhos arqueados onde apoiou a cabeça tentando recuperar o controle. Respirou fundo, e murmurou um “ai, meu pai.” Enquanto enxugava as lágrimas com a gravata. Respirou fundo e acreditava estar pronto. Olhou em volta e não pode conter a risada que veio como uma onda. Não. Como um maremoto. Definitivamente não conseguia se controlar.
Sentiu uma picada no pescoço e sentiu como se estivesse olhando por um caleidoscópio. Em poucos segundos o mundo pareceu se transformar num grande borrão.
Acordou num susto e depois de algum tempo, percebeu que estava em sua cama. O despertador buzinava incessantemente há meia hora. Desligou-o e dirigiu-se ao espelho do banheiro.
Sentia-se bem. A não ser pela sensação de ressaca e uma estranha picada de mosquito no pescoço.
- Tenho que dar um jeito nesses mosquitos.
23.9.03
Não me aguentei de tanto rir ouvindo essa história ontem!!
Diz a lenda que o Freddie Mercury, na época do Rock in Rio, solicitou à organização do evento, um segurança que fosse alto, forte e que falasse inglês. Mas que se o segurança fosse muito alto e muito forte, o inglês era dispensável!
Ah! Quarta-feria vai ter a continuação de algum dos mini-contos. Ainda não escolhi qual deles e estou aberto à sugestões!
Diz a lenda que o Freddie Mercury, na época do Rock in Rio, solicitou à organização do evento, um segurança que fosse alto, forte e que falasse inglês. Mas que se o segurança fosse muito alto e muito forte, o inglês era dispensável!
Ah! Quarta-feria vai ter a continuação de algum dos mini-contos. Ainda não escolhi qual deles e estou aberto à sugestões!
22.9.03
EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA
1500 visitas desde o dia 27 de Junho quando inaugurei esse blog que vos fala!
- Mas só? Tem gente aí que tem isso de visitas diárias!
É. Tem mesmo. Mas como eu nunca quis ser estrela do mundo blogueiro, pra mim tá muito é bom!
Voltamos com a programação normal lá pelas nove da noite quando eu vou postar um treco novo!
- Mas só? Tem gente aí que tem isso de visitas diárias!
É. Tem mesmo. Mas como eu nunca quis ser estrela do mundo blogueiro, pra mim tá muito é bom!
Voltamos com a programação normal lá pelas nove da noite quando eu vou postar um treco novo!
18.9.03
Não era um sujeito de muitos luxos. Morava sozinho num pequeno apartamento da zona sul do Rio de Janeiro. Sempre que sobrava uma graninha no fim do mês, colocava numa poupança e ia guardando. Não sabia exatamente o que faria com suas economias mas haveria um momento em que saberia. Tinha um feeling...
Um dia, resolveu que ia comprar um carro.
- Um clássico! – disse em voz alta quase sem perceber – e saiu porta a fora decidido a comprar o tal carro.
Comprou o jornal, um maço de Marlboros e foi para casa.
Enquanto preparava um café, parou um instante para apreciar o aroma que apreciava tanto. Pensou que, inclusive, possivelmente gostava mais do cheiro do que do gosto, propriamente dito.
Café pronto foi para a sala onde o jornal e os cigarros o aguardavam sobre a mesa de centro. Sentou-se no sofá, abriu os classificado, passou os olhos sobre as letras negras sobre o cinza esbranquiçado, bebeu um gole do café – forte, de homem, como gostava de brincar consigo – acendeu um cigarro com o zippo que tinha ganho de um grande amigo. Parou um instante e se lembrou de tudo (ou quase tudo) que passaram juntos. Soltou uma gargalhada que ecoou na sala chamando a atenção dos gatos.
- Imagina... Lembrar tudo? Até parece que sobraram neurônios pra isso!
Virou a página do jornal e se deparou com o momento que sabia que viria:
“VENDO: MUSTANG SHELBY GT500 67, PRETO COM FAIXA LATERALBRANCA E COMPRESSOR..
- É esse!! – o grito acordou definitivamente os gatos que subiram na mesa de centro e passeavam sobre o jornal aberto querendo saber o que estava acontecendo – Esse é o carro! Mais do que isso: esse é o momento!!
Foi ao quarto pegar a jaqueta e a carteira. Saiu ventando pela sala e passou rápido como um bólido pela vizinha do segundo andar que se benzeu e voltou para dentro do apartamento. Entrou num táxi e deu as coordenadas ao motorista entusiasmadamente.
Chegando ao local, viu algumas pessoas aglomeradas ao redor do carro e se assustou. Impressão que passou rapidamente quando descobriu que a turba era forma da em sua grande maioria por curiosos e não por possíveis compradores.
Avistou um senhor de uns 60 anos olhando para o carro com um ar de orgulho e tristeza. Era definitivamente o dono do carro. Era capaz de jurar que as lágrimas rolariam a qualquer momento e por conta disso resolveu acabar logo com aquilo.
- Boa tarde! Vi o anúncio no jornal e não resisti!
- Vou sentir falta dele mas não consigo mais me ver nesse carro! Envelheci antes dele.... Quantos anos você tem?
- Faço 30 daqui a pouco!
- Idade boa! E é a última para se ter um carro desses! Depois dos trinta, o corpo vai perdendo um pouco da vitalidade. Sabe como é? O espírito está disposto mas a carcaça não agüenta...
-....
- Sessenta mil. – falou distraidamente – Como é que você vai pagar?
- Depósito na sua conta corrente!
- Ok!
Depois do “ok” nada mais foi o mesmo. Uma vez confirmada a transferência, o metal frio das chaves se chocou com o calor e o suor na palma da sua mão direita. O carro era seu!
- Só toma cuidado com uma coisa - disse o “seu” Rodrigues – Cuidado quando pegar a estrada. Uma vez na estrada pode-se ir atééééé....
- Vou tomar!
Girou a chave na ignição, acelerou e nem sentiu o sorriso que desabrochara! Na verdade sorria tanto que chegava a doer! O som do motor fazia com que o mundo ao seu redor fosse sumindo aos poucos e o cheiro de gasolina era inebriante.
Foi-se aos poucos observando no retrovisor que o “seu” Rodrigues o observava e enxugava o rosto com uma estopa velha.
Encostou o carro, passou a mão no telefone celular e ligou para uma amiga:
- Linha? Preciso de um favor... Você cuida dos gatos pra mim? Preciso fazer uma coisa fora da cidade e vou ficar uns dias fora.
- Claro! A chave ta debaixo do carpete?
- Ta! Faz o seguinte: passa uma temporada lá em casa até eu voltar! Preciso que você molhe as plantas também....
- Quanto tempo você vai ficar fora?
- Um tempinho! Nada de mais!
- OBA!!! Posso ficar lá até você voltar?
- Pode! Só precisa manter a casa arrumada!
- Sem crise!!
Desligou o telefone e o colocou em cima do banco do carona. Dirigiu até a fronteira da cidade com o som ligado no máximo! Parou o carro assim que cruzou a fronteira do estado. Pegou o telefone celular e o jogou no meio do mato. Tirou o relógio de pulso, largou no asfalto e pisou em cima assistindo os intestinos do relógio voarem longe!
- Hoje ninguém me controla!!! Born to be wild...!
Um dia, resolveu que ia comprar um carro.
- Um clássico! – disse em voz alta quase sem perceber – e saiu porta a fora decidido a comprar o tal carro.
Comprou o jornal, um maço de Marlboros e foi para casa.
Enquanto preparava um café, parou um instante para apreciar o aroma que apreciava tanto. Pensou que, inclusive, possivelmente gostava mais do cheiro do que do gosto, propriamente dito.
Café pronto foi para a sala onde o jornal e os cigarros o aguardavam sobre a mesa de centro. Sentou-se no sofá, abriu os classificado, passou os olhos sobre as letras negras sobre o cinza esbranquiçado, bebeu um gole do café – forte, de homem, como gostava de brincar consigo – acendeu um cigarro com o zippo que tinha ganho de um grande amigo. Parou um instante e se lembrou de tudo (ou quase tudo) que passaram juntos. Soltou uma gargalhada que ecoou na sala chamando a atenção dos gatos.
- Imagina... Lembrar tudo? Até parece que sobraram neurônios pra isso!
Virou a página do jornal e se deparou com o momento que sabia que viria:
“VENDO: MUSTANG SHELBY GT500 67, PRETO COM FAIXA LATERALBRANCA E COMPRESSOR..
- É esse!! – o grito acordou definitivamente os gatos que subiram na mesa de centro e passeavam sobre o jornal aberto querendo saber o que estava acontecendo – Esse é o carro! Mais do que isso: esse é o momento!!
Foi ao quarto pegar a jaqueta e a carteira. Saiu ventando pela sala e passou rápido como um bólido pela vizinha do segundo andar que se benzeu e voltou para dentro do apartamento. Entrou num táxi e deu as coordenadas ao motorista entusiasmadamente.
Chegando ao local, viu algumas pessoas aglomeradas ao redor do carro e se assustou. Impressão que passou rapidamente quando descobriu que a turba era forma da em sua grande maioria por curiosos e não por possíveis compradores.
Avistou um senhor de uns 60 anos olhando para o carro com um ar de orgulho e tristeza. Era definitivamente o dono do carro. Era capaz de jurar que as lágrimas rolariam a qualquer momento e por conta disso resolveu acabar logo com aquilo.
- Boa tarde! Vi o anúncio no jornal e não resisti!
- Vou sentir falta dele mas não consigo mais me ver nesse carro! Envelheci antes dele.... Quantos anos você tem?
- Faço 30 daqui a pouco!
- Idade boa! E é a última para se ter um carro desses! Depois dos trinta, o corpo vai perdendo um pouco da vitalidade. Sabe como é? O espírito está disposto mas a carcaça não agüenta...
-....
- Sessenta mil. – falou distraidamente – Como é que você vai pagar?
- Depósito na sua conta corrente!
- Ok!
Depois do “ok” nada mais foi o mesmo. Uma vez confirmada a transferência, o metal frio das chaves se chocou com o calor e o suor na palma da sua mão direita. O carro era seu!
- Só toma cuidado com uma coisa - disse o “seu” Rodrigues – Cuidado quando pegar a estrada. Uma vez na estrada pode-se ir atééééé....
- Vou tomar!
Girou a chave na ignição, acelerou e nem sentiu o sorriso que desabrochara! Na verdade sorria tanto que chegava a doer! O som do motor fazia com que o mundo ao seu redor fosse sumindo aos poucos e o cheiro de gasolina era inebriante.
Foi-se aos poucos observando no retrovisor que o “seu” Rodrigues o observava e enxugava o rosto com uma estopa velha.
Encostou o carro, passou a mão no telefone celular e ligou para uma amiga:
- Linha? Preciso de um favor... Você cuida dos gatos pra mim? Preciso fazer uma coisa fora da cidade e vou ficar uns dias fora.
- Claro! A chave ta debaixo do carpete?
- Ta! Faz o seguinte: passa uma temporada lá em casa até eu voltar! Preciso que você molhe as plantas também....
- Quanto tempo você vai ficar fora?
- Um tempinho! Nada de mais!
- OBA!!! Posso ficar lá até você voltar?
- Pode! Só precisa manter a casa arrumada!
- Sem crise!!
Desligou o telefone e o colocou em cima do banco do carona. Dirigiu até a fronteira da cidade com o som ligado no máximo! Parou o carro assim que cruzou a fronteira do estado. Pegou o telefone celular e o jogou no meio do mato. Tirou o relógio de pulso, largou no asfalto e pisou em cima assistindo os intestinos do relógio voarem longe!
- Hoje ninguém me controla!!! Born to be wild...!
13.9.03
Finalmente escrevo de casa!
Nada contra enscrever do escritório mas a nossa casa tem um conforto inigualável. Aqui estou eu, bebendo um bom vinho tinto, fumando uns bons Marlboros, escutando Save Me e... escrevendo!
Acabo de chegar de uma chopada com grandes amigos: Carlinhos e Figueiredo. Gente que conheço há 15 anos!
15 anos... e a gente passou por tanta coisa, bicho! Mas algumas coisas me chamaram a atenção na noite de hoje.
Coisa 1: O Figueiredo nunca foi o centro das atenções mas é um sujeito cujas opiniões são ponderadas e dignas do máximo respeito. Fala pouco mas fala o certo na hora certa! É o tipo do sujeito que, quando emite uma opinião, as outras pessoas prestam atenção e esse é uma qualidade rara hoje em dia.
Alpem disso, tem um humor.... legal, leve. Bom de copo também!
Coisa 2: Conversávamos sobre música e já há algum tempo eu reparei como os dois foram importantes na minha formação musical.
Aprendi a gostar de Rock com eles. Foi na época em que eu jogava tenis que conheci Steppen Wolf, America, Bad Company e tantos outros que, se eu fosse listar, levaria alguns posts quilométricos.
Não queria deixar ninguém de fora desses créditos mas isso é quase impossível pois são tantas músicas e tantas pessoas... Mas queria repetir o que eu disse à mesa: graças a essas pessoas é que gosto do que gosto.
Claro que a outra parte da minha formação (a mais importante) se deve, principalmente à mamãe. Ela que cantou em coral por 15 anos, que sabe tudo de bossa nova e me preparou o ouvido pra todas as coisas que ouço.
Um outro dia eu conto o meu processo de descobrimento....
Coisa 3: Não qu eu tenha fica decepcionado mas quando a conversa começou a girar sobre os filhos dos dois, Carlinhos veio com uma declaração que me causou estranheza. Ele disse que jamais aceitaria se o Felipe (desculpe aê, nêgo. Não sei se é Filipe ou Felipe) fosse gay.
Posso falar pouco sobre isso porque não tenho filhos. Mas tentando me colocar na pele dele, acho que eu aceitaria. Possivelmente não seria numa boa mas, afinal, seria meu filho.
Dizem que a gente só deve dar conselhos a quem pede e eu sei que você não pediu mas aí vai um: filho a gente deve criar para o mundo, como se fossem flechas. As nossa opiniões passa, a ser somente isso: opiniões! São eles que vão decidir o que fazer da vida deles!
Mas eu tenho certeza que essa preocupação é infundada e que, mesmo se não for, o quanto você ama o Fi(e)lipe vai falar mais alto e isso vai te fazer aceitar o que quer que seja!
Nada contra enscrever do escritório mas a nossa casa tem um conforto inigualável. Aqui estou eu, bebendo um bom vinho tinto, fumando uns bons Marlboros, escutando Save Me e... escrevendo!
Acabo de chegar de uma chopada com grandes amigos: Carlinhos e Figueiredo. Gente que conheço há 15 anos!
15 anos... e a gente passou por tanta coisa, bicho! Mas algumas coisas me chamaram a atenção na noite de hoje.
Coisa 1: O Figueiredo nunca foi o centro das atenções mas é um sujeito cujas opiniões são ponderadas e dignas do máximo respeito. Fala pouco mas fala o certo na hora certa! É o tipo do sujeito que, quando emite uma opinião, as outras pessoas prestam atenção e esse é uma qualidade rara hoje em dia.
Alpem disso, tem um humor.... legal, leve. Bom de copo também!
Coisa 2: Conversávamos sobre música e já há algum tempo eu reparei como os dois foram importantes na minha formação musical.
Aprendi a gostar de Rock com eles. Foi na época em que eu jogava tenis que conheci Steppen Wolf, America, Bad Company e tantos outros que, se eu fosse listar, levaria alguns posts quilométricos.
Não queria deixar ninguém de fora desses créditos mas isso é quase impossível pois são tantas músicas e tantas pessoas... Mas queria repetir o que eu disse à mesa: graças a essas pessoas é que gosto do que gosto.
Claro que a outra parte da minha formação (a mais importante) se deve, principalmente à mamãe. Ela que cantou em coral por 15 anos, que sabe tudo de bossa nova e me preparou o ouvido pra todas as coisas que ouço.
Um outro dia eu conto o meu processo de descobrimento....
Coisa 3: Não qu eu tenha fica decepcionado mas quando a conversa começou a girar sobre os filhos dos dois, Carlinhos veio com uma declaração que me causou estranheza. Ele disse que jamais aceitaria se o Felipe (desculpe aê, nêgo. Não sei se é Filipe ou Felipe) fosse gay.
Posso falar pouco sobre isso porque não tenho filhos. Mas tentando me colocar na pele dele, acho que eu aceitaria. Possivelmente não seria numa boa mas, afinal, seria meu filho.
Dizem que a gente só deve dar conselhos a quem pede e eu sei que você não pediu mas aí vai um: filho a gente deve criar para o mundo, como se fossem flechas. As nossa opiniões passa, a ser somente isso: opiniões! São eles que vão decidir o que fazer da vida deles!
Mas eu tenho certeza que essa preocupação é infundada e que, mesmo se não for, o quanto você ama o Fi(e)lipe vai falar mais alto e isso vai te fazer aceitar o que quer que seja!
10.9.03
Você parece se ajustar perfeitamente
A uma garota que precisa de um torniquete
Mas você pode me salvar?
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Pois eu posso ver
Que você sabe como é
O longo adeus da greve de fome
Mas você pode me salvar?
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Você me deixou boba como Rádio
Como Peter Pan ou Superman
Mas você virá me salvar
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Mas os anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Essa é uma música da Aimeé Mann chamada "Save me" e a tradução é minha!
A uma garota que precisa de um torniquete
Mas você pode me salvar?
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Pois eu posso ver
Que você sabe como é
O longo adeus da greve de fome
Mas você pode me salvar?
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Você me deixou boba como Rádio
Como Peter Pan ou Superman
Mas você virá me salvar
Vamos! Salve-me
Se você pudesse me salvar
Das filas dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Dos anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Mas os anormais
Que suspeitam que nunca vão amar alguém
Essa é uma música da Aimeé Mann chamada "Save me" e a tradução é minha!
3.9.03
Ai, ai....
Não foi nada de mais mas algumas preocupações (financeiras inclusas, é claro) me tirarm do páreo por alguns dias!
É assim mesmo: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Hojo conversando com a minha querida VPO, comentei que essa é uma época meio conturbada do ano pra mim. Há exatos quatro anos eu conhecia o que uma pessoa que me ajudou muito e se hoje eu tenho planos e alguma ambição, é por causa dela.
Viver sem ambições não é legal não, viu! A gente tem que ter alguma meta na vida senão, a vida passa pela gente e não a gente por ela que é como deveria ser. Fiquei tristinho sim. Acontece... é raro mas acontece.
Agora é bloa pra frente e rumo ao Canadá!!
Não foi nada de mais mas algumas preocupações (financeiras inclusas, é claro) me tirarm do páreo por alguns dias!
É assim mesmo: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Hojo conversando com a minha querida VPO, comentei que essa é uma época meio conturbada do ano pra mim. Há exatos quatro anos eu conhecia o que uma pessoa que me ajudou muito e se hoje eu tenho planos e alguma ambição, é por causa dela.
Viver sem ambições não é legal não, viu! A gente tem que ter alguma meta na vida senão, a vida passa pela gente e não a gente por ela que é como deveria ser. Fiquei tristinho sim. Acontece... é raro mas acontece.
Agora é bloa pra frente e rumo ao Canadá!!
27.8.03
Vc já pegou o metrô até a pavuna? Reparou que a linha acaba alí? Que é diferente da Saens pena e de Copacabana, que a estação acaba, mas a linha continua pra dentro daquele buraco escuro, que leva o trem para algum lugar... Pois é... na Saens Pena e em Copa, é o fim da linha, mas existe uma promessa de continuar... Às vezes eu me sinto na estação da Pavuna.
Noutras, me sinto em Copa ou na Saens Pena; prestes a entrar no buraco escuro...
Pois é... Pra esses lugares existem projetos pro futuro... Já existe até a estação nova da S. Campos, esperando somente o trem ir pra lá... Mas na Pavuna, no final da estação, só tem um saco de areia no trilho. A linha acaba ali. Não tem mais pra onde ir, a não ser voltar...
Por enquanto.
Porque podem surgir projetos novos; retirarem os sacos de areia dali e estenderem até campo grande...
E dali, até mais longe; como os trens. E fazerem outras linhas, outras baldeações... Não será mais preciso voltar.
Ninguém se importa com a baixada... A baixada é pobre, triste e desolada... Como por vezes somos por dentro...
Não volte. Tire os sacos de areia e construa novos trilhos. mesmo que seja para a baixada ou Duque de Caxias... É o seu caminho e ninguém tem o direito de dizer que ele é feio.
Não é o caminho que eu queria...
Então entre no escuro de Copa ou da Saens pena. E vá atrás do que vc quer.
Sempre.
Noutras, me sinto em Copa ou na Saens Pena; prestes a entrar no buraco escuro...
Pois é... Pra esses lugares existem projetos pro futuro... Já existe até a estação nova da S. Campos, esperando somente o trem ir pra lá... Mas na Pavuna, no final da estação, só tem um saco de areia no trilho. A linha acaba ali. Não tem mais pra onde ir, a não ser voltar...
Por enquanto.
Porque podem surgir projetos novos; retirarem os sacos de areia dali e estenderem até campo grande...
E dali, até mais longe; como os trens. E fazerem outras linhas, outras baldeações... Não será mais preciso voltar.
Ninguém se importa com a baixada... A baixada é pobre, triste e desolada... Como por vezes somos por dentro...
Não volte. Tire os sacos de areia e construa novos trilhos. mesmo que seja para a baixada ou Duque de Caxias... É o seu caminho e ninguém tem o direito de dizer que ele é feio.
Não é o caminho que eu queria...
Então entre no escuro de Copa ou da Saens pena. E vá atrás do que vc quer.
Sempre.
25.8.03
Era sábado de manhã e ela não tinha acordado ainda. Dormia numa paz tocante com a boca entreaberta e reparou como ela ficava bonitinha dormindo assim. Pensou também que pouquíssimos adultos pareciam bonitos dormindo com a boca entreaberta mas ela ficava quase angelical.
Levantou-se, passou por cima dela que resmungou alguma coisa com os saculejos da cama e, já de pé, deu uma outra olhada na paz que rosto trasmitia e deu-lhe um beijo na testa. Reparou que hoje, o despertador não parecia rir dele como faz durante a semana. Inclusive o observava com um certo ar de tristeza por não poder acordá-lo. Sorriu e pensou:
- Hoje não!
Foi até a cozinha preparar um café e fumava uma cigarro enquanto vigiava a chaleira. Lembrou-se de sua mãe:
- Bule vigiado não ferve! - Sorriu e teve que segurar uma vontade insana de gargalhar. Lembrou que sentia uma saudade imensa dessa frases que sua mãe costumava dizer.
- Meu filho, a situação está negra como as asas da graúna! - Essa era uma das preferidas dos dois.
Preparou o café forte como fazia sempre e foi se sentar na sala. Olhou para o piano que ficava com a cauda virada para uma janela enorme e retangular de onde se via boa parte da praia. O dia lhe pareceia bonito apesar da ameaça de chuva e dos relâmpagos que se avistava no horizonte. Sentou-se ao piano e começou a dedilhar "Volare, Volare!" com a mão direita enquanto a esquerda se dividia nas tarefas de segurar a caneca e o cigarro entre os dedos. Começou a achar que poderia causar um acidente com o excesso de funções desempenhadas pela nem tão precisa mão esquerda. Apoiou o cigarro em um cinzeiro e a caneca sobre o piano e agora, com as mãos livres, tocava com um pouco mais de concentração e menos displicência porém ainda tinha o olhar pregado no movimento das ondas. Parou de tocar, bebeu um gole de café e deu um trago no cigarro. Continuava olhando parar a praia e para os relâmpagos ao fundo como se os anjos tirassem fotos do seu recital improvisado ao piano.
- Já que estão tirando fotos vou tocar uma coisinha mais legal.
Começou "Clair de Lune" e se sentiu um daqueles pianistas exêntricos. Riu e se permitiu concentrar profundamente no que estava tocando.
Fez uma pausa dramática na execução brilhante, olhou para a janela mais uma vez e viu que um raio de sol passeava entre as nuvens chegando a té a superfície do mar e deixava um rastro dourado. O mesmo raio de sol atingiu seu rosto fazendo com que fechasse os olhos. Ao fazê-lo, teve a impressçao de que a música o invadia. Tocava cada vez mais emocionadamente e o mundo ao seu redor pareceu se dissolver. Só existiam ele, o piano, a praia e o raio de sol.
Ao acabar a música, ainda de olhos fechados descansou as mãos sobre as teclas e respirou fundo. Levou um pequeno susto ao sentir que as mãos dela tocaram seus ombros e foram descendo por seu peito até seus braços se enroscarem em seu torso. Ganhou um beijo no rosto e escutou a voz sonolenta (ele achava extremamente sexy a voz dela assim que acordava) dela dizer que nunca tinha escutado tanta devoção numa música tão conhecida e simples.
Ele se virou de lado no banquinho e ela se sentou no seu colo.
Ao longo de toda a manhã os dois permaneceram assim abraçados e olhando para o único raio de sol que ainda brincava sobre as ondas.
Levantou-se, passou por cima dela que resmungou alguma coisa com os saculejos da cama e, já de pé, deu uma outra olhada na paz que rosto trasmitia e deu-lhe um beijo na testa. Reparou que hoje, o despertador não parecia rir dele como faz durante a semana. Inclusive o observava com um certo ar de tristeza por não poder acordá-lo. Sorriu e pensou:
- Hoje não!
Foi até a cozinha preparar um café e fumava uma cigarro enquanto vigiava a chaleira. Lembrou-se de sua mãe:
- Bule vigiado não ferve! - Sorriu e teve que segurar uma vontade insana de gargalhar. Lembrou que sentia uma saudade imensa dessa frases que sua mãe costumava dizer.
- Meu filho, a situação está negra como as asas da graúna! - Essa era uma das preferidas dos dois.
Preparou o café forte como fazia sempre e foi se sentar na sala. Olhou para o piano que ficava com a cauda virada para uma janela enorme e retangular de onde se via boa parte da praia. O dia lhe pareceia bonito apesar da ameaça de chuva e dos relâmpagos que se avistava no horizonte. Sentou-se ao piano e começou a dedilhar "Volare, Volare!" com a mão direita enquanto a esquerda se dividia nas tarefas de segurar a caneca e o cigarro entre os dedos. Começou a achar que poderia causar um acidente com o excesso de funções desempenhadas pela nem tão precisa mão esquerda. Apoiou o cigarro em um cinzeiro e a caneca sobre o piano e agora, com as mãos livres, tocava com um pouco mais de concentração e menos displicência porém ainda tinha o olhar pregado no movimento das ondas. Parou de tocar, bebeu um gole de café e deu um trago no cigarro. Continuava olhando parar a praia e para os relâmpagos ao fundo como se os anjos tirassem fotos do seu recital improvisado ao piano.
- Já que estão tirando fotos vou tocar uma coisinha mais legal.
Começou "Clair de Lune" e se sentiu um daqueles pianistas exêntricos. Riu e se permitiu concentrar profundamente no que estava tocando.
Fez uma pausa dramática na execução brilhante, olhou para a janela mais uma vez e viu que um raio de sol passeava entre as nuvens chegando a té a superfície do mar e deixava um rastro dourado. O mesmo raio de sol atingiu seu rosto fazendo com que fechasse os olhos. Ao fazê-lo, teve a impressçao de que a música o invadia. Tocava cada vez mais emocionadamente e o mundo ao seu redor pareceu se dissolver. Só existiam ele, o piano, a praia e o raio de sol.
Ao acabar a música, ainda de olhos fechados descansou as mãos sobre as teclas e respirou fundo. Levou um pequeno susto ao sentir que as mãos dela tocaram seus ombros e foram descendo por seu peito até seus braços se enroscarem em seu torso. Ganhou um beijo no rosto e escutou a voz sonolenta (ele achava extremamente sexy a voz dela assim que acordava) dela dizer que nunca tinha escutado tanta devoção numa música tão conhecida e simples.
Ele se virou de lado no banquinho e ela se sentou no seu colo.
Ao longo de toda a manhã os dois permaneceram assim abraçados e olhando para o único raio de sol que ainda brincava sobre as ondas.
20.8.03
Bem.
Entre nomeações e revelações, cá estamos nós. E como agora tô de bób porque tirei férias da torre, ADIVINHA AONDE VOU INFERNIZAR AGORA? Uma chance.
PÉÉÉÉÉÉÉÉ.
Respota EEEEE
EEEEEE
EXATA!
Aqui. Bonitinho, não?
Então, prá todo mundo ir se acostumando com o meu jeito descoordenado-brega-nonsense-absurdo, aí vai um "pequeno" texto que redigi durante a minha aula de PSICOLOGIA DA PERCEPÇÃO - vêem? sou chique no último. Então, quem tiver paciência, lê. Quem não tiver, sei lá, xinga, diz que eu tenho qeu parar de escrever essas coisas longas e tal.
Aí vai.
"Era mais do que tão somente vento no litoral; era sopro de vida que sacudia seu frágil corpo equilibrado em saltos que em nada combinavam com a paisagem e os transeuntes que trajavam tênis e moletom. Mas ela parecia não se importar; mero detalhe, ela estava ali, plena terça-feira, sentindo o cair da tarde sobre seus ombros de leve e com um suspiro continuava a caminhar, bolsa pesada, casaco a tira-colo - pode esfriar - e um acaso nunca foi tão bem-vindo quanto hoje.
Hoje, que tanta coisa pareceu pesar e o ar do escritório vinha mais denso que de costume; hoje, que essa saudade nada nômade cismou de explodir de repente, hoje ela não aguentaria não respirar por mais um dia.
Há quanto tempo não fazia isso? Em dia de semana, talvez nunca. De verdade. E passou a se perguntar se isso tudo tudo de corre-estuda-trabalha-come vale a pena. Não, mas isso não vinha ao caso, não naquela hora.
Acabara de ouvir a sua voz. Era alguém feliz, afinal. Andou por talvez alguns postos da praia de Copacabana, até que resolveu sentar-se num banco, perto do Forte. Há qunato tempo não via o forte? Céus, era ainda uma criança quando veio pela última vez e não tinha discernimento para perceber o quanto era bonito. Bonito não, lindo. Lindo não, maravilhoso. Ou será que eram seus olhos e sua idade e seu momento que a faziam ver com aquela cor?
Aquela cor, meu deus, aquela cor. Aquele cheiro salgado e o sol se pondo, o Pão de Açúcar ficando vermelho e ela lá - sozinha. Frente a tudo aquilo lindo e indo e vindo e passando tudo ao mesmo tempo, aquela sensação sublime e a vida inteira antiga passando feito um filme e a vida inteira futura também passando - só que meio branca, porque ela ainda não rascunhou as palavras todas, mas não fazia diferença, porque mesmo com tudo isso e essas coisas todas girando e girando, ela só pensava em você.
E mesmo sentindo-se quase evaporando em forma de felicidade, essa ponta a deixava sólida e líquida, com lágrimas que ousavam querer misturar-se àquele mar que batia e batia e parecia ser no ritmo desse coração que lamnetava a sua falta ali.
Ela me contou tudo isso, quando caminhava rumo à Ipanema, deixando Copa e o Forte e o choro prá trás; a noite vinha a galope e depois de prédios e ruas e carros, a Lagoa.
E era tão ou mais bela e sublime, negra e iluminada e perturbadora, porque não o trazia até ela, que fez uma oração ao pé do Cristo; era algo meio soluçado, quase não dava prá entender, mas falava de amor e de te ter com ela, seu naior desejo hoje. Hoje e sempre, porque depois de viver esses dias de solidão, cada dia corrido ao seu lado terá de ser celebrado como bênção e nunca poderá ficar em branco, sem arte-final, porque vc por si só é a comemoração suprema da vitória.
Olhou o relógio do telefone, porque fez o favor de quebrar o de pulso que tinha, e já era tarde; andou rápido e o salto não aguentou, quebrou-se tbm, droga, teria de andar mancando ate às onze da noite; hora em que vc começa a se preocupar de verdade, e que ela liga; quantas vezes vcs se falam por dia?
Ainda que fosse o dia inteiro, não diminuiria a saudade que ela sente de ti, e eu sinto isso. Sinto tanto que até eu, feixe estreito e racional dela, passo a pensar e agir em direção a vc, por todos os momentos da minha vida."
MELOOOOOOOOOSO.
Mas eu sou ridícula assim mesmo.
:::::::::::::::::::::::::
Aí, Presí ( minha abreviação para Presidente ): a gente temos que mudar o layout dessa budega.... Conversemos sobre isso imersos em cerveja e boa música.
Sem mais,
Menina.
Entre nomeações e revelações, cá estamos nós. E como agora tô de bób porque tirei férias da torre, ADIVINHA AONDE VOU INFERNIZAR AGORA? Uma chance.
PÉÉÉÉÉÉÉÉ.
Respota EEEEE
EEEEEE
EXATA!
Aqui. Bonitinho, não?
Então, prá todo mundo ir se acostumando com o meu jeito descoordenado-brega-nonsense-absurdo, aí vai um "pequeno" texto que redigi durante a minha aula de PSICOLOGIA DA PERCEPÇÃO - vêem? sou chique no último. Então, quem tiver paciência, lê. Quem não tiver, sei lá, xinga, diz que eu tenho qeu parar de escrever essas coisas longas e tal.
Aí vai.
"Era mais do que tão somente vento no litoral; era sopro de vida que sacudia seu frágil corpo equilibrado em saltos que em nada combinavam com a paisagem e os transeuntes que trajavam tênis e moletom. Mas ela parecia não se importar; mero detalhe, ela estava ali, plena terça-feira, sentindo o cair da tarde sobre seus ombros de leve e com um suspiro continuava a caminhar, bolsa pesada, casaco a tira-colo - pode esfriar - e um acaso nunca foi tão bem-vindo quanto hoje.
Hoje, que tanta coisa pareceu pesar e o ar do escritório vinha mais denso que de costume; hoje, que essa saudade nada nômade cismou de explodir de repente, hoje ela não aguentaria não respirar por mais um dia.
Há quanto tempo não fazia isso? Em dia de semana, talvez nunca. De verdade. E passou a se perguntar se isso tudo tudo de corre-estuda-trabalha-come vale a pena. Não, mas isso não vinha ao caso, não naquela hora.
Acabara de ouvir a sua voz. Era alguém feliz, afinal. Andou por talvez alguns postos da praia de Copacabana, até que resolveu sentar-se num banco, perto do Forte. Há qunato tempo não via o forte? Céus, era ainda uma criança quando veio pela última vez e não tinha discernimento para perceber o quanto era bonito. Bonito não, lindo. Lindo não, maravilhoso. Ou será que eram seus olhos e sua idade e seu momento que a faziam ver com aquela cor?
Aquela cor, meu deus, aquela cor. Aquele cheiro salgado e o sol se pondo, o Pão de Açúcar ficando vermelho e ela lá - sozinha. Frente a tudo aquilo lindo e indo e vindo e passando tudo ao mesmo tempo, aquela sensação sublime e a vida inteira antiga passando feito um filme e a vida inteira futura também passando - só que meio branca, porque ela ainda não rascunhou as palavras todas, mas não fazia diferença, porque mesmo com tudo isso e essas coisas todas girando e girando, ela só pensava em você.
E mesmo sentindo-se quase evaporando em forma de felicidade, essa ponta a deixava sólida e líquida, com lágrimas que ousavam querer misturar-se àquele mar que batia e batia e parecia ser no ritmo desse coração que lamnetava a sua falta ali.
Ela me contou tudo isso, quando caminhava rumo à Ipanema, deixando Copa e o Forte e o choro prá trás; a noite vinha a galope e depois de prédios e ruas e carros, a Lagoa.
E era tão ou mais bela e sublime, negra e iluminada e perturbadora, porque não o trazia até ela, que fez uma oração ao pé do Cristo; era algo meio soluçado, quase não dava prá entender, mas falava de amor e de te ter com ela, seu naior desejo hoje. Hoje e sempre, porque depois de viver esses dias de solidão, cada dia corrido ao seu lado terá de ser celebrado como bênção e nunca poderá ficar em branco, sem arte-final, porque vc por si só é a comemoração suprema da vitória.
Olhou o relógio do telefone, porque fez o favor de quebrar o de pulso que tinha, e já era tarde; andou rápido e o salto não aguentou, quebrou-se tbm, droga, teria de andar mancando ate às onze da noite; hora em que vc começa a se preocupar de verdade, e que ela liga; quantas vezes vcs se falam por dia?
Ainda que fosse o dia inteiro, não diminuiria a saudade que ela sente de ti, e eu sinto isso. Sinto tanto que até eu, feixe estreito e racional dela, passo a pensar e agir em direção a vc, por todos os momentos da minha vida."
MELOOOOOOOOOSO.
Mas eu sou ridícula assim mesmo.
:::::::::::::::::::::::::
Aí, Presí ( minha abreviação para Presidente ): a gente temos que mudar o layout dessa budega.... Conversemos sobre isso imersos em cerveja e boa música.
Sem mais,
Menina.
19.8.03
Acho que todos já sabem mas achei melhor comunicar, deixar público!
Apresento a vocês a nova VICE-PRESIDENTE DE OPERAÇÕES DO DESCOBRIQUE...: MENINA "PANGA" DA TORRE!
Seja bem-vinda e nós da equipe DESCOBRI QUE... através do seu presidente (eu, claro) acreditamos que você fará um excelente trabalho.
Depois você vem aqui e faz a coreografia dos bonequinhos, tá?
Apresento a vocês a nova VICE-PRESIDENTE DE OPERAÇÕES DO DESCOBRIQUE...: MENINA "PANGA" DA TORRE!
Seja bem-vinda e nós da equipe DESCOBRI QUE... através do seu presidente (eu, claro) acreditamos que você fará um excelente trabalho.
Depois você vem aqui e faz a coreografia dos bonequinhos, tá?
18.8.03
Não, gente boa!! Eu não morri! Ainda vou azucrinas vossas vidas por muito tempo!
Agora sério: as coisas estão caminhando e estão caminhando o que promete ser uma distância looonga... até o Canadá! É isso aí, meninos e meninas. Vou morar no Canadá por um período que ainda não sei se será breve ou longo. Quero ver se trabalho um pouco no que eles chamam de subemprego (passear/lavar cachoro, lavar pratos.... ) mas que pagam alguma coisa por volta de 10 dólares canadenses (mais ou menos assim 1dinheiro canadense=2dinehros tupiniquins), juntar uma grana, voltar pra cá e aí sim, decidir o que eu vou fazer da minha vida. Um grande amigo meu manifestou interesse em ir também o que baratearia os custos de permanência lá fora.
- Mas, Marcio - meu filho, de onde você tirou essa idéia?
Foi assim: noivado terminado, duro feito um côco mas chegando perto de pagar tudo e a todos que devo, resolvi que, se for pra passar por pindaíba, que seja em moeda estrangeira!
Tenho alguns poucos porém fiéis amigos aqui no Brasil que tenho certeza, vão me dar uma puta força apesar de não contarem com a minha presença física. Tenho mamãe que me ama mas, como toda mamãe passarinho, já está empurrando o filhote do ninho e o filhote é que está relutando em sair. Tenho uma gata que é uma lady inglesa e não dá muita bola para humanos mas vai se distrair com as perturbações do tio dela (o gato da minha mãe que é um porre mas é uma graça).
Na verdade estou deixando coisas valiosas aqui mas é só por um período. E além do mais, ainda tenho esse espacinho aqui para entretê-los com minha aventuras numa terra distante!
Vai ser legal! Vocês vão ver!
Agora sério: as coisas estão caminhando e estão caminhando o que promete ser uma distância looonga... até o Canadá! É isso aí, meninos e meninas. Vou morar no Canadá por um período que ainda não sei se será breve ou longo. Quero ver se trabalho um pouco no que eles chamam de subemprego (passear/lavar cachoro, lavar pratos.... ) mas que pagam alguma coisa por volta de 10 dólares canadenses (mais ou menos assim 1dinheiro canadense=2dinehros tupiniquins), juntar uma grana, voltar pra cá e aí sim, decidir o que eu vou fazer da minha vida. Um grande amigo meu manifestou interesse em ir também o que baratearia os custos de permanência lá fora.
- Mas, Marcio - meu filho, de onde você tirou essa idéia?
Foi assim: noivado terminado, duro feito um côco mas chegando perto de pagar tudo e a todos que devo, resolvi que, se for pra passar por pindaíba, que seja em moeda estrangeira!
Tenho alguns poucos porém fiéis amigos aqui no Brasil que tenho certeza, vão me dar uma puta força apesar de não contarem com a minha presença física. Tenho mamãe que me ama mas, como toda mamãe passarinho, já está empurrando o filhote do ninho e o filhote é que está relutando em sair. Tenho uma gata que é uma lady inglesa e não dá muita bola para humanos mas vai se distrair com as perturbações do tio dela (o gato da minha mãe que é um porre mas é uma graça).
Na verdade estou deixando coisas valiosas aqui mas é só por um período. E além do mais, ainda tenho esse espacinho aqui para entretê-los com minha aventuras numa terra distante!
Vai ser legal! Vocês vão ver!
14.8.03
DESCOBRI QUEeu sou uma pessoa muito mais suscetível a sonhos do que eu imaginava; que acordo e sinto tão ou mais forte do que estava acontecendo em minha mente, e sinto cheiro, gosto, dor, quente e frio, uma loucura.
Tento entender, mas não consigo. Não vejo sentido em muitas coisas, nada encaixa ou tem coesão, mas por vezes acontecem coisas que têm todo um porquê, toda uma justificativa pra acontecer.
Essa noite eu sonhei com um neném. A minha filha, uma menina, que eu quero tanto ter um dia. Ela era assim, de uma pele branca e um cabelo negro lindo, olhos eu não podia ver, porque acabava de nascer de mim e portanto ainda não tinha força para mostrar-me a íris. Nascia em casa; eu não sentia dor alguma, e ele a pegava no colo e sussurrava algo; ela ficava quietinha ouvindo, um momento mágico dos deuses.
Não vem ao caso relatar por que isso mexeu tanto comigo; basta dizer que a minha sensibilidade para crianças me espanta e, embora eu estivesse muito feliz lá, naquele sonho que eu não queria que acabasse, acordei com um vazio imenso no peito e um medo de nunca mais poder realizar a cena. E nem o sonho.
..:: Porra, essa pílula tá acabando comigo. Olha como eu tô fresca?????
Tento entender, mas não consigo. Não vejo sentido em muitas coisas, nada encaixa ou tem coesão, mas por vezes acontecem coisas que têm todo um porquê, toda uma justificativa pra acontecer.
Essa noite eu sonhei com um neném. A minha filha, uma menina, que eu quero tanto ter um dia. Ela era assim, de uma pele branca e um cabelo negro lindo, olhos eu não podia ver, porque acabava de nascer de mim e portanto ainda não tinha força para mostrar-me a íris. Nascia em casa; eu não sentia dor alguma, e ele a pegava no colo e sussurrava algo; ela ficava quietinha ouvindo, um momento mágico dos deuses.
Não vem ao caso relatar por que isso mexeu tanto comigo; basta dizer que a minha sensibilidade para crianças me espanta e, embora eu estivesse muito feliz lá, naquele sonho que eu não queria que acabasse, acordei com um vazio imenso no peito e um medo de nunca mais poder realizar a cena. E nem o sonho.
..:: Porra, essa pílula tá acabando comigo. Olha como eu tô fresca?????
13.8.03
11.8.03
PEDIDO PÚBLICO DE DESCULPAS E UM POUCO DE AUTO ANÁLISE:
Desculpe mesmo! Apesar de conhecer a grande maioria das regras de etiqueta e, consequentemente, saber que não deve falar mal dos amigos alheios, eu continuo fazendo esse tipo de burrada!
É claro que você tentou defender. Se você falasse mal da Pedrita, eu faria a mesma coisa!
A verdade é que eu estou ficando velho, rabugento, mal humorado e ranzinza! Tem jeito não! Se alguém aí já viu aquele seriado que passa na TV a cabo "Becker", aquele personagem foi inspirado em mim!
Tem uma outra coisa também: há tempos que eu venho planejando fazer alguma coisa bacana pra você e pro seu namorado lá na minha casa. Achei que no próximo fim de semana eu ia poder juntar o fato de ele estar aqui e de ter a casa vazia.
Paciência.... Sabe quem perde com isso? Eu.
Desculpe mesmo! Apesar de conhecer a grande maioria das regras de etiqueta e, consequentemente, saber que não deve falar mal dos amigos alheios, eu continuo fazendo esse tipo de burrada!
É claro que você tentou defender. Se você falasse mal da Pedrita, eu faria a mesma coisa!
A verdade é que eu estou ficando velho, rabugento, mal humorado e ranzinza! Tem jeito não! Se alguém aí já viu aquele seriado que passa na TV a cabo "Becker", aquele personagem foi inspirado em mim!
Tem uma outra coisa também: há tempos que eu venho planejando fazer alguma coisa bacana pra você e pro seu namorado lá na minha casa. Achei que no próximo fim de semana eu ia poder juntar o fato de ele estar aqui e de ter a casa vazia.
Paciência.... Sabe quem perde com isso? Eu.
Descobri que eu sou uma adolescente pró-romântica-melosa-babona-cor-de-rosa, daquelas que desenham coração em porta de banheiro público, porque algo de errado eu tenho de fazer. E com flecha, nome Fulana e Beltrano, essas coisas bregas e piegas e maravilhosas que nos assolam em certos momentos da vida.
Então, eu escrevo litros de textos que se forem torcidos, derramam melado, ou algo tão doce quanto, e tenho medo disso tudo enjoar. Descobri que esse medo é até sadio, e que não pode me travar a escrita, porque "afinal, escrever não é romancear os sentimentos"? É, amigo. É muito mais que isso, eu acho.
E talvez eu tenha descoberto que colcoar em linhas meio tortas e bambas o que se sente - isso sim, seguro e confiante - é de certa maneira uma forma de abrir mais uma porta para o outro entrar e sentar-se mais perto daquilo que vc possui de mais precioso no peito e não, eu não falo de mamilos, falo de algo maior e tão sensível quanto, porém não ao toque. Ao olhar. Ao dizer baixo no ouvido o quanto te ama.
É, tá vendo aí? Eu tô um saco. Porque eu só tenho pensado nisso, mesmo com os quilos prensados de problemas que eu tenho a resolver todo santo dia, e mesmo tendo que me concentrar em outros assuntos. Droga de vida. Maravilhosa vida.
Por favor... me dá um tapão nessa cabeça oca pra ver se o saquinho de lágrimas que fica dentro de mim estoura de vez e seca? Porque não é possível que eu produza tantas assim.
Então, eu escrevo litros de textos que se forem torcidos, derramam melado, ou algo tão doce quanto, e tenho medo disso tudo enjoar. Descobri que esse medo é até sadio, e que não pode me travar a escrita, porque "afinal, escrever não é romancear os sentimentos"? É, amigo. É muito mais que isso, eu acho.
E talvez eu tenha descoberto que colcoar em linhas meio tortas e bambas o que se sente - isso sim, seguro e confiante - é de certa maneira uma forma de abrir mais uma porta para o outro entrar e sentar-se mais perto daquilo que vc possui de mais precioso no peito e não, eu não falo de mamilos, falo de algo maior e tão sensível quanto, porém não ao toque. Ao olhar. Ao dizer baixo no ouvido o quanto te ama.
É, tá vendo aí? Eu tô um saco. Porque eu só tenho pensado nisso, mesmo com os quilos prensados de problemas que eu tenho a resolver todo santo dia, e mesmo tendo que me concentrar em outros assuntos. Droga de vida. Maravilhosa vida.
Por favor... me dá um tapão nessa cabeça oca pra ver se o saquinho de lágrimas que fica dentro de mim estoura de vez e seca? Porque não é possível que eu produza tantas assim.
8.8.03
Ai, ai...
Esses dias eu comentava com uma amiga e acabei comentando com outra amiga que só de pensar em sair com alguém me causa uma vontade incontrolável de ficar em casa.
Explico: não é que eu queira me tornar um eremita, sabe? É só que só de pensar em todo o investimento emocional que se faz, todas as promessas, todos os planos ... pode acontecer de nada dar certo. Isso faz parte, é claro. Mas eu estou um pouco escaldado por enquanto. E não me entendam mal! Eu não sou rancoroso e guardo na memória, só as coisas boas dos meus relacionamentos.
"modo flash back on" ou "modo good times 98 on"
Cena: Sujeito magro, razoavelmente alto escolhe um CD em uma das gôndolas de uma grande loja de CD's. Levanta a cabeça e avista uma moça não necessariamente bonita mas com um charme hipnotizante ao se mover, ajeitar o cabelo atrás da orelha e estar absorta na escolha do CD.
Nosso protagonista olha e se sente atraído por sua beleza da mocinha que está duas gôndolas depois da que ele se encontra. Em um átimo de segundo ele pensa: "quais CD's tem ali naquela gôndola? Hmmm... jazz com as letras 'C' e 'D'! Droga! Não dá pra ver o que ela está escolhendo! Tenho que chegar mais perto..."
O rapaz muda de gôndola o que faz com que a próxima, seja a gôndola em que ela estava correndo os olhos pelas lombadas dos CD's. Ele tenta inutilmente ver o que ela está escolhendo, desiste e vai até a gôndola onde ela estava. Parado ao lado dela e fingindo escolher um CD, ele percebe que ela além de atraente, é muito cheirosa. Não cheira àqueles perfumes femininos tão adocicados que causam náuseas. Seu perfume era discreto porém marcante.
Por obra do acaso, os dois esticam a mão para pegar o mesmo CD ao mesmo tempo. Meio envergonhado e meio divertido ele a olha nos olhos e pede desculpas com um meio sorriso nos lábios. Sentiu a temperatura do rosto aumentar bruscamente quando suas bochechas coraram. Baixou o rosto com um pouco de vergonha. Ela retribui o sorriso e diz que não foi nada. Muito gentil, ele pega o CD e entrega a ela que agradece meio desconcertada com a situação. Ela olha para os olhos dele e, finalmente, ele acha que a partir daí, ele pode ter uma chance.
Ele pensava constantemente que não era um sujeito bonitão do tipo que chama atenção na rua mas sabia que tinha um belo par de olhos e que seu olhar poderia hipnotizar. Era sincero e ao mesmo tempo escondia alguma coisa. Pelo menos ele pensava assim.
Enquanto ela olhava as músicas do CD ele se encheu de coragem e disparou:
- É pra você o CD?
- Mais ou menos.
- Desculpe perguntar mas é tão raro ver mulheres comprando CD's de jazz para si próprias...
Continuavam se olhando e ela percebeu que não conseguia desviar o olhar. Ele não percebeu isso e continuou:
- Principalmente bee-bop! Sempre tive em mente que mulheres preferissem sons menos dissonantes. Tipo Chet Baker ou algum outro compositor mais melódico.
- E você não está errado. Esse é para o...
"Pronto! É pro namorado!"
- ... meu pai! É aniversário dele!
"Ufa"
- Quer ajuda pra escolher?
- Imagina! Não quero atrapalhar a sua escolha.
- Não atrapalha não! Até ajuda! Quer?
- Quero.
então ele se dedicou a ajudá-la. A cada CD que ele sugeria, ele olhava fixamente para os olhos dela e reparava como ela era bonita e ... simétrica! Não era daquelas que tinha muito de uma coisa e nada de outra. Tinha uma beleza pouco comum.
O dia estava frio e meio chuvoso e ela usava uma saia longa, cinza que cobria o cano das botas pretas. A jaqueta de couro sobre uma camiseta branca e uma boina cinza na cabeça que deixava alguns cachos dos seus negros cabelos escaparem pelo lado e muitas vezes ficar sobre suas orelhas. O que fazia com que ela repetisse o gesto tão banal de prender o cabelo atrás das orelhas mas que ele achva chamosíssimo.
Ele reparou que apesar das roupas de cores escuras a beleza dela ainda brilhava. A pele clara, os olhos amendoados, os dentes muito brancos e perfeitos. Talvez ele tenha se apaixonado mas lutou contra esse pensamento pois não se achava pronto ainda.
Em dado momento ele reparou que havia um quarteto no canto da loja e que uma jam iria começar. Respirou fundo, se encheu de coragem e...
- Olha... eu possivelmente não deveria dizer isso mas acredite ou não, há muito tempo eu não o faço ! Eu estou encantado por você! Umas duas vezes eu me peguei querendo desviar os olhos dos seus mas não consegui. Eu queria muito te conhecer melhor. Será que você não beberia um refrigerante ou uma cerveja comigo ali no bar? Tem um quartetozinho ali e parece que eles vão começar daqui a pouco.
- Claro! Achei ótima a idéia e gostei da sua sinceridade!
Os dois escolheram uma mesa, sentaram-se e pediram seus drinks. Ela pediu uma dose de conhaque pois estava com frio. Ele, com um pouco de frio também, pediu um screwdriver.
De repente ele foi atingido por um piano em pleno descampado.
"O que é exatamente que eu estou fazendo aqui? Contando a história da minha vida pra uma mulher que eu conheci há pouco tempo como se daqui fosse sair alguma coisa!"
Ficou um pouco triste ao descobrir que sentia falta da estabilidade de um relacionamento. Da troca de confidências, da confiança em outra pessoa e dessa pessoa em você. Ma descobriu também que talvez não estivesse pronto. Não agora.
Tudo que ele temia passou pela sua cabeça como um filme. "E se eu não causar uma boa impressão?" "E se eu me apaixonar e ela não?" "E se ela se apaixonar e eu não?" "Peço o telefone dela? Se eu não pedir pode parecer que eu não estou interessado mas, por outro lado... ela pode achar que eu me interessei demais e me dar o número errado...."
Enquanto ele falava, contando os livros que leu, os filmes que adora e as músicas que venera, ela se inclinava para frente e apoiava o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Seus olhos brilhavam mas ainda assim, as aflições dele não permitiam que ele percebesse isso.
Mais uma vez ele se encheu de coragem e disse olhando para o relógio:
- Nossa olha a hora!
- É o tempo passou e eu nem notei!
- Adorei o papo contigo! Você vai me achar abusado se eu te pedir seu telefone e te ligar no fim de semana para um replay disso?
- Claro que não!! ... Toma aqui! Mas é pra ligar, tá?
- Vou ligar sim! Que tal na sexta?
- Considerando que hoje é quarta... sexta está ótimo! Mas liga mesmo!
"Merda! Ela tá insistindo demais! Esse número é errado com toda a certeza"
- Ok! Então... até sexta!
Se despediram com dois beijinhos no rosto e ele, tão convencido de que daquele mato não ia sair coelho, não se deu ao trabalho de acompanhar a saída dela perdendo a olhadela que ela deu para ele antes de sair da loja. Mas o mais marcante é que ele não acreditou quando na quinta feira às oito da manhã o telefone tocou e ele despertou com a voz doce dela dizendo que não agüentaria esperar até sexta...
Esses dias eu comentava com uma amiga e acabei comentando com outra amiga que só de pensar em sair com alguém me causa uma vontade incontrolável de ficar em casa.
Explico: não é que eu queira me tornar um eremita, sabe? É só que só de pensar em todo o investimento emocional que se faz, todas as promessas, todos os planos ... pode acontecer de nada dar certo. Isso faz parte, é claro. Mas eu estou um pouco escaldado por enquanto. E não me entendam mal! Eu não sou rancoroso e guardo na memória, só as coisas boas dos meus relacionamentos.
"modo flash back on" ou "modo good times 98 on"
Cena: Sujeito magro, razoavelmente alto escolhe um CD em uma das gôndolas de uma grande loja de CD's. Levanta a cabeça e avista uma moça não necessariamente bonita mas com um charme hipnotizante ao se mover, ajeitar o cabelo atrás da orelha e estar absorta na escolha do CD.
Nosso protagonista olha e se sente atraído por sua beleza da mocinha que está duas gôndolas depois da que ele se encontra. Em um átimo de segundo ele pensa: "quais CD's tem ali naquela gôndola? Hmmm... jazz com as letras 'C' e 'D'! Droga! Não dá pra ver o que ela está escolhendo! Tenho que chegar mais perto..."
O rapaz muda de gôndola o que faz com que a próxima, seja a gôndola em que ela estava correndo os olhos pelas lombadas dos CD's. Ele tenta inutilmente ver o que ela está escolhendo, desiste e vai até a gôndola onde ela estava. Parado ao lado dela e fingindo escolher um CD, ele percebe que ela além de atraente, é muito cheirosa. Não cheira àqueles perfumes femininos tão adocicados que causam náuseas. Seu perfume era discreto porém marcante.
Por obra do acaso, os dois esticam a mão para pegar o mesmo CD ao mesmo tempo. Meio envergonhado e meio divertido ele a olha nos olhos e pede desculpas com um meio sorriso nos lábios. Sentiu a temperatura do rosto aumentar bruscamente quando suas bochechas coraram. Baixou o rosto com um pouco de vergonha. Ela retribui o sorriso e diz que não foi nada. Muito gentil, ele pega o CD e entrega a ela que agradece meio desconcertada com a situação. Ela olha para os olhos dele e, finalmente, ele acha que a partir daí, ele pode ter uma chance.
Ele pensava constantemente que não era um sujeito bonitão do tipo que chama atenção na rua mas sabia que tinha um belo par de olhos e que seu olhar poderia hipnotizar. Era sincero e ao mesmo tempo escondia alguma coisa. Pelo menos ele pensava assim.
Enquanto ela olhava as músicas do CD ele se encheu de coragem e disparou:
- É pra você o CD?
- Mais ou menos.
- Desculpe perguntar mas é tão raro ver mulheres comprando CD's de jazz para si próprias...
Continuavam se olhando e ela percebeu que não conseguia desviar o olhar. Ele não percebeu isso e continuou:
- Principalmente bee-bop! Sempre tive em mente que mulheres preferissem sons menos dissonantes. Tipo Chet Baker ou algum outro compositor mais melódico.
- E você não está errado. Esse é para o...
"Pronto! É pro namorado!"
- ... meu pai! É aniversário dele!
"Ufa"
- Quer ajuda pra escolher?
- Imagina! Não quero atrapalhar a sua escolha.
- Não atrapalha não! Até ajuda! Quer?
- Quero.
então ele se dedicou a ajudá-la. A cada CD que ele sugeria, ele olhava fixamente para os olhos dela e reparava como ela era bonita e ... simétrica! Não era daquelas que tinha muito de uma coisa e nada de outra. Tinha uma beleza pouco comum.
O dia estava frio e meio chuvoso e ela usava uma saia longa, cinza que cobria o cano das botas pretas. A jaqueta de couro sobre uma camiseta branca e uma boina cinza na cabeça que deixava alguns cachos dos seus negros cabelos escaparem pelo lado e muitas vezes ficar sobre suas orelhas. O que fazia com que ela repetisse o gesto tão banal de prender o cabelo atrás das orelhas mas que ele achva chamosíssimo.
Ele reparou que apesar das roupas de cores escuras a beleza dela ainda brilhava. A pele clara, os olhos amendoados, os dentes muito brancos e perfeitos. Talvez ele tenha se apaixonado mas lutou contra esse pensamento pois não se achava pronto ainda.
Em dado momento ele reparou que havia um quarteto no canto da loja e que uma jam iria começar. Respirou fundo, se encheu de coragem e...
- Olha... eu possivelmente não deveria dizer isso mas acredite ou não, há muito tempo eu não o faço ! Eu estou encantado por você! Umas duas vezes eu me peguei querendo desviar os olhos dos seus mas não consegui. Eu queria muito te conhecer melhor. Será que você não beberia um refrigerante ou uma cerveja comigo ali no bar? Tem um quartetozinho ali e parece que eles vão começar daqui a pouco.
- Claro! Achei ótima a idéia e gostei da sua sinceridade!
Os dois escolheram uma mesa, sentaram-se e pediram seus drinks. Ela pediu uma dose de conhaque pois estava com frio. Ele, com um pouco de frio também, pediu um screwdriver.
De repente ele foi atingido por um piano em pleno descampado.
"O que é exatamente que eu estou fazendo aqui? Contando a história da minha vida pra uma mulher que eu conheci há pouco tempo como se daqui fosse sair alguma coisa!"
Ficou um pouco triste ao descobrir que sentia falta da estabilidade de um relacionamento. Da troca de confidências, da confiança em outra pessoa e dessa pessoa em você. Ma descobriu também que talvez não estivesse pronto. Não agora.
Tudo que ele temia passou pela sua cabeça como um filme. "E se eu não causar uma boa impressão?" "E se eu me apaixonar e ela não?" "E se ela se apaixonar e eu não?" "Peço o telefone dela? Se eu não pedir pode parecer que eu não estou interessado mas, por outro lado... ela pode achar que eu me interessei demais e me dar o número errado...."
Enquanto ele falava, contando os livros que leu, os filmes que adora e as músicas que venera, ela se inclinava para frente e apoiava o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Seus olhos brilhavam mas ainda assim, as aflições dele não permitiam que ele percebesse isso.
Mais uma vez ele se encheu de coragem e disse olhando para o relógio:
- Nossa olha a hora!
- É o tempo passou e eu nem notei!
- Adorei o papo contigo! Você vai me achar abusado se eu te pedir seu telefone e te ligar no fim de semana para um replay disso?
- Claro que não!! ... Toma aqui! Mas é pra ligar, tá?
- Vou ligar sim! Que tal na sexta?
- Considerando que hoje é quarta... sexta está ótimo! Mas liga mesmo!
"Merda! Ela tá insistindo demais! Esse número é errado com toda a certeza"
- Ok! Então... até sexta!
Se despediram com dois beijinhos no rosto e ele, tão convencido de que daquele mato não ia sair coelho, não se deu ao trabalho de acompanhar a saída dela perdendo a olhadela que ela deu para ele antes de sair da loja. Mas o mais marcante é que ele não acreditou quando na quinta feira às oito da manhã o telefone tocou e ele despertou com a voz doce dela dizendo que não agüentaria esperar até sexta...
4.8.03
Tinha entrado na primeira estação do metro e estranho o quão vazia estava. Olhou ao redor e viu umas poucas pessoas com ares um tanto ou quanto ranzinza mas se conformou que aquela era a expressão “normal” que se via nos rostos de quem transitava pelas ruas da cidade.
Enquanto esperava a composição achou que seria engraçado reparar se as pessoas tinham a “cara” da roupa que vestiam ou vice-versa. De fato a brincadeira estava divertida e ainda fazia com que a espera parecesse mais curta.
Viu uma moça bonita vestindo uma roupa bem simples: calça cáqui e uma camiseta também em tons pastéis. Combinavam com a pessoa sim. Porque não? Ela era bem bonitinha, usava óculos de gatinha (o que talvez não fosse condizente comas suas roupas ou estilo de ser) e os cabelos castanhos que lhe batiam no ombro, estavam comportadamente escovados e brilhosos.
Mas o mais curioso da viagem aconteceu quando já estava sentado e o trem já havia andado umas três ou quatro estações.
um senhor já bem velhinho entrou no trem trajando um elegante terno cinza de risca de giz. As listras eram bem suaves e ele achou que talvez não tivesse reparado nelas se o velhinho não estivesse realmente elegante.
- Possivelmente vai resolver alguma coisa importante. Deve ser seu melhor terno. – Pensou nisso distraidamente enquanto checava, pela enésima vez, se os papeis estavam dentro da pasta e se ficaria nervoso na hora do encontro com o cliente.
Tudo checado, tudo em cima, voltou a reparar no velhinho. Com isso, reparou também que algumas pessoas olhavam para ele e se divertiam. Riam veladamente e algumas faziam força para prender o riso. Achou aquilo uma afronta e resolveu averiguar o porque da chacota.
Levantou-se e ofereceu seu lugar para o velhinho elegante. O velhinho agradeceu muito educadamente mas ainda assim, pareceu um pouco incomodado com a minha atitude.
Por estarem um pouco distantes, o velhinho teve que andar uns três passos para chegar até o assento vazio. Nesse meio tempo, pode perceber que havia um mafuá de fita adesiva presa na sola do sapato do velhinho. Tanta fita fez aquilo parecer um laço de fita grotesco e sem a graça brilhante das fitas que embrulham nossos presentes.
Ao ver que esse era o motivo das risadas alheias pensou numa forma de retirar o falso e esdrúxulo laço de fita ou de avisar ao velhinho. Diante da elegância do mesmo achou por bem tirar o ridículo enfeite sem fazer alarde.
Com um movimento de quadril conseguiu passar para o lado do velhinho onde estava o infame bolo de fita. Pisou firmemente sobre um pedaço de fita e viu que a mesma desgrudara do pé do velhinho.
Distraidamente pensou – Sapatos bem engraxados! Não merecem isso! – Ficou em pé de modo que veria o velhinho a todo tempo. Quando percebeu que a estação do senhor tinha chegado, ficou observando até que as portas se fecharam com um apito estridente.
O velhinho saiu do trem, ajeitou a gravada e o colete, empertigou-se e foi andando resolver o quer que fosse.
E ele ali. Ainda se sentindo bem. Olhou ao redor e se sentiu melhor ainda por perceber que ninguém reparou no que fizera e esse, foi sua grande recompensa.
Enquanto esperava a composição achou que seria engraçado reparar se as pessoas tinham a “cara” da roupa que vestiam ou vice-versa. De fato a brincadeira estava divertida e ainda fazia com que a espera parecesse mais curta.
Viu uma moça bonita vestindo uma roupa bem simples: calça cáqui e uma camiseta também em tons pastéis. Combinavam com a pessoa sim. Porque não? Ela era bem bonitinha, usava óculos de gatinha (o que talvez não fosse condizente comas suas roupas ou estilo de ser) e os cabelos castanhos que lhe batiam no ombro, estavam comportadamente escovados e brilhosos.
Mas o mais curioso da viagem aconteceu quando já estava sentado e o trem já havia andado umas três ou quatro estações.
um senhor já bem velhinho entrou no trem trajando um elegante terno cinza de risca de giz. As listras eram bem suaves e ele achou que talvez não tivesse reparado nelas se o velhinho não estivesse realmente elegante.
- Possivelmente vai resolver alguma coisa importante. Deve ser seu melhor terno. – Pensou nisso distraidamente enquanto checava, pela enésima vez, se os papeis estavam dentro da pasta e se ficaria nervoso na hora do encontro com o cliente.
Tudo checado, tudo em cima, voltou a reparar no velhinho. Com isso, reparou também que algumas pessoas olhavam para ele e se divertiam. Riam veladamente e algumas faziam força para prender o riso. Achou aquilo uma afronta e resolveu averiguar o porque da chacota.
Levantou-se e ofereceu seu lugar para o velhinho elegante. O velhinho agradeceu muito educadamente mas ainda assim, pareceu um pouco incomodado com a minha atitude.
Por estarem um pouco distantes, o velhinho teve que andar uns três passos para chegar até o assento vazio. Nesse meio tempo, pode perceber que havia um mafuá de fita adesiva presa na sola do sapato do velhinho. Tanta fita fez aquilo parecer um laço de fita grotesco e sem a graça brilhante das fitas que embrulham nossos presentes.
Ao ver que esse era o motivo das risadas alheias pensou numa forma de retirar o falso e esdrúxulo laço de fita ou de avisar ao velhinho. Diante da elegância do mesmo achou por bem tirar o ridículo enfeite sem fazer alarde.
Com um movimento de quadril conseguiu passar para o lado do velhinho onde estava o infame bolo de fita. Pisou firmemente sobre um pedaço de fita e viu que a mesma desgrudara do pé do velhinho.
Distraidamente pensou – Sapatos bem engraxados! Não merecem isso! – Ficou em pé de modo que veria o velhinho a todo tempo. Quando percebeu que a estação do senhor tinha chegado, ficou observando até que as portas se fecharam com um apito estridente.
O velhinho saiu do trem, ajeitou a gravada e o colete, empertigou-se e foi andando resolver o quer que fosse.
E ele ali. Ainda se sentindo bem. Olhou ao redor e se sentiu melhor ainda por perceber que ninguém reparou no que fizera e esse, foi sua grande recompensa.
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